Prepare-se para cenas dramáticas

A tarefa é analisar um novo gênero e escrever uma peça teatral

POR:
Anna Rachel Ferreira
As crianças fizeram leituras dramáticas com muita atenção à entonação da voz. Foto: Joyce Cury
As crianças fizeram leituras dramáticas com muita atenção à entonação da voz

Durante o estudo de lendas, a turma do 5º ano da EMEB Professor Carlindo Paroli, em Mococa, a 272 quilômetros de São Paulo, foi desafiada por Tatiana Zuccolotto a trabalhar com textos dramáticos. A classe escolheu a lenda de Narciso para transformar em peça de teatro e fazer a leitura dramática.

Um dos objetivos era explorar as características do texto de teatro (leia na última página um trecho da produção feita pelos estudantes e algumas das características levantadas por eles ao longo do projeto). "Ao fazer a passagem de um gênero para o outro, o estudante pode aprender a estrutura e os recursos linguísticos de ambos por meio da comparação", explica Yara Miguel, formadora do programa Ler e Escrever, da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo. Tatiana estava bastante empenhada também em enfatizar o trabalho com a oralidade. Faltavam entonação e fluência aos alunos.

Para dar os primeiros passos, a professora selecionou no acervo da biblioteca textos dramáticos de autores consagrados. "Busquei obras que tivessem vários exemplares à disposição, pois todos precisariam ter acesso ao material na hora da leitura", conta. Ao distribuir os exemplares, ela pediu que eles falassem o que sabiam sobre o gênero teatro e que tomassem notas no caderno das marcas importantes ao longo do estudo. Com essa conversa inicial, ficou sabendo que muitos já tinham visto algumas encenações, mas ninguém tinha tido contato com peças por escrito.

A primeira leitura foi O Rapto das Cebolinhas (Pluft, o Fantasminha e Outras Peças, Maria Clara Machado, 320 págs., Ed. Nova Fronteira, tel. 21/3882-8200, 37,90 reais). Antes de iniciar, a educadora questionou as crianças sobre o tipo de texto que esperavam encontrar, e de que ele trataria. "Para uma boa leitura dramática, é preciso conhecer a narrativa previamente. Por isso, é importante uma apreciação da história e a discussão sobre as características dos personagens", diz Cassiano Quilici, do curso de Artes do Corpo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em seguida, voluntários leram o material em voz alta. A professora fez intervenções chamando a atenção para as orientações entre parênteses presentes no texto - que indicam como as falas devem ser lidas. Terminada a apresentação, ela questionou sobre o modo como a peça começava, como os personagens eram apresentados e o que eram os atos, por exemplo. Foram incorporadas mais informações ao caderno.

A segunda leitura foi de Pluft, o Fantasminha. A sequência anterior foi repetida. Só que dessa vez todos leram. A classe foi organizada em grupos, e os personagens distribuídos por Tatiana. O rol de características descobertas só aumentava. Por fim, a criançada se dedicou a O Fantástico Mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira, seguindo mais uma vez o mesmo esquema.

"É importante ler mais de uma obra para não criar e perpetuar estereótipos sobre o gênero dramático", diz Maria Amélia David, professora da Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Pensando nisso, a cada leitura, Tatiana fazia perguntas para estabelecer comparações entre os textos lidos. Os alunos elaboraram um cartaz que foi afixado na sala com as semelhanças e diferenças entre eles.

A leitura dramática recebeu atenção todo o tempo. A educadora conversou com os estudante sobre o que nos faz entender a história. Eles disseram que era a expressão dos personagens.

Escrever uma peça sobre Narciso

Familiarizadas com o gênero, as crianças tinham de criar o próprio texto. Elas pesquisaram outras versões da lenda de Narciso para se aprofundar no tema. Como desde o início demonstraram empatia pela personagem Eco, ficou combinado que elas usariam a versão em que ela é o alvo do amor do protagonista.

