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Jornalismo

COP 28: como aproveitar o evento para falar sobre mudanças climáticas?

Discussões apresentadas na conferência e repercussão na mídia são boas oportunidades para abordar temáticas relacionadas ao meio ambiente

PorBruno Mazzoco

29/11/2023

A COP 28, que acontece em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, debaterá como lidar com os diferentes aspectos da emergência climática e pode ser o ponto de partida de discussões e mobilizações com os estudantes. Foto: Getty Images

“Esta é a primeira vez que uma geração global de meninas e meninos crescerá em um mundo que se tornou muito mais perigoso e incerto devido às mudanças climáticas e ao meio ambiente degradado”. Este é o alerta do relatório “Meio ambiente e mudanças climáticas”, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Segundo a organização, as crianças com menos de cinco anos são as mais afetadas por doenças causadas pelas mudanças climáticas. Estima-se que aproximadamente 2 bilhões de crianças e adolescentes vivam em áreas em que a poluição do ar esteja acima do limite estabelecido como tolerável pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O Unicef também aponta que até 2040 quase 600 milhões de crianças e adolescentes estarão habitando regiões onde há falta de água.

Esses e outros temas ficarão ainda mais em evidência com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 28, que acontece a partir do dia 30 de novembro. Durante 13 dias, líderes de todo o mundo estarão reunidos em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para discutir como lidar com os diferentes aspectos da emergência climática. 

A realização do evento e a sua visibilidade surgem como uma ótima oportunidade para intensificar o trabalho de educação ambiental nas escolas. "Como isso acaba sendo muito falado, o educador pode aproveitar para abordar pedagogicamente essas informações", diz Mauro Guimarães, líder do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental, Diversidade e Sustentabilidade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). 

“Dada a natureza complexa e sistêmica das questões climáticas, a escola deve cumprir o papel de apresentar essas questões para os alunos e suas famílias de uma forma que seja acessível”, ressalta o pesquisador. Para isso, uma boa estratégia pode ser partir de algo presente no cotidiano dos estudantes, buscando estabelecer as relações de causa e consequência para os fenômenos.  

"Também é preciso passar para os alunos que a nossa ação não é pouco", afirma Lídia Duarte, educadora ambiental do Projeto Escolas Climáticas do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), que oferece formação em educação ambiental para escolas públicas. "É muito importante não transmitir  a ideia de que o problema é muito grande para que se possa fazer algo. É preciso entender a lógica do pensar global e agir local. E, então, refletir como as ações criadas e realizadas na escola podem trazer benefícios para um cenário maior", completa.  

Pequenos guardiões do clima 

Foi a partir de um problema vivido pelos alunos do 2º ano do Ensino Fundamental da EM Professor Amin Cassar, em Sorocaba (SP), que a professora Lucinda de Oliveira enxergou a possibilidade de abordar com os estudantes a questão do efeito estufa. 

A iniciativa aconteceu no contexto do projeto Educação Climática nas Escolas, desenvolvido em parceria entre o Movimento Escolas pelo Clima e a Secretaria da Educação de Sorocaba. "Esse tema do efeito estufa veio porque temos um pátio externo que não é muito utilizado devido ao calor. As crianças gostam muito de brincar e perguntavam por que não podiam utilizar aquele espaço", conta a professora.

Lucinda aproveitou o questionamento para explicar que uma das causas para o calor elevado era o efeito estufa e perguntou se a turma já havia ouvido falar no assunto. "Eles já conheciam o termo, mas não sabiam conceituá-lo corretamente", lembra. Então, para deixar todos na mesma página e desfazer alguns equívocos, a professora apresentou materiais impressos e animações explicando a relação entre efeito estufa e aquecimento global. “Cada grupo deveria responder a perguntas como ‘o que é o efeito estufa? O que faz a temperatura do planeta aumentar? O que pode acontecer se a temperatura aumentar muito? E como podemos ajudar o planeta?’ e apresentar para o restante da turma.

A tarefa seguinte envolveu uma experiência de simulação. Em caixas de plástico transparentes, os alunos construíram dois terrários, em que plantaram grãos de milho. Um dos recipientes permaneceu aberto, enquanto o outro foi tampado com filme plástico. Durante quinze dias, eles observaram as duas caixas e notaram a formação de gotículas na caixa fechada com filme e a diferença no desenvolvimento das plantinhas. Embora tenham brotado mais rapidamente, as plantas na caixa fechada tiveram um desenvolvimento mais lento. 

Com essa experiência, a educadora mostrou empiricamente para turma o que a ciência tem apontado em números. Em 2019, a ONU divulgou um relatório estimando que cada um grau de elevação na temperatura do planeta pode provocar a redução de cerca de 7% na produção de milho. “A gente fez esse experimento para eles entenderem a diferença de temperatura e o que na prática o efeito estufa pode causar", comenta Lucinda. 

Na sequência, a educadora propôs a criação de um jogo de tabuleiro para sistematizar as informações vistas durante as aulas. Ao jogarem os dados para poderem avançar com as peças, os alunos respondiam a questões sobre o ciclo do carbono e como as ações humanas, como as que envolvem a queima de combustíveis fósseis, contribuem para o aquecimento global. 

Para finalizar as atividades, Lucinda retomou a questão inicial do calor no pátio e conduziu uma discussão mostrando para a turma que o plantio de árvores no entorno poderia ajudar a amenizar o problema. "E ainda vamos elaborar um panfleto para levar informações para os familiares sobre como reduzir a nossa pegada de carbono", acrescenta. 

Formação de coletivos para participação cidadã 

Em Nazaré Paulista (SP), lecionando há quase 20 anos na EE Francisco Derosa, a professora de sociologia Daniela Gonçalves viu na temática da educação ambiental a possibilidade de fomentar a participação cidadã. “Nós temos esse tema transversal, que é de grande importância, e não podemos deixá-lo de fora das nossas aulas", salienta. 

A instituição é uma das cinco escolas estaduais do município que reúne alunos de diferentes anos em grupos de discussões e atividades chamados de Coletivos Ambientais. A iniciativa faz parte do projeto Escolas Climáticas, resultado da parceria com o Instituto Ipê, que ao longo do ano desenvolveu uma série de ações  nas escolas. 

A abordagem inicial para sensibilização de alunos e professores aconteceu a partir de uma atividade denominada de Mural do Clima. Trata-se de um jogo de cartas que traz informações dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão científico da Organização das Nações Unidas (ONU) que estuda essas mudanças. "Cada grupo vai montando um mural de forma a estabelecer conexões entre aspectos das mudanças climáticas e diferentes situações, como o aumento da fome e os refugiados climáticos", explica Lídia Duarte, educadora ambiental do projeto. 

O passo seguinte foi a construção de um coletivo em cada escola para pensar em ações de mitigação das mudanças climáticas e de educação ambiental. A partir da atuação do coletivo, a professora Daniela envolveu sua turma do 1º ano do Ensino Médio em um mutirão para limpeza das margens da represa da cidade, que é utilizada como área de lazer pelos habitantes. Após a ação, a professora compartilhou com seus alunos fotos do antes e depois e conduziu uma roda de conversa sobre soluções de conservação permanentes para a área. "O principal problema levantado foi não haver lixeiras", conta. 

A partir desse diagnóstico, a docente convidou a turma a elaborar propostas para melhoria dos serviços públicos no espaço, com a instalação de lixeiras, placas de orientação e banheiros químicos. Para finalizar o ano, Daniela pretende apresentar estatísticas sobre poluição ambiental para discutir com a turma e trazer um convidado para fazer uma palestra sobre ativismo climático para estimular ainda mais a participação dos alunos nos coletivos. 

Meio ambiente e mudanças climáticas: como tratar do tema nas diferentes componentes

Veja exemplos do que pode ser desenvolvido com os estudantes durante as aulas

Nem só de projetos se faz a educação ambiental. Discussões sobre mudanças climáticas, sustentabilidade e ações de mitigação de impactos também podem estar presentes em atividades do dia a dia. "Para resolver um problema complexo é preciso articular diferentes pontos de vista. Então, quanto mais a gente se aproximar de uma abordagem multidisciplinar, melhor será", destaca Livia Ribeiro, diretora da Reconectta, que desenvolve programas e projetos de educação para sustentabilidade e ação climática em escolas, empresas e instituições. Confira a seguir sugestões de atividades para trabalhar em diferentes componentes curriculares durante a realização da COP 28:

Ciências
Em um evento como a COP são usados muitos termos e conceitos específicos. Lívia sugere a construção de glossários para detalhar o significado de expressões como mitigação, adaptação, perdas, danos, emissões, pegada de carbono e ansiedade climática, entre outros. Também é possível estudar os impactos na biodiversidade e as espécies ameaçadas de extinção devido às mudanças climáticas. 

Língua Portuguesa
"É provável que aconteçam algumas manifestações durante o evento. Então, pode-se comparar o uso da língua na construção dos discursos: como os líderes se comunicam e a diferença da linguagem usada numa manifestação de rua", propõe Lívia. Além disso, é possível abordar diferentes produções textuais, como cartas, cartazes e petições e mobilizar conceitos do letramento midiático, como a análise de reportagem, a verificação de informações e as fake news envolvendo o tema.

Matemática
A turma pode trabalhar com leitura e interpretação de dados, séries históricas e produção de gráficos, como o que registra o aumento das temperaturas ao longo das décadas. 

História
A primeira COP aconteceu em 1995, em Berlim, na Alemanha. Pode-se recuperar a história e o contexto da realização das primeiras reuniões e as metas estabelecidas em cada evento. Outra sugestão é tratar do papel da Revolução Industrial e da queima de combustíveis fósseis para a elevação das temperaturas.

Geografia
O que significa um evento como esse do ponto de vista geopolítico? É possível detalhar pactos e disputas que envolvem questões relacionadas ao clima e ao meio ambiente, os interesses das diferentes nações e a questão da justiça climática, por exemplo. Também dá para orientar a produção de mapas e abordar os diferentes fenômenos climáticos pelo mundo.

Arte
Produzir desenhos, manifestos e gravar vídeos é a indicação de Livia. “Dá, inclusive, para produzir mensagens e enviá-las para a COP.” Pode-se ainda trabalhar o eixo da fruição ao colocar a turma em contato com a produção de obras contemporâneas que abordam as mudanças no clima.

Educação financeira
Discutir as diferentes formas de consumo e as ações necessárias para um consumo consciente.

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