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Jornalismo

Melhores Escolas do Mundo: por que se destacam e como podem servir de inspiração?

EM Professor Edson Pisani (MG) e EEMTI Joaquim Bastos Gonçalves (CE), vencedoras da edição de 2023, buscam educar de maneira transformadora e impactar positivamente o entorno

PorCarol Firmino

29/11/2023

A EEMTI Joaquim Bastos Gonçalves, em Carnaubal (CE), levou o prêmio na categoria Apoio a vidas saudáveis

Em 2023, entre as vencedoras do World’s Best School Prize (Prêmio Melhores Escolas do Mundo, em português) há duas instituições de ensino brasileiras. A EM Professor Edson Pisani, em Belo Horizonte (MG), ganhou na categoria Escolha da comunidade, enquanto a EEMTI Joaquim Bastos Gonçalves, em Carnaubal (CE), levou o prêmio na categoria Apoio a vidas saudáveis.

Apesar de terem sido premiadas por aspectos e projetos diferentes, ambas têm em comum a preocupação em formar os alunos para além dos muros da escola. Ou seja, que os estudantes saibam olhar para a sociedade, entendendo seus direitos e deveres a partir de uma educação reflexiva e transformadora. 

Na EM Professor Edson Pisani, a diretora Eleusa Fiuza explica que a parceria com a comunidade escolar faz parte do projeto político pedagógico (PPP), na tentativa de estabelecer a escuta e a conexão com as necessidades e desejos dessas pessoas, construindo laços de resistência, resiliência e estratégias de luta. 

Nesse contexto, ela cita dois projetos de sucesso: o Busão da comunidade, que oferece transporte do Aglomerado da Serra, favela mineira onde a escola se localiza, até o metrô; e o Mais favela, menos lixo, que busca atender o problema do descarte de resíduos, principalmente por se tratar de uma vila com becos estreitos e muita dificuldade na coleta, em parceria com a Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ela, parte do dinheiro recebido pelo prêmio será utilizada para melhorar essa situação.

No caso da EEMTI Joaquim Bastos Gonçalves, o diretor Helton Brito relata que a escola está vivendo o processo de se tornar uma instituição de ensino integral e de reforçar sua identidade e seu PPP. “Estamos construindo o nosso percurso. Apesar de o documento já prever formas de protagonismo dos alunos e viabilizar ações de escuta entre eles, a comunidade e os professores, ele está sendo revisitado para ampliar essas oportunidades”. 

A partir da experiência com o projeto premiado, Adote um estudante, e do valor do prêmio, a Joaquim Bastos Gonçalves deseja criar uma sala para atendimento psicoterapêutico e acolhimento presencial dos estudantes, professores e funcionários com mais conforto. “Além de constar no nosso PPP, [o projeto] servirá de norte para outras iniciativas, até mesmo para atuação de voluntariado e para reflexão sobre a nossa função social”, diz. 

Conheça, a seguir, o contexto que permitiu que essas escolas se destacassem e como elas podem inspirar outras instituições.

EM Professor Edson Pisani: possibilidades e potências de uma comunidade

Professora nas turmas do ciclo inicial de alfabetização e na Educação de Jovens e Adultos (EJA) desde 2016, a professora Shirlei Sotero lembra como a escola começou. Sua irmã, Valéria Sotero, que faleceu em 2022, fez parte do corpo docente da Edson Pisani durante 30 anos. 

Shirlei conta que a escola surgiu da luta de mães que precisavam se deslocar até muito longe em busca de um lugar para os filhos estudarem. “Mas começou sem nenhuma estrutura, no meio do barro, as professoras precisavam de transporte para ir e voltar.”

Mesmo assim, continua a professora, “a escola era a vida da Valéria”. Esse sentimento de pertencer a um lugar parece ser o que a Edson Pisani desperta em todo o seu entorno. “A escola é movida, sem dúvida, por essa relação singular com a comunidade. A gente entende que estar ali faz diferença. Somos uma escola que está de portas abertas para fazer acontecer.”

Na visão dela, o projeto premiado Mais favela, menos lixo também é resultado da excelente mobilização feita pela EM Edson Pisani para a conquista de votos, o que demonstra que o senso de equipe está na essência da relação entre gestão, docentes, alunos e toda a comunidade do Aglomerado da Serra. Outro exemplo desse senso de coletividade foi a campanha feita durante a pandemia para conseguir a doação de chips e celulares que permitissem continuar as atividades com as turmas, já que a internet na favela mineira é precária. Na época, os professores também participaram de formações para aprender a lidar com a alfabetização a distância.

Além disso, há o projeto Busão da comunidade. Nesse caso, a escola realizou debates com os alunos do EJA, a empresa de transporte e trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), a prefeitura e a comunidade. Então, depois de um ano de muita discussão, foi viabilizado o transporte que une o aglomerado e o centro da cidade – passando pela Avenida do Cardoso –, melhorando a vida de algumas famílias que ficavam isoladas, sem acesso a comércio, supermercados, farmácias etc. 

Foco na necessidade das pessoas

EM Professor Edson Pisani, de Belo Horizonte (MG), é uma das duas escolas brasileiras vencedoras do Prêmio Melhores Escolas do Mundo, em 2023. Foto: Divulgação

Para a diretora Eleusa Fiuza, a Edson Pisani se tornou uma referência e, desde o início, a escola reuniu profissionais que defendiam e colocavam em prática uma concepção de Educação que atende verdadeiramente as necessidades das pessoas. “A escola permite que a comunidade ocupe seu espaço sem burocracia, e esse é nosso diferencial. No momento, estamos realizando alfabetização de idosos e este ano já tivemos curso de empreendedorismo”, completa Shirlei. 

“Em uma perspectiva que acredita nas possibilidades e na potência de sua comunidade, além da tarefa básica de trabalhar com os conteúdos pedagógicos, estamos sempre atentos ao que acontece ao nosso redor para identificar os problemas e ajudar na discussão e no encaminhamento de possíveis soluções”, aponta Eleusa. “Mostramos que todos são capazes de promover melhorias e isso faz diferença na autoestima e no empoderamento das famílias.”

Atualmente, o sonho da Edson Pisani é ter seu próprio espaço para atender os alunos com as oficinas de dança, de luta, de leitura e com os reforços de aprendizagem, que hoje são realizados em uma casa alugada. Segundo a professora Shirlei, com a visibilidade trazida pelo premiação, a prefeitura de Belo Horizonte já sinalizou que esse prédio, também em parceria com a Escola de Arquitetura da UFMG, sairá do papel, inclusive com uma quadra esportiva para atender a comunidade. 

EEMTI Joaquim Bastos Gonçalves: preparando cidadãos para o mundo

Para além de estratégias de ensino, diagnósticos, trabalho de observação e de reflexão, o  diretor Helton Brito destaca que o diálogo é muito importante na EEMTI Joaquim Bastos Gonçalves. “Enxergar o aluno de maneira mais humana, com um olhar menos técnico de quem só vê números e resultados, é o nosso grande diferencial. Tentamos promover um ambiente familiar e acolhedor, ensinando a garantia de direitos e deveres, e conscientizando ainda pais, mães e responsáveis  para reforçar esse trato fraterno de cuidado e atenção”, diz. 

Nesse contexto, há um projeto que se chama Roda de conversas com o diretor, que aborda diversos assuntos de interesse da comunidade local e dos próprios alunos. “Queremos aproximá-los da gestão escolar e oferecer espaço para terem voz”, afirma Helton. “Fazemos com que eles se sintam muito à vontade de estar nesse espaço e queiram permanecer mais tempo aqui.”

O professor Jadson Rodrigues acredita que esse tratamento humanizado é o que move a instituição. Ele lembra que muitos ex-alunos, como ele, voltam à escola para compartilhar com as turmas como essa dinâmica contribuiu para o seu desenvolvimento, seja um médico, um pecuarista, um dentista etc. “Nós pegamos na mão do aluno e o ajudamos a tirar um RG, uma carteira de trabalho, um título de eleitor, literalmente o preparamos para a vida. Esse cuidado é algo que fortalece muito a nossa relação”, complementa.

Jadson considera que essa conexão ficou evidente no projeto Adote um estudante. “Mostramos que nossa ideia não é apenas mudar uma vida, mas ajudar esse aluno que está em fragilidade emocional. Queremos trazer esse estudante de volta. E quantos não ressurgiram a partir do acolhimento?”, salienta. Para ele, a partir de agora, o desafio é fazer com que toda a equipe escolar esteja integrada e perpetue as ações do projeto como algo político e pedagógico a partir da formação continuada, por exemplo. 

Valorização do protagonismo dos alunos em diferentes áreas

O professor Jadon também ressalta que a Joaquim Bastos Gonçalves, que atende estudantes do Ensino Médio, segue um movimento de “ser tudo ao mesmo tempo”. É atuante em projetos, em inovação, em tecnologia e ainda faz tudo isso sob a ótica do protagonismo estudantil. “A gente tem trabalhado o protagonismo de governança, o protagonismo do esporte, o protagonismo de cultura e arte, e talvez isso seja a bússola que guia a escola”, define. 

Ele cita o Art Fest, festival da escola que acontece todo final de ano e reúne jovens de Carnaubal e região para se apresentarem e mostrarem seus talentos. “Temos esse entendimento de que somos um equipamento público da comunidade, por isso, abrimos nossas portas.” Há ainda oportunidade para que os alunos se tornem atletas de alto rendimento com apoio da escola, representando a seleção estadual e competindo nacionalmente.

Outro exemplo é a classificação da escola para a etapa regional do Ceará Científico, feira de ciências organizada pela Secretaria da Educação (Seduc) do estado. Entre os projetos que concorreram estão o próprio Adote um estudante, que, entre suas dinâmicas, promove arte-terapia para alunos com deficiência e necessidades especiais, e outro que utiliza robótica para abordar a questão ambiental com esses estudantes durante as aulas.  

Para Helton, além de preparar o aluno para o ensino superior e para o mercado de trabalho, um desejo permanente da escola é formar cidadãos. “Fazer com que eles tenham perspectivas, que saiam preparados, pelo menos, com condições de enfrentar o mundo. E que eles possam sonhar e acreditar neles mesmos, com seus potenciais e suas falhas. Nosso desejo é tornar a escola, realmente, uma comunidade de aprendizagem”, conclui o diretor.

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