Crônica em sala de aula: entre literatura e jornalismo

Relembre algumas características do gênero e conheça alguns dos principais autores que o alçaram ao status de literatura

POR:
Wellington Soares, Bruno Mazzoco, NOVA ESCOLA
Rubem Braga, considerado o maior cronista brasileiro, que completaria cem anos em 2013. Foto: LUIGI MAMPRIM

"Os americanos, através do radar, entraram em contato com a lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho." A passagem de abertura de "Um pé de milho", crônica de Rubem Braga, sintetiza uma das principais características do gênero: usar temas e linguagens típicos do cotidiano do leitor e assim criar cumplicidade entre autor e público. "É como uma conversa ao pé do ouvido", explica Carlos Ribeiro, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Por serem publicadas em jornais, é comum que as crônicas tenham alguns traços típicos dos textos informativos, como o uso de temas atuais e uma maior preocupação com a clareza na escrita. Apesar disso, é notável a presença de elementos típicos da literatura. "A elaboração dos textos é muito cuidadosa. Notamos sempre elementos como figuras de linguagem, a falta de linearidade temporal e formas do discurso que não são típicas das notícias", ressalta Mariana Luz Pessoa de Barros, doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Colégio Santa Cruz, em São Paulo. Portanto, usar crônicas para aproximação dos alunos com textos literários pode ser uma proposta interessante.


Uma possibilidade é usar o gênero justamente para mostrar as diferenças entre os estilos jornalístico e literário. "A crônica ‘Um pé-de-milho’ é um bom texto para fazer isso. Para o jornalismo, o que acontece com essa planta não é mais importante do que estabelecer contato com a lua", explica Mariana.

Com sua origem ancorada no estudo da História, a crônica nasceu como registro histórico e relato da vida de nobres e monarcas. Sua versão moderna surge com o crescimento dos jornais na França do século 19. Desde então, o gênero passou por alterações e estabeleceu morada nos periódicos brasileiros. "Em meados do século 19 tivemos nosso primeiro grande cronista, Machado de Assis", conta o crítico literário André Seffrin. "A consagração do gênero veio logo em seguida com Rubem Braga, e outros autores de sucesso como Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Carlinhos Oliveira."

Conheça na página seguinte alguns desses escritores.
Grandes cronistas brasileiros

Rubem Braga .Foto: ANTONIO ANDRADE
Rubem Braga (1913 - 1990)
Natural de Cachoeiro do Itapemirim, a 153 km de Vitória, no Espírito Santo, é considerado o maior cronista brasileiro e um dos maiores escritores da literatura em Língua Portuguesa. "Ele é o grande responsável por alçar a crônica ao status de grande literatura", explica Carlos Ribeiro, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Sugestão de livro:
200 crônicas escolhidas (Ed. Record, 490 págs., 37,90 reais, 21/2585-2000)

Fernando Sabino .Foto: OSCAR CABRAL
Fernando Sabino (1923 - 2004)
Publica seu primeiro livro aos 18 anos . Empolgado, envia um exemplar a Mário de Andrade, que o responde: "Se você está rodeando os 20 anos, de 20 a 25, como imagino, lhe garanto que o seu caso é bem interessante, você promete muito. E o livro, neste caso, é bom". Iniciava-se assim a amizade que duraria até a morte do modernista, em 1945.
Sugestão de livro:
As melhores crônicas de Fernando Sabino (Ed. Best Bolso, 196 págs., 14,90 reais, 11-3286-0802)

Moacyr Scliar. Foto: LIANE NEVES
Moacyr Scliar (1937 - 2011)
Filho de russos nascido em Porto Alegre, dedicou a vida a duas grandes paixões: a medicina e a literatura, lecionando em Universidades em ambas as áreas. Publicou em vida mais de 70 livros. Sua obra é influenciada principalmente pela condição de filho de imigrantes e pela formação médica. Como cronista, colaborou nos jornais Zero Hora e Folha de S. Paulo.
Sugestão de livro: A poesia das coisas simples (Ed. Companhia das Letras, 256 págs., 29,50 reais, 11/3707-3501)

Luis Fernando Veríssimo. Foto: LIANE NEVES
Luis Fernando Veríssimo (1936 - )
Conhecido pelas crônicas bem humoradas, que satirizam os costumes da sociedade, é filho do também escritor Érico Veríssimo. Alcançou fama com o  livro "O analista de Bagé", em que conta divertidos causos de um psicanalista gaúcho que atende seus pacientes de bombacha e tomando chimarrão. Criou também personagens como o detetive Ed Mort e a Velinha de Taubaté.
Sugestão de livro: O nariz e outras crônicas (Ed. Ática, 112 págs., 32,90 reais, 4003-3061)
Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias