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Jornalismo

Práticas antirracistas e educação de qualidade: qual a relação?

O trabalho pela perspectiva antirracista é positivo para todos os alunos dos pontos de vista curricular e socioemocional

PorLavini Castro

13/12/2023

Refletir sobre as estratégias pedagógicas torna-se urgente, pois o caminho para uma Educação de qualidade, passa por uma Educação  Antirracista. Foto: Getty Images

Pensar em educação é pensar em projetos mais amplos de sociedade (GOMES, 2019). Partindo dessa lógica, pensar em Educação Antirracista é buscar a contrução de um modelo de sociedade mais democrático, justo e plural.

De acordo com Troyna e Carrington (1990), a Educação Antirracista ocupa-se de estratégias organizacionais, curriculares e pedagógicas que têm o objetivo de promover a igualdade racial e combater a discriminação. Isso faz dela, por definição, uma educação de oposição aos valores hegemônicos que configuraram historicamente nossa sociedade. 

A Educação Antirracista faz frente a uma educação que não privilegia a diversidade histórica e cultural dos grupos étnicos formadores de nossa socidade. Para entender na prática, ela utiliza uma abordagem que dialoga e integra grupos raciais diversos, valoriza diferentes culturas e inspira o entendimento de como os saberes e tradições se comunicam e como podemos aprender com eles, como no caso da etnomatemática.

Assim, atuar por meio de uma perspectiva antirracista é um ganho para alunos negros e para todos os outros. É positivo não só do ponto de vista do conteúdo, mas da convivência e da cidadania, pois desperta em nós humanidade e empatia para as boas relações.

Em resumo, pensar a educação por uma perspectiva antirracista exige um trabalho com as turmas que envolva empatia, respeito, pensamento crítico, ampliação do repertório cultural, diversidade e cidadania. Nesse sentido, caro colega, trago aqui as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e provoco você a relacionar uma ou mais delas (será que todas?) a esses pontos do trabalho com a educação antirracista:

1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital, buscando entender e explicar a realidade, além de continuar aprendendo e colaborando para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.

2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.

3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.

4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.

5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares), buscando se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.

7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.

8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.

9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.

10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. 

Não é difícil perceber quanto o desenvolvimento de uma Educação Antirracista se relaciona com a BNCC e, assim, com a ideia de um ensino de qualidade, que envolve diversidade, respeito, criticidade, coletividade, cooperação, não é mesmo? Nesse sentido, nós, professores, precisamos ser a mudança para que a perspectiva antirracista torne-se o futuro da educação.

Mudança de narrativa 

Por tudo isso, refletir sobre nossas estratégias pedagógicas torna-se urgente, pois o caminho para uma educação de qualidade, passa por uma Educação  Antirracista. Reconhecer a existência do racismo e incluí-lo como um problema social, discutindo a igualdade de direitos humanos e justiça social, além do entendimento das estruturas hegemônicas de poder que afetam nossas relações raciais cotidianas, auxilia a chegar a determinadas conclusões, facilita a conscientização para projetar novos olhares sobre as relações entre os grupos raciais e novas narrativas de valor sobre as histórias e culturas desse grupos. Melhor dizendo: nos ajuda a transitar por um caminho de reconstrução epistemológica. 

Em sala de aula, vamos precisar substituir palavras e conceitos das velhas tradições epistemológicas para provocar o entendimento de uma sociedade mais justa e plural. Aprendemos, por exemplo, a história do ocidente por um viés de bravura, heroísmo e aventura dos colonizadores europeus nas Américas. Muitas vezes, as histórias das novas nações americanas são contadas a partir da  chegada dos europeus. 

Porém, se utilizarmos perspectivas antirracistas para conduzir a aprendizagem de formação dessas novas nações, precisamos valorizar as histórias dos povos que aqui estavam antes da invasão europeia. 

A arrumação da frase anterior já nos dá um exemplo de como podemos entender as substituições das palavras e as mudanças de enredos para  superar as velhas tradições epistemológicas que acabam por enaltecer os velhos costumes e suavizar as marcas racistas de nossa sociedade.