Antes da escrita propriamente dita, as ideias foram organizadas em um roteiro, registrado pela professora no computador. A classe acompanhou por meio da projeção em Datashow. Atividade pronta, foram formadas duplas com a tarefa de pesquisar as características dos 12 personagens que fariam parte da peça. Em seguida, a sala começou a escrever, tendo Tatiana como escriba. Ela ficou atenta para retomar o roteiro e as características do gênero. "No início, tive a tendência de controlar a criação. A coordenadora pedagógica me ajudou a cuidar para que a peça fosse um trabalho coletivo e eu agisse como mediadora", conta a professora.

A escrita do texto durou cinco aulas. Quando ele foi finalizado, a educadora ficou uma semana sem trabalhar com a produção para que os estudantes pudessem ganhar um olhar distanciado e retomá-lo mais adiante, para fazer a revisão, realizada em duas etapas. Nesse processo, notando que havia poucas marcas que indicam as ações e emoções dos personagens, os alunos as criaram. Tatiana ainda chamou a atenção para problemas de pontuação e concordância verbal e nominal, além de repetição de palavras.

Texto concluído, a meninada se organizou em dois grupos para ler Eco e Narciso: do Amor ao Sofrimento. Cada estudante escolheu o personagem que representaria na leitura dramática. "Se no início alguns tinham bastante dificuldade para ler em voz alta, isso não acontece mais", comemora a professora.

1 Contato inicial Convide as crianças a escrever uma peça teatral baseada em uma lenda já estudada. Explique que para isso será necessário se dedicarem a um novo gênero, o texto dramático. Selecione bons modelos, analise-os com a sala e organize a leitura em voz alta. Peça que, no decorrer das aulas, elas tomem nota de características marcantes.

2 Leitura dramática A cada leitura, oriente os estudantes a cuidar da entonação das falas. Com o passar do tempo, a lista de características do texto dramático irá crescer. Converse com a turma sobre a diversidade dos textos lidos. Oriente a elaboração de um cartaz com as semelhanças e diferenças entre eles.

3 Escrita da peça Instrua os alunos a pesquisar sobre a lenda que será transformada em texto dramático e elaborar um roteiro com o que não pode faltar. Como escriba, acompanhe a elaboração do texto dramático de acordo com as características. Feita a revisão, organize a leitura dramática.

O texto dramático da turma e as marcas identificadas

Eco e Narciso: do amor ao sofrimento

Personagens: Narciso, Ninfa Eco, Ninfas (três), Tirésias (cego vidente), Zeus (deus de todos os deuses), Hera (esposa de Zeus), Afrodite (deusa do amor), Eros (cupido), Liríope (mãe de Narciso) e Deus-rio Céfiso (pai de Narciso).

Cenário

A história se passa numa floresta romântica, com árvores, flores, pássaros, borboletas e animais. Devem aparecer uma caverna e um rio. Uma música romântica toca ao fundo.

Primeiro ato

Entram Liríope e Céfiso no palco. Liríope segura seu filho Narciso no colo, acompanhada de seu marido, que está com a mão no seu ombro. A mãe demonstra muita preocupação.

Liríope: Céfiso, estou muito preocupada com o destino de nosso filho Narciso! Sua beleza fora do comum me assusta. Sabemos que tudo que ultrapassa a medida pode causar grandes tragédias!

Céfiso: Também estou muito preocupado, meu amor! Devemos procurar Tirésias. Ele é um vidente que, apesar de cego, consegue prever o futuro. Tenho certeza de que saberá o destino de nosso filho Narciso!


Céfiso e Liríope saem do palco e entra Tirésias. Ao fundo toca uma música misteriosa e há um jogo de luzes. O cego vidente passeia pelo palco e se acomoda num canto. Voltam Liríope e Céfiso, com Narciso no colo, e se aproximam de Tirésias.

Tirésias: Estava esperando por vocês. O que querem saber?

Céfiso: Queremos saber o futuro de Narciso.

Liríope: A sua beleza vai além do normal, por isso estamos muito preocupados e queremos saber quantos anos ele viverá!

Personagens Uma lista com o nome deles aparece no início do texto.

Cenário O autor, no meio dos diálogos, indica como a peça deve ser montada: a posição dos atores no palco e a encenação.

Ato A história é dividida em atos. Cada um conta um momento da história. Os atos podem acontecer no mesmo cenário ou não.

Diálogos Não aparece o narrador. A história é contada por meio das falas dos personagens.

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