As muitas questões da classe sobre Aids

Mitos e dúvidas são o ponto de partida para conhecer mais a doença, que cresce entre os idosos

POR:
Sophia Winkel, NOVA ESCOLA, Bruna Nicolielo
As muitas questões da classe sobre Aids. Ilustração: Elisa Carareto

Ao iniciar um projeto sobre sexualidade com os alunos dos anos finais da Educação de Jovens e Adultos (EJA), a professora Lucilene Marins, da EE Parque Piratininga III, em Itaquaquecetuba, região metropolitana de São Paulo, ficou surpresa ao descobrir que eles estavam cheios de dúvidas, apesar de mais velhos, com idades entre 18 e 60 anos. Além disso, os estudantes tinham vergonha e não participavam da aula. Lucilene planejou, então, uma série de etapas para que a turma se sentisse cada vez mais à vontade e aprendesse o conteúdo.

Ela começou explicando que quando uma criança pequena desenha a família, está fazendo referência à sexualidade e que isso não é só "falar sobre sexo", já que envolve a afetividade e os relacionamentos. Assim, mostrou que o assunto é algo natural, que faz parte da vida de todos. Para deixá-los mais confortáveis, a educadora apresentou uma caixinha, dizendo que ficaria em sua mesa para que as dúvidas fossem depositadas ali. Também disse que levaria as questões para casa a fim de se preparar para as discussões.

Na aula seguinte, com os estudantes já mais à vontade, a participação aumentou. Enquanto Lucilene respondia às questões colocadas na caixa, outras foram levantadas. "Quando eles perceberam que todos tinham dúvidas, se sentiram confortáveis para sociabilizar seus questionamentos e colaborar com os debates", conta. A atividade seguinte foi uma pesquisa em grupo. Cada um levantaria informações sobre uma doença sexualmente transmissível (DST): sífilis, papilomavírus humano (HPV), gonorreia e vírus da imunodeficiência humana (HIV). As informações deveriam abordar agente causador, diagnóstico, transmissão, sintomas, prevenção e tratamento. Além disso, todos os grupos tinham de pesquisar sobre gravidez e métodos contraceptivos. Ficou combinado que os nomes científicos dos órgãos sexuais seriam usados em todos os momentos.

Na aula seguinte, os alunos trouxeram os resultados da pesquisa. Durante as apresentações, várias discussões surgiram - essa era a intenção da docente ao planejar que a classe buscasse informações sobre a prevenção da gravidez e das DST simultaneamente. Muitos mitos se esclareceram. Alguns estudantes achavam que a pílula do dia seguinte podia diminuir os riscos de contrair uma doença. Outros acreditavam que lavar as partes íntimas depois das relações sexuais iria protegê- los ou que algumas posições evitariam tanto as DST como a gravidez. Eles descobriram que nada disso era verdade. "É essencial trazer para a conversa os conhecimentos existentes, inclusive o senso comum", explica Jimena Furlani, docente da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e autora do livro Educação Sexual na Sala de Aula - Relações de Gênero, Orientação Sexual e Igualdade Étnico-Racial numa Proposta de Respeito às Diferenças (192 págs., Ed. Autêntica, tel. 0800-283-1322, 57 reais).

Mito Usar duas camisinhas de uma vez diminui o risco de contrair Aids e engravidar.

Resposta Correta* Não. O uso de duas camisinhas ao mesmo tempo é muito arriscado, pois o atrito entre elas provoca rasgos e furos. Uma (masculina ou feminina) é suficiente.


Mito Dá para pegar Aids beijando.

Resposta Correta* A saliva não apresenta concentrações do vírus em quantidades relevantes. Embora pouco provável, existe um pequeno risco de transmissão, se os parceiros possuírem lesões sangrentas na mucosa oral.


Mito A pílula do dia seguinte previne HIV e outras DST.

Resposta Correta* Não. Ela é um método anticoncepcional de emergência, à base de hormônios. Deixa o corpo da mulher "hostil" à gravidez e, portanto, não deve ser usada de modo rotineiro. Ela não protege de DST, por isso é preciso usar preservativo.

