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Jornalismo

Como levar a Educação Antirracista para a Educação Infantil

Confira três pontos importantes para orientar sua prática e garantir que a temática está presente durante todo o ano

PorPaula Sestari

27/11/2023

A perspectiva antirracista deve fazer parte do olhar docente para demandas e incluir a temática no planejamento. Foto: Getty Images

Olá professores e professoras!

Em novembro, a ênfase da Educação Antirracista ganha destaque por conta do Dia da Consciência Negra. São muitos caminhos e os desafios que enfrentamos para levar a temática para a escola. Porém, desde a Educação Infantil, vemos os efeitos do racismo estrutural.

Antes de começar, quero me descrever fisicamente para marcar meu lugar de fala. Tenho pele branca, cabelos crespos, lábios volumosos e outros traços que comunicam uma miscigenação de descendência indígena, africana e europeia. Ao longo dos anos, além de vivenciar os privilégios da população branca, vivi situações de tentativa de descaracterização de minhas origens. Em minha adolescência, muitas vezes preferi manter meu cabelo preso para me encaixar no meu círculo de amizades. Também ouvi diversas vezes que deveria alisar o cabelo.

Percebo quanto minha miscigenação tem potência para discutir questões como o preconceito. Ela me motiva a levantar a bandeira da diversidade e apoiar outras crianças que desde pequenas sofrem tentativas de terem suas origens modificadas e até negadas.

Por isso, quero falar a partir de três pontos que considero importantes: o olhar atento, a importância de fazer escolhas por uma educação antirracista e de agir dentro das demandas para além das oportunidades constantes. 

Mantenha um olhar atento

O racismo afeta de diferentes formas as crianças desde que são os bebês. Por isso, o professor precisa criar um ambiente em que as diferenças sejam vistas e acolhidas em seus aspectos positivos para o desenvolvimento dos pequenos. Nessa etapa da vida, a identidade é construída com os elementos da cultura e das experiências que são proporcionadas no âmbito familiar e social. Por isso, é essencial promover vivências e práticas pedagógicas inclusivas que contribuam para o enfrentamento de estereótipos. 

Por exemplo, lembro-me que tive uma menina de pele branca – que vinha de uma família miscigenada – com olhos claros e cabelos crespos. Todos os dias ela vinha para a escola com o cabelo bem preso com gel e o penteado com um coque. Percebemos que, ao longo do dia, ela ficava incomodada e até com dores. Na hora do sono passamos a soltar o cabelo e depois voltávamos com o penteado da família. Diante de seu incômodo, passamos a fazer pesquisas sobre penteados que valorizassem o seu cabelo e, assim que chegava à sala, fazíamos nela – antes de ir embora, voltávamos com o coque. 

Os demais bebês passaram a perceber o seu cabelo e ficaram interessados em tocar, passar as mãozinhas. As crianças maiores também comentavam com muitos elogios. Resultado: essa menina tímida, que muitas vezes se mostrava incomodada, passou a ser mais risonha e mais sociável. 

Um dia resolvemos mandar essa bebê para casa com o cabelo solto. A mãe (branca, de cabelo liso), quando viu a menina, pediu que não soltássemos mais o cabelo dela. Dias depois, a mãe veio conversar conosco e pediu desculpas. Disse que o ocorrido gerou um conflito em casa, pois o pai, que é negro, questionou a sua conduta e apontou o preconceito velado. Daquele dia em diante a bebê passou a vir também de casa com os cabelos soltos.

Depois dessa experiência nos propusemos a olhar com mais cuidado para as questões de valorização da identidade de cada um dos bebês e criar situações para valorizá-las. 

Fazer escolhas por uma educação antirracista

Para garantir que as vivências de valorização da diversidade étnica e racial estejam presentes em seu planejamento, pesquise estratégias, sugestões e relatos de experiência, e amplie seu repertório cultural. As imagens, sons, narrativas com a temática precisam estar presentes durante todo o ano – isso envolve a aquisição de brinquedos, de livros, de recursos pedagógicos que contribuam para seu trabalho. Inclua narrativas de autores negros, livros com protagonistas negros, bonecas e bonecos que lembram diferentes etnias, brinquedos e brincadeiras de origem indígena, africana e afrobrasileira. 

Agir dentro das demandas

É comum perceber um aumento na busca por conscientização e sensibilização com as questões raciais quando há uma data chegando – como é o caso de abril, com o Dia dos Povos Indígenas e em novembro, com o Dia da Consciência Negra. Enquanto, no restante do ano, ignoram-se situações, muitas vezes sutis, de discriminação. 

Nós, professores, enquanto agentes de garantia de direitos das crianças, precisamos agir na luta por equidade nas escolas, abrir espaço para discutir e dar visibilidade ao assunto, promover reflexões capazes de transformar a postura da comunidade escolar para a perspectiva antirracista. 

Por exemplo, estar atento com o vocabulário que está sendo desenvolvido pelas crianças – dado que existem diversas palavras e expressões que perpetuam o preconceito. Dessa forma, é possível propor discussões de maneira crítica – dentro da capacidade de compreensão da turma. Por outro lado, também temos um patrimônio linguístico de origem afro e indígena que merece ser destacado para que desde cedo as crianças identifiquem e valorizem essas origens.

Por fim, a temática deve permear todas as nossas práticas, ao longo de todo o período letivo, para que deixemos de viver em um país em que a perspectiva de vida de uma criança negra é mais incerta do que a de uma criança branca em qualquer posição social. A mudança começa na primeira infância com o nosso compromisso de valorizar a diversidade para construir um futuro mais equitativo.

Um abraço e até breve!

Paula Sestari é professora da Educação Infantil da rede municipal de ensino de Joinville (SC), com dez anos de experiência nessa etapa, e mestra em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, e foi eleita Educadora do Ano com um projeto com crianças pequenas na área de Educação Ambiental.

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