Velhas tradições epistemológicas

     Novas epistemologias

chegada do colonizador 

     invasão dos europeus

bem individual

     bem coletivo

trocas entre civilizados - nativos

     exploração de riquezas

encontro cultural/miscigenação

     desencontro/violência

universalização das culturas

     pluriverso cultural

racismo

     antirracismo

O quadro acima nos mostra o quanto podemos ensinar por meio de uma perspectiva antirracista e decolonial além de como o conhecimento sobre as relações raciais auxilia a compreender princípios, crenças e verdades construídas. A sala de aula pode ser o lugar da “virada de chave”, do fomento da percepção crítica de como aprendemos a nos aceitar ou nos rejeitar a partir de histórias contadas. Assim, reconhecer a educação antirracista como o futuro da educação, é um caminho de superação, pois ela permite reconfigurar percepções construídas pelo tratamento racista em novas formas de relacionamento, possibilita recriar valores sobre os atributos físicos e culturais dos grupos raciais, facilitando a decomposição do racismo em nós mesmos.

Educação antirracista na prática

No entanto, você pode estar se perguntando como atuar a partir de uma Educação Antirracista, não é? No artigo intitulado Educação Antirracista: compromisso indispensável para um mundo melhor, a professora Eliane Cavalleiro aponta alguns caminhos e, a partir deles, eu descrevo algumas ações práticas que interpreto como possíveis. Veja:

Reconhecer a existência do problema racial na sociedade brasileira

Se um professor não reconhecer o racismo como um problema social, não conseguirá notar como o racismo se camufla e se renova na sociedade. O não reconhecimento do racismo faz reverberar na escola as famosas afirmações: “Minha escola não tem racismo, não!”;  “Aqui, todos são tratados iguais”; “Precisamos de consciência humana”, ou situações do tipo: criança negra interpretando um macaco em uma peça, criança negra sendo retirada da fotografia de propaganda da escola (esses foram fatos reais publicados pela imprensa).

Essas situações ocorrem justamente porque não enxergamos o racismo como um problema social. O primeiro passo em direção a um comportamento antirracista é se tornar sensível à questão. Para isso, é necessário criar empatia com a história de luta e resistência dos povos negros e indígenas. É necessário perceber a construção do outro, o diferente, como um ser protagonista e atuante na história, cultura, sociedade e economia de nossa sociedade.

Buscar permanentemente refletir sobre o racismo e seus derivados no cotidiano escolar 

O racismo é um problema social e ele não atua sozinho. Há outros problemas que afetam nossas crianças no espaço escolar. Ter a noção das possíveis microagressões que nossas crianças possam vir a sofrer possibilita criar estratégias de conscientização dos problemas e ensinar o valor próprio e como enfrentar tais problemas. Isso ajuda a reduzir bastante os impactos emocionais negativos, porque criando espaço de conscientização, acionamos um alerta de que tal problema não é responsabilidade de quem venha a sofrer a agressão, cria possibilidades de empoderamento para tomada de atitudes, como promover a denúncia, por exemplo.

Repudiar atitudes preconceituosas e cuidar para que as relações interpessoais sejam respeitosas

Precisamos olhar mais para as nossas relações sociais, ter atenção com nosso comportamento para entender se estamos tendo atitude preconceituosa ou mesmo discriminatória. Veja um exemplo: uma criança chega à escola. É seu primeiro ano em um espaço escolar e ela é apresentada à diretora, coordenadora pedagógica e professora. E, então, ela começa a frequentar aquele espaço. 

O fato é que em seu primeiro dia na escola ela entendeu sobre hierarquias e pessoas valorizadas. Ela conheceu a função e nome da diretora, coordenadora e professora, mas não foi apresentada à inspetora e demais funcionários da manutenção, a quem ela vai construir valor e entender que sua história é respeitada? Sem contar que há um histórico de que determinadas funções e serviços acabam sendo ocupados, em sua maioria, por pessoas negras e a criança acaba fazendo associação de que a maioria das pessoas negras não é valorizada. Se ela cresce com essa impressão, se adapta rapidamente à sociedade que, historicamente, desvaloriza pessoas negras. É preciso fazer um movimento de entendimento de que cada pessoa em sua função é importante na escola.

Valorizar a diversidade presente no ambiente escolar por meio da promoção da igualdade, encorajando a participação de todos

Meus alunos dizem que as aulas em que eu faço um círculo de debates são as melhores aulas. Por que eles diriam isso? Porque todos tiveram a chance de se colocar contribuindo para o andamento da aula. Já dizia bell hooks: é preciso haver entusiasmo na aula em que todos sejam ouvidos. Eles gostam mais quando as aulas abordam questões ditas polêmicas ou quando conhecemos culturas diferentes, que nos ajudam a reconhecer valor e podemos aprender por meio delas. Aprender a valorizar a diversidade não é só pedir para que nossos alunos confeccionem um bonito mural com apetrechos de divulgação cultural. Murais são lindos, enriquecem as aulas, mas podemos ir além deles e criar um momento de pesquisa e apresentação de resultados mediada por boas perguntas para motivar a exploração da nova cultura que está sendo aprendida.

Ensinar as crianças e adolescentes uma história crítica sobre os diferentes grupos que constituem a história brasileira

Ensinar uma história crítica é um dado importantíssimo para ter a certeza de que estamos ensinando pelo vieis antirracista. Compreender que a história afro-brasileira e indígena  narrada até então restringiu e romantizou acontecimentos, possibilita o despertar para reescrever a história desse grupo racial corrigindo injustiças históricas e culturais em nossos currículos educacionais. Certa vez em contato com uma narrativa descrita no Livro Infantil ABC da Liberdade: a História de Luiz Gama, o menino que quebrou correntes com palavras, pude perceber a importância de não romantizar histórias nascidas da luta. Veja esse trecho do livro:

“Eu, a Getulinha e as outras crianças estávamos tristes no começo, mas depois fomos conversando e daí passamos a brincar de pega-pega, esconde-esconde, escravos de Jó (o que é bem engraçado, porque nós éramos escravos de verdade), e até pulamos corda, ou melhor, corrente”. 

Apenas nessa parte da narrativa do livro, encontramos: ironia, romantização e reforço ao preconceito. A narrativa induz ao pensamento da satisfação com o fato de que pessoas foram sequestradas e escravizadas na América.

Por isso, não se faz educação antirracista sem posicionamento e intencionalidade pedagógica. Pensar educação é entender sua importância como uma ponte para as possíveis conscientizações em prol de transformações em nome da justiça social, pois, ao levar em consideração os estudos sobre as relações sociais e raciais, evidenciamos desigualdades, discriminações e privilégios. Ou seja, tornamo-nos conscientes dos problemas sociais que afligem grupos tidos como maiorias minorizadas.

Portanto, ser um professor antirracista é questionar o paradigma ocidental europeu, as heranças coloniais - como, por exemplo, o mito da democracia racial-, é criticar os privilégios brancos, o patriarcado, o machismo, a intolerância religiosa. É, também,  refletir sobre as questões de gênero, pois todas essas questões são problemas sociais que marcam a vida das maiorias minorizadas. Parar, refletir e agir diante do comportamento racista é ter consciência de lutar por justiça social e educação de qualidade.

Lavini Castro é educadora antirracista. Doutoranda em História Comparada pelo PPGHC/UFRJ. Mestre em Relações Étnico-Raciais pelo PPRE/CEFET-RJ. Historiadora pela UFRJ. Professora de História do Ensino Fundamental e Ensino Médio das redes pública e particular do estado do Rio de Janeiro. Idealizadora e coordenadora da Rede de Professores Antirracistas. Ganhadora do Prêmio Sim à Igualdade Racial do ID_BR em 2021.

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