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Uma obra portuguesa com toda certeza

O percurso histórico desde as grandes navegações dá sentido às produções de azulejo

por:
AB
André Bernardo
Azulejos portugueses. Foto: Arquivo pessoal/Anderson Leitão

"Professor, mas essa aula é de Arte ou de História?" O docente Anderson Leitão, do CIEP Mané Garrincha, em Magé, região metropolitana do Rio de Janeiro, já perdeu as contas de quantas vezes ouviu essa pergunta. E com razão. Antes de ensinar seus alunos do 9º ano a pintar azulejos portugueses, por exemplo, ele fez questão de contextualizar historicamente essa produção artística. Para isso, estabeleceu um recorte que começou no período das grandes navegações, passou pela chegada dos colonizadores ao Brasil e avançou até a arte encontrada nas paredes que existem ainda hoje por aqui. "Quando pergunto aos adolescentes o que sabem sobre Portugal, as respostas são quase sempre limitadas: um país que produz azeite e em que as pessoas comem bacalhau e falam com um sotaque diferente do nosso. Ele ainda é um ilustre desconhecido", constata o professor.

Leitão propôs, então, uma viagem no tempo para mostrar a influência dos colonizadores na arte brasileira. O primeiro destino foi o início do século 15, no período da expansão marítima europeia. Utilizando mapas antigos, retirados de sites da internet, ele mostrou os seres que habitavam o imaginário dos navegadores, como sereias (metade peixe, metade mulher), ciclopes (que têm um olho na testa) e antípodas (com os pés virados para trás). Depois, pediu que os estudantes desenhassem os seus monstros.

Para subsidiar a criação, exibiu a todos o livro Bicho de Artista, de Kátia Canton (Cosac Naify, 40 págs., tel. 11/3218-1444, 39 reais), que possui animais representados em vários estilos e com técnicas diferentes. "Ao expor representações variadas de um mesmo tema, reforço para os alunos que eles podem ousar expressar-se por si mesmos. O que eles fizerem também será legítimo e relevante", justifica. Na opinião da arte-educadora Marisa Szpigel, orientadora da Escola da Vila, em São Paulo, para enriquecer o repertório sobre essa temática também é interessante levar à sala o trabalho de artistas que retratam seres fantásticos, como o gravurista paulistano Marcelo Grassmann (1925-2013), que gostava de criar imagens com base na mistura de homens e bichos.

Depois de apreciar o livro, cada um elaborou sua imagem assustadora com lápis de cor no papel sulfite e reforçou o contorno com caneta hidrocor preta. "Alguns utilizaram referências de sua cultura visual, como personagens de histórias em quadrinhos, games e séries de TV. Outros inventaram suas próprias criaturas", conta o professor. Depois de concluídos, os monstros foram recortados e colados dentro de um desenho maior, feito por um dos estudantes em papel Kraft, e quem quis pôde acrescentar detalhes a suas obras usando a técnica de aquarela.

Uma missa e três versões

Para criar padrões variados, os alunos fizeram moldes com recortes de EVA. Foto: Arquivo pessoal/Anderson Leitão
Para criar padrões variados, os alunos fizeram moldes com recortes de EVA

Superado o mistério dos mapas, o passeio seguiu o caminho dos portugueses e a turma refletiu sobre a chegada deles ao Brasil. Leitão distribuiu para a moçada um texto sobre esse episódio histórico e mostrou, no Datashow e em um pôster impresso, uma reprodução da pintura Primeira Missa no Brasil, assinada por Victor Meirelles (1832-1903). Ele pediu que os estudantes observassem atentamente a imagem e, em seguida, apresentou mais dois quadros, um de Candido Portinari (1903-1962) e outro de Glauco Rodrigues (1929-2004), ambos sobre o mesmo tema. Solicitou, então, que a garotada descrevesse as semelhanças e as diferenças entre as três obras. Alguns estudantes ficaram intrigados com a decisão tomada por Portinari de excluir os índios da cena. Outros acharam a versão de Rodrigues a mais "carnavalizada" das três e comentaram que era como se fosse um desfile de escola de samba.

Então, o docente convidou a sala a seguir os passos de Portinari e Rodrigues e criar sua versão da primeira missa. Distribuiu para os adolescentes uma folha com a reprodução da obra de Meirelles no centro. E, em volta dela, cada um criou sua cena com lápis de cor. O resultado, garante o professor, foi surpreendente. Como ele havia pedido que os alunos se colocassem no lugar dos índios, vários transportaram a cena para o espaço sideral, pois consideraram a chegada dos portugueses como uma invasão alienígena. Maria Carolina Rossignoli, 16 anos, preferiu ambientar a ação num templo religioso. "Naquele tempo, as pessoas davam muita importância à religião católica. Então, foi como se eu construísse uma igreja para abrigar a primeira missa celebrada no Brasil", lembra a garota.

Ladrilhos que contam histórias

 Os padrões foram carimbados com guache em papel cartão, no tamanho de azulejos. Foto: Arquivo pessoal/Anderson Leitão
Os padrões foram carimbados com guache em papel cartão, no tamanho de azulejos

O terceiro e último passo dessa jornada se aprofundou na cultura portuguesa e em sua influência no Brasil. Leitão voltou a atenção da turma para o período colonial e expôs detalhes do azulejo, peça quadrangular de cerâmica que ainda reveste as fachadas e embeleza as paredes de muitas casas. Para essa introdução, ele buscou referências no site do Museu Nacional do Azulejo, montou uma apresentação em PowerPoint e a exibiu para a classe. Nos slides, mostrou a história dos ladrilhos, contou que os árabes os levaram para Portugal e comentou os diversos estilos e a presença deles no Brasil. Com isso, a classe notou as principais características das peças que se popularizaram nos dois países, como o uso de figuras simples, acompanhadas de elementos decorativos nos cantos e pintadas de azul-cobalto.

Para complementar as referências da turma, Cristina Pierre de França, mestre em Artes Vi- suais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), recomenda o livro Azulejaria Portuguesa, de José Meco (Bertrand Editora, 96 págs., edição esgotada), e o blog Azulejos Antigos no Rio de Janeiro. Marisa sugere que o professor leve à classe o trabalho da artista carioca Adriana Varejão, que já fez exposições inteiras baseadas em azulejos, e imagens de peças produzidas em outros países, como França e Holanda.

O professor propôs o uso da técnica de impressão e explicou que um mesmo elemento seria carimbado quatro vezes nos cantos da peça. "Como tínhamos pouco tempo, optei por algo simples, que pudéssemos concluir em apenas uma hora e meia", explica. A cerâmica foi substituída por papel-cartão branco. A turma usou tinta guache, pincel largo, papelão, tesoura, cola, lápis e material emborrachado do tipo EVA.

Para começar a produção, cada um criou um padrão figurativo ou geométrico com base nas referências que havia observado. Conceitos como simetria e composição modular já haviam sido trabalhados pelo professor. O desenho elaborado foi, então, riscado sobre o EVA e recortado. Depois, criaram a matriz para a impressão colando o recorte de EVA sobre um papelão. Com o pincel, aplicaram tinta guache azul no relevo da matriz e pressionaram sobre um quadrado de papel- cartão branco com lado de 21 centímetros, como um carimbo. O mesmo procedimento foi repetido nos outros quatro cantos do quadrado. Finalmente, deixaram as produções secar e reuniram todas em duas colunas da escola. A pintura dos azulejos cativou os alunos. Mariana Melchiades, 15 anos, diz que nunca levou jeito para a pintura, mas gostou da nova técnica. "Até customizei os meus cadernos no mesmo estilo", conta.

Cristina ressalta que abordar as influências portuguesas na arte brasileira é importante não só para o 9º ano mas para todas as turmas. "Essas manifestações são parte da singularidade do nosso povo, como podemos observar no traçado de nossas cidades coloniais e no modelo arquitetônico de nossas casas e igrejas."

Leitão registrou todas as etapas, e as fotos feitas por ele ilustram esta reportagem. Além de guardá-las para futuras consultas e reflexões, o professor compartilhou os resultados no blog Sala de Arte (educacaoarteanderson.blogspot.com), em que se comunica com os estudantes e com outros docentes da disciplina. O trabalho com os azulejos inspirou, por exemplo, a norte-americana Rina Vinetz, que abordou com sua turma as peças feitas pelos holandeses. A sequên- cia de aulas foi finalizada, mas na internet a viagem ainda não acabou.

1 Monstros em escala Mostre mapas antigos de navegação e chame a atenção para os desenhos que os acompanham. Apresente obras de artistas que retratam seres fantásticos e peça que a turma desenhe seus monstros.

2 Encontro de culturas Promova a apreciação do quadro Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, e de outras obras que retratam o mesmo momento histórico. Indique que a classe faça sua releitura da cena de Meirelles, mantendo o elemento central da peça.

3 Azul e branco na parede Explique a origem dos azulejos e sua importância em Portugal. Mostre peças com estilos diversos e convide a turma a fazer sua própria parede de azulejos, utilizando a técnica de carimbo em papel com tinta guache.

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