*Consultoria Sheila Reis, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH)

HIV em profundidade

Durante o planejamento, quando pesquisava os conteúdos, Lucilene descobriu que os índices de contaminação pelo HIV entre pessoas com mais de 60 anos dobraram entre 1998 e 2008, segundo o Ministério da Saúde. A docente decidiu, então, que abordaria mais detidamente a Aids.

Depois da discussão inicial, ela pediu que os alunos aprofundassem a pesquisa sobre a doença. Todos ficaram curiosos ao descobrir que não é o vírus que mata uma pessoa soropositiva, e sim outras enfermidades, por causa da baixa imunidade. A professora levou informações sobre prevenção, sintomas e tratamento, enfatizando que os riscos da doença ainda são grandes. A classe participou ativamente do debate. "Minha irmã morreu com HIV. Compartilhei com a sala essa experiência", conta a aluna Mair Ribeiro Cayres Lance, 47 anos.

Quando a educadora apresentou os dados sobre o crescente índice de contaminação dos mais velhos pelo HIV, todos ficaram surpresos. Os alunos da terceira idade se alarmaram, pois não consideravam fazer parte do grupo vulnerável. Os mais jovens ficaram impactados por constatarem que os idosos também faziam sexo. Lucilene explicou que os avanços da indústria farmacêutica colaboraram para que pessoas mais velhas mantivessem uma vida sexual ativa. Todos discutiram as mudanças de comportamento dos idosos de hoje em relação aos de gerações anteriores. Lucilene alertou para o fato de que mulheres já na menopausa e, portanto, impossibilitadas de ter filhos, também devem usar preservativos para não correr risco de se contaminar.

A educadora também levantou outra questão: a possibilidade de contrair Aids e outras DST mesmo só tendo relações sexuais com o parceiro. Várias alunas já haviam feito laqueadura e achavam que não precisavam usar camisinha. Algumas comentaram a resistência do marido. Lucilene, então, problematizou: "O que vale mais, a vontade dele ou a sua saúde?", levando os estudantes a refletir sobre a igualdade de gênero.

Jimena explica que é fundamental incluir o debate de questões culturais e sociais, além das de gênero. "Informação não muda comportamento. Se mudasse, os índices de contaminação estariam bem mais baixos, em virtude de tudo o que tem sido feito sobre Educação sexual", diz. De acordo com ela, é preciso abordar nas aulas campos de conhecimento diversos. A Antropologia, a Sociologia e a religiosidade, além da Biologia, devem estar presentes para que seja possível discutir profundamente o tema, inclusive as questões de ordem ética. Seguindo essa abordagem, a professora Lucilene conversou com os alunos sobre a discriminação social sofrida pelas pessoas com HIV. E provocou a classe: "Vocês beijariam alguém soropositivo?". A reação negativa foi o motivo para a professora esclarecer que a contaminação dessa forma é pouco provável. Em seguida, ela explicou sobre a importância de colocar o preservativo da forma correta.

Por fim, Lucilene chamou a atenção para o fato de que há quem tenha doenças e nem saiba. Por isso, ela enfatizou, todos devem procurar profissionais da saúde periodicamente ou em caso de alguma anormalidade. A professora destacou também que as DST nem sempre deixam indícios visíveis. Em casos de HPV, por exemplo, qualquer lesão no pênis seria de fácil identificação. No entanto, uma alteração no colo do útero só poderia ser detectada por um profissional de saúde e em exames ginecológicos. Depois da reflexão, a docente comemorou: "A luta contra a Aids é de todos. Quero que os alunos se cuidem e compartilhem seus novos conhecimentos".

1 Caixinha de perguntas Deixe à vista uma caixa onde os alunos possam depositar dúvidas anonimamente. Responda a todas nas aulas seguintes.

2 Pesquisa sobre DST Divida a turma e proponha uma pesquisa sobre DST e gravidez. Os grupos devem apresentar os resultados do estudo para o restante da sala.

3 Aprofundando a discussão Sugira que todos pesquisem mais sobre Aids. Apresente dados sobre o crescimento da doença entre os mais velhos e promova um debate que contemple os aspectos culturais da prevenção do HIV.

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