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Jornalismo

Qual é o lugar do professor branco na prática antirracista?

O trabalho com a lei nº 10.639 e a luta contra o racismo não são exclusividade dos educadores negros; entenda como todos podem, e devem, participar

PorLavini Castro

17/07/2023

Professores brancos podem ter um lugar social no combate ao racismo, até porque é responsabilidade de todos refletirem e atuarem diante situações de discriminações e injustiças. Foto/Getty Images

Quem pode falar sobre os problemas do racismo ou trabalhar com os princípios das leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08? E quem deve planejar uma aula antirracista? Essas perguntas são muito pertinentes no universo escolar quando não nos damos conta de que o racismo é um mal social e acabamos o identificando como problema das pessoas negras. 

De fato, caros colegas, o racismo afeta mentes e corpos negros. Porém, a discussão antirracista não deve se concentrar apenas onde há pessoas negras ou sob a responsabilidade delas. Todas as pessoas devem discutir e buscar soluções para o problema do racismo em nossa sociedade.

É inegável a ação educadora dos Movimentos Negros na construção de um projeto educativo antirracista, como nos conta a professora Nilma Lino Gomes em seu livro Movimento Negro Educador. Aliás, a agenda desses movimentos sempre contemplou a educação para combater a discriminação racial nas escolas, seja pela luta ao acesso de pessoas negras ao ensino, seja pela proposta da reformulação do currículo, enfatizando as histórias e culturas africana e afro-brasileira nas escolas, mesmo antes da lei nº 10.639. Agora, o fato é que já passou da hora dessa discussão se expandir como pauta da agenda social e cultural de toda a sociedade brasileira.

Lugar de fala: qual é o seu?

Apesar disso, em se tratando da sala de aula, é recorrente a fala de professores negros afirmando que há uma cobrança da sociedade, por conta da representatividade, para que eles tratem das temáticas das relações raciais. Já os professores brancos dizem que não tocam no assunto por não ser seu “lugar de fala”. Ou seja, por não serem negros, não se sentem à vontade para falar sobre a temática racial. 

Eu, professora de História e mulher negra, sempre conduzi o debate das questões raciais de forma individual com minhas turmas, até que, depois de um bom tempo, outros colegas professores (negros ou não) chegaram para interagir comigo, tonando, então, possível construir uma pauta pedagógica antirracista coletiva na escola.

Lavini Castro, professora de História do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Foto: Camila Portella/NOVA ESCOLA

Será que se olharmos para a questão do entrave do lugar de fala como um lugar de representatividade, podemos aceitar o fato de que professores brancos não devem abordar a temática racial? Há duas questões importantes aqui: 

  1. O lugar de fala passa pela representatividade, mas vai além. 
  2. Se o racismo é um problema social, é dever de toda a sociedade agir contra ele.

Precisamos avaliar por que o trabalho da educação antirracista acaba sendo administrado, em sua maioria, por professores negros e por que professores brancos não têm colocado a mão na massa em projetos e aulas que discutam a temática racial. Para isso, no entanto, precisamos entender o que significa, de fato, lugar de fala e quais seriam os princípios das referidas leis.

Posicionar-se como antirracista vale para todos

De acordo com a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, criadora do conceito de lugar de fala, esse lugar é um “lugar social”. Ou seja, o lugar de fala de pessoas negras perpassa por sua representatividade de ser negro, mas há necessidade também de uma consciência racial e posicionamento político para fazer valer ações antirracistas. 

Nesse caso, não basta apenas ser um professor negro para discutir as questões raciais, há a necessidade também da consciência racial. Por outro lado, professores brancos podem ter um lugar social no combate ao racismo, até porque é responsabilidade de todos refletirem e atuarem diante situações de discriminações e injustiças. 

O que precisa haver, entretanto, é bom senso na atuação dos professores brancos em relação às questões raciais. Por exemplo, se uma pessoa branca não dá vez para uma pessoa negra falar, estará silenciando esse indivíduo e impedindo suas contribuições. Nesse caso, em sala de aula, é bom observar se alunos brancos impedem a fala de alunos negros, ou se os alunos negros são preteridos na hora de participar de forma frequente, ou se suas contribuições são rejeitadas constantemente, