Cinco respostas sobre o uso de best-sellers em sala de aula

Muitas vezes a leitura de clássicos não é vista como o melhor chamariz para cativar o público adolescente. Mas será que o uso de best-sellers pode ser visto como uma ponte para leitura de textos mais complexos?

POR:
Rodrigo Priante Ugá
Veja na Sala de Aula

Provavelmente seus alunos ainda se aborrecem com a notícia de que, em mais um ano letivo, deverão ler as obras de tais e tais autores clássicos. Uma boa maneira para quebrar a rotina é introduzir a leitura de obras mais atuais e de menor complexidade na linguagem, mas que servem como iscas para conquistar o público jovem e, muitas vezes, como trampolim para a leitura de obras clássicas. Não é a toa que livros como da série Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer, fazem o maior sucesso entre os adolescentes. O mesmo acontece com a série O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien.

Best-sellers

Veja desta semana pesquisou o mercado editorial do país e confirmou não só o número crescente de leitores, mas também de autores bem sucedidos e que descobriram na "nova classe média" seu principal mercado consumidor. No Brasil, como mostra a reportagem "Um país de leitores - e autores", este filão vampiresco e de magia está sendo rapidamente ocupado por escritores desbravadores como André Vianco, autor de Os Sete, e Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse.

Aproveite o material disponível em Veja para enriquecer o debate sobre o uso dos best-sellers em sala de aula e mostrar que muitos deles também se utilizam de enredos e técnicas narrativas que, no caso dos clássicos, são empregados com mestria e genialidade a ponto de resistirem ao tempo. A seguir, respondemos a cinco perguntas que podem ajudar a contextualizar o assunto:

1. Como avaliar se um best-seller é adequado para ser trabalhado com os alunos?
Dependendo do conteúdo que se queira trabalhar com a turma, diferentes gêneros podem ser utilizados: o ficcional, o biográfico, historiográfico, o sociológico etc. De todo modo, privilegie os livros que mais causam interesse nos alunos, mas que também certifiquem o aprendizado do conteúdo que está sendo trabalhado em sala, de acordo com objetivos estabelecidos por você em seu planejamento.

Temas como a intertextualidade, o suspense e a ironia serão mais fáceis de serem encontrados nos best-sellers de ficção a exemplo de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares. Suas histórias se passam em cenários de época e misturam tanto o gênero do suspense policial à comédia, como também combinam personagens reais e fictícios.

Ao mesmo tempo evite livros que possam suscitar polêmicas entre a turma e pais de alunos, como os de cunho religioso (espírita, católico, umbanda) ou sexual (pornográfico). Essa advertência também vale para os livros que mais se distanciam das obras tidas como ficcionais, a exemplo dos best-sellers de autoajuda.

2. Os best-sellers podem servir como porta de entrada para a literatura clássica?

Sim, mas fique atento: as obras que mais podem contribuir para este fim são aquelas que já procuram preparar o leitor para este contato, ou seja, obras que possuem um enredo, uma estrutura e uma linguagem mais próximas das obras clássicas. É através da intertextualidade que muitas vezes o leitor se sente atraído a conhecer outras obras. Como disse David Lodge, em A Arte da Ficção, "há muitas formas de um texto se referir a outro: paródia, pastiche, eco, alusão, citação direta e paralelismo estrutural".

Utilizando novamente o exemplo de Jô Soares, podemos dizer que o leitor de O Xangô de Baker Street que se sentir fascinado por este modelo de ficção e que por acaso não tenha lido primeiramente as histórias de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, poderia se sentir motivado a lê-lo. E quando o fizer, ele estará mais familiarizado com as peculiaridades da obra precursora. Neste caso, o leitor, ansioso, acompanharia a resolução dos mistérios através da genialidade do pensamento dedutivo de Holmes ou tentaria antecipar-se a ele.

3. Devo trabalhar best-sellers em sala de aula?
Sim, mesmo por que o uso de best-sellers em sala de aula pode se mostrar bastante profícuo quando se trata de angariar novos leitores. Pode-se aproveitar o burburinho editorial do momento para conquistar e cativar o público adolescente que, muitas vezes, se mostra avesso à leitura de obras clássicas por nunca ter conseguido identificar-se com elas.

Por sua própria imaturidade enquanto leitor, o jovem, em geral, apresenta muita dificuldade na leitura de grande número de clássicos, pois são textos com um grau de complexidade muito mais elevado. E você, professor, é o mediador que vai contribuir para que sua turma adquira hábitos leitores cada vez mais complexos.

Na introdução de Por Que Ler os Clássicos?, Ítalo Calvino comenta que os clássicos dizem pouco aos jovens por que estes "são impacientes, distraídos e inexperientes". Ao mesmo tempo, o escritor italiano ressalta a importância da escola como meio difusor do conhecimento de um número mínimo de obras clássicas. E mais adiante revela que as leituras destas obras dependem de um posicionamento: "temos de definir de onde eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidades numa sábia dosagem".

4. Que elementos das obras podem ser aproveitados para que os alunos possam começar a tomar contato com os clássicos?
Os best-sellers ficcionais de entretenimento costumam apresentar maior número de recursos dos quais os autores clássicos também se utilizam. Dentre eles podemos citar, além da intertextualidade, a ironia, o suspense, a metaficção e a manipulação temporal.

Ironia: visa dizer o oposto do que se pretende comunicar ou mesmo viabilizar outra interpretação para além do significado superficial das palavras. Talvez seja um dos recursos mais preciosos da literatura e muitos foram os autores que a utilizaram na composição de suas obras. Entre eles encontramos Miguel de Cervantes, com Dom Quixote e Machado de Assis, com Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Suspense: característica marcante das histórias de detetive e de aventura, este recurso é o grande responsável pelo empenho do leitor durante a leitura da obra, de modo que ele não queira fechar o volume antes da solução do mistério. Entre os célebres autores que muito bem souberam utilizar este recurso, podemos citar Edgar Allan Poe, com Os Crimes da Rua Morgue e Arthur Conan Doyle, com a famosa série Sherlock Holmes.

Metaficção: consiste na obra que versa sobre si mesma. Estas obras costumam chamar a atenção para o método de escrita empregado na sua constituição. Nestas obras, normalmente o narrador entra em diálogo direto com leitor, questionando-o sobre o rumo que a história deveria tomar. Seguindo esta linhagem, podemos citar os argentinos Jorge Luis Borges, autor do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, e Julio Cortázar, autor do romance Jogo da Amarelinha.

Manipulação temporal: alguns autores preferem narrar suas histórias sem fazer uso da ordem cronológica dos fatos. Como afirma David Lodge, em A Arte da Ficção, "graças à manipulação temporal, a história evita apresentar a vida como uma sucessão de acontecimentos um atrás do outro, permitindo-nos fazer ligações de causalidade e de ironia entre acontecimentos muitos distantes". Como exemplo de manipulação temporal podemos citar James Joyce, com Ulisses e, novamente, Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

5. Que best-sellers seriam bons pontos de partida para trabalhar com os alunos do Ensino Médio?
Dê preferência àquelas obras que mais se aproximam dos clássicos (tanto do enredo como na estrutura e na linguagem) ou que melhor podem preparar o público jovem para o contato com estas obras. Os best-sellers que seguem a linha ficcional (Os Sete, de André Vianco, e A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr), histórica (Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch) e biográfica (Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta) são os mais indicados para os alunos do Ensino Médio.

Consultoria Rodrigo Priante Ugá

Mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professor do Ensino Médio da Rede Pública do Estado de São Paulo.

 
Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias