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Jornalismo

Matemática: aprendizagens significativas contribuem para a motivação dos alunos

Laura Morera, doutora em didática da Matemática, discute o papel da formação continuada e como mudança de perspectiva possibilita aproximar os estudantes desse componente

PorPaula Salas

24/10/2023

Educadora espanhola Laura Morera destaca a necessidade do professor rever seu olhar para a Matemática e a importância de uma formação permanente para rever as práticas pedagógicas. Foto: Divulgação.

“O normal [nas aulas de Matemática] era ter gente entediada em sala de aula. Hoje não, porque sempre é possível fazer uma nova pergunta, pedir que solucione de outra forma, que busque outras estratégias”, afirma Laura Morera, doutora em didática da Matemática pela Universidad Autónoma de Barcelona (UAB) e especialista em aprendizagem na Innovamat, plataforma educativa com o objetivo de potencializar o ensino e aprendizagem de Matemática de crianças e adolescentes entre 3 e 16 anos.

Ainda que tenha vivenciado uma escolarização antes dessa transformação, a escolha profissional de Laura surgiu da soma entre desejo de ser professora e o interesse pela Matemática. Logo no início da graduação ela teve uma surpresa positiva: “percebi que ela não era o que havia pensado na escola, não eram coisas de memorização e de fazer exercícios repetitivos. Havia que pensar, argumentar, inferir. Foi uma grande mudança. Gostei ainda mais, era realmente muito mais interessante.” 

Essa descoberta não deve ser restrita àqueles que desejam seguir uma carreira na área da Matemática. Pelo contrário, o ideal é que desde cedo os alunos criem essa relação para que o componente não gere ansiedade ou aversão, e que eles possam desenvolver habilidades que serão importantes para o futuro – independente do caminho que seguirem. “A Matemática é uma maneira de pensar, de argumentar, de sistematizar. Queremos pessoas que tenham pensamento crítico ao final de contas, que saibam resolver problemas da vida, não apenas aqueles que estão no caderno”, afirma a educadora espanhola. 

Em entrevista exclusiva à NOVA ESCOLA, Laura fala sobre o que significa desenvolver aprendizagens mais significativas e como elas contribuem para a motivação dos estudantes, compartilha como fez essa mudança em sua própria prática e reforça a importância da formação continuada. Confira os destaques do bate-papo:

NOVA ESCOLA: A senhora tem 17 anos de atuação na Educação. Durante esse período, quais foram as dificuldades que enfrentou? Como sua prática pedagógica mudou ao longo desses anos e o que te auxiliou durante esse processo?

LAURA MORERA: Eu comecei muito iludida. Gostava de fazer coisas diferentes de como eu havia sido ensinada. Não é fácil mudar de um ano para o outro. Comecei participando de muitas formações. Então, eu ia inserindo atividades mais significativas a cada 15 dias. Depois, uma por semana. Mas ainda era difícil trabalhar todos os conceitos da Matemática com essas propostas que estimulam a descoberta dos estudantes. 

Depois de anos, consegui abordar todo o currículo com atividades em que eles eram os protagonistas. Nelas, o professor é um guia que propõe desafios para que eles conheçam tudo o que antes era explicado diretamente [de forma expositiva]. Se faço com que eles descubram, eles irão construir e saberão reconstruir. Porém, se já começo explicando, não saberão de onde vem as coisas, não entenderão o que está por trás, é muito superficial. Quando esquecerem, não conseguirão reconstruir.

Fui mudando aos poucos, lendo muito, indo a muitas formações. Você conhece uma prática e decide fazer, vai experimentando e vê como os alunos respondem. 

NE: O que significa aprender significativamente a Matemática?

LM: Tem um exemplo que eu gosto muito. Quando éramos mais novos, começamos a estudar a tabuada do 2, do 4 e a do 5. Se alguém te perguntasse, quanto é 6x8, você responderia que não chegou lá ainda, que apenas aprendeu a do 2, do 4 e do 5. 

Porém, se ensinei de forma significativa e te fiz entender o que é multiplicação, que é somar tantas vezes outro número, ao perguntar 6 vezes 7, o aluno responderá: “ainda não sei de cor, mas se me der um tempo, consigo descobrir.” 

Essa é a diferença, queremos que os alunos sejam capazes de dizer, sem medo ou bloqueio. Mesmo que sejam coisas que nunca tenham feito, que com paciência e tempo, podem fazer porque entenderam o conceito por trás da atividade. 

NE: Pode dar um exemplo de como foi essa transformação em sua prática?

LM: No começo, eu dava muita importância a definir as coisas antes de fazer uma atividade. Por exemplo, eu definia o que é um prisma. 

Depois que mudei o olhar, eu fazia atividades para que eles mesmos definissem o que era um prisma. Não era mais eu que iria explicar, eles descobririam. Eu tinha um material concreto com figuras tridimensionais, colocava todos na mesa e dizia que uma parte eram prismas e os outros não. Só olhando eles tinham de descobrir qual era a definição. Então eles iam construindo a definição, o que é muito mais significativo do que copiar no caderno um conceito para ser decorado. 

Na mente de um professor de Matemática é uma mudança muito grande. É sair de “eu explico” para “eles aprendem”. Eu continuo ensinando, mas eu faço coisas para que eles aprendam. Ao mudar isso, muitas coisas mudam [em sua prática do] dia a dia.

NE: Como auxiliar os professores a entenderem essa diferença e os estimular a rever suas práticas?

LM: Uma coisa que eu gosto é ter formações com vivências. Eles têm que sentir que aprenderam algo que achavam que sabiam e, na verdade, não sabiam. 

Por exemplo, quando falamos de potências e eu te pergunto: quanto é 2 elevado a 3? Os professores sabem que é 2 vezes 2 vezes 2. Mas, se eu colocar na forma de um problema: se eu tenho 3 cadeiras e 2 cores, de quantas formas eu posso pintar essas cadeiras? Ninguém vai resolver com potencialização. Então, eu lhes faço ver que eles achavam que sabiam o que eram as potências, mas eles sabiam a ponta do iceberg. Quando eles perceberam que levaram anos pensando saber o que eram e na verdade não porque não haviam conseguido utilizá-las para resolver um problemas, eles percebem que não podem continuar ensinando como eles foram ensinados, pois estão perdendo muito. 

NE: Essa questão de desmistificar a ideia da Matemática como algo para poucos, difícil e longe da realidade, para construir uma perspectiva mais significativa, que vai além de decorar. Em sua trajetória, quais os benefícios que observou ao fazer essa mudança em sua prática?

LM: Eles ficaram muito mais abertos e dispostos a aprender, o que resultava em uma aprendizagem mais rica e motivadora, sem gerar ansiedade. Isso já é um grande ganho, porque essa abertura é a parte socioemocional. Também percebi que faziam muitas conexões [entre os conhecimentos], que é o que, na realidade, queremos para o futuro. Antes, quando educávamos os estudantes, queríamos ensinar muitas coisas. Agora, já temos o Google para saber muitas coisas. É preciso saber com profundidade, saber fazer conexões e ser crítico. 

Trabalhar com desafios e fazer boas perguntas são estratégias que podem contribuir para a motivação e engajamento dos estudantes. Foto: Divulgação

NE: Como essas habilidades podem contribuir para o futuro dos estudantes?

LM: Em diferentes profissões é possível aplicar a Matemática, porque ela é uma maneira de pensar, de argumentar, de sistematizar. Queremos pessoas que tenham pensamento crítico ao final de contas, que saibam resolver problemas da vida, não apenas aqueles que estão no caderno. Então, ao final, tudo aquilo que os estimula a estar abertos, fazer conexões, fazer boas argumentações, resolver problemas, é importante para o futuro, independente de estudarem uma ciência ou não. As atividades significativas funcionam para quem quer ir além, estimular a que pensem cada vez mais e nunca parar de aprender. 

NE: Nos Anos Finais do Fundamental, os professores têm o grande desafio de engajar os estudantes. Essa transformação em sua sala de aula ajudou? Sentiu que os estudantes estavam mais envolvidos?

LM: Sim. O normal [antes] era ter gente entediada em sala de aula. Hoje não, porque sempre é possível fazer uma nova pergunta, pedir que solucione de outra forma, que busque outras estratégias. Se colocamos desafios e eles têm seu momento de vitória, os alunos se sentem empoderados, que sabem e cada vez vão melhorar. É como entrar em uma espiral positiva de motivação. 

NE: Existe mais de uma forma de fazer isso, certo?

LM: Muitas pessoas pensam que é contextualizar, de que vejam o tempo todo como aquilo vai lhes servir para algo concreto, colocar enunciados conectados à vida cotidiana. Essa é apenas uma forma, mas não é a que eu mais gosto, faço de vez em quando.

O mais importante é saber fazer perguntas adequadas para que possam ir além, que se sintam desafiados, que estão aprendendo e se superando. [Essa habilidade] se alcança com a experiência e com muita formação docente.

NE: A senhora está falando bastante desse estudo contínuo e da busca por referências. Qual é o papel da formação continuada para realizar essa transformação?

LM: Há muitos níveis dentro da educação matemática. Um deles é de divulgação, que é feito ao buscar ferramentas de qualidade. Não utilizar o primeiro resultado do Google, mas ter sites de referência onde você sabe que há boas atividades e bons recursos. É isso que tentamos fazer na Innovamat. Já fizemos esse trabalho de reunir referências durante anos e já oferecemos de forma mais mastigada. Depois tem um segundo nível, que seria mais de leitura, de artigos, livros, um aspecto mais teórico da didática. 

Se eu tivesse que fazer uma sugestão para os professores, eu diria para começar indo em eventos e congressos de divulgação, e depois ir para essa segunda fase. É necessário transpor o que as pesquisas estão trazendo para a sala de aula. 

Um conselho que funcionou para mim é: não tente mudar tudo no primeiro dia. Mudar aos poucos, ir se apropriando e vendo como os alunos vão obtendo sucesso.

NE: Selene Coletti é uma das nossas colunistas que escrevem Matemática. Ela compartilhou comigo a seguinte pergunta: como apoiar outros professores a mudarem a própria perspectiva que tem da Matemática e a transformar suas práticas?

LM: Uma vez que você é consciente de que quer mudar, precisa de muito acompanhamento, alguém que te oriente. O que também acontece com muitas pessoas, e é muito frustrante, é quando percebem que querem mudar mas não têm ninguém que os auxilie a fazer essa transformação. Fazer isso sozinho é muito difícil pois são muitas horas de leitura – além de ter seu trabalho ao mesmo tempo. É necessário auxiliar quem está ao seu redor, outros colegas. Fazer a transformação sozinho é muito custoso, mas se você está em um trem [com outras pessoas] ajuda muito nessa transformação. É importante buscar e deixar ser ajudado, ir todos juntos e estar sempre em formação continuada. 

NE: A outra pergunta da Selene está relacionada ao momento atual. No Brasil estamos em período de SAEB, uma avaliação nacional focada na aprendizagem de Matemática e Língua Portuguesa. A última avaliação evidenciou uma queda na aprendizagem motivada pela pandemia da Covid-19. A nova edição dessa avaliação está sendo muito discutida nas escolas. Qual é sua leitura a respeito desses resultados e como vê que é possível mudá-los em avaliações de larga escala?

LM: É necessário levar em consideração muitas coisas. São muitas variáveis em jogo que influenciam como os alunos fazem a prova. Os exames perguntam coisas muito concretas de conteúdo e não de processos matemáticos de argumentação e resolução de problemas. 

As provas em larga escala são um guia que temos de ter como referência, é uma forma de medir. Porém é necessário ter visibilidade para onde queremos ir. Queremos que os alunos pensem. Não estamos preparando os alunos para que tirem boas notas em uma prova, mas, sim, para que aprendam, sejam pessoas críticas. 

É como ter duas perspectivas sem esquecer nenhuma. Nós [da Innovamat] defendemos que alguém que domina o conteúdo, sabe resolver problemas e realizar conexões, será capaz de dar conta dessa avaliação – se deixarmos de lado o nervosismo. Não é ir em direções opostas. 

NE: Para terminar, pensando no que está sendo observado para o futuro do ensino de Matemática. Quais as discussões ou temáticas que é preciso ter em mente para pensar e se preparar para esse futuro?

LM: A didática da Matemática, como uma ciência, continuará avançando. É necessário estar preparado para saber cada vez mais sobre a aprendizagem das crianças. Quanto mais soubermos, mais poderemos auxiliar os estudantes. 

Mas, o que é feito na pesquisa deve chegar à sala de aula. É como na medicina. Ninguém pressupõe que um médico faça uma operação com técnicas dos anos 1970. Obviamente, conforme surgem novas técnicas, isso vai sendo incorporado. Na Educação deveria [ser menor o espaço de tempo] entre a descoberta de algo até chegar em sala de aula. 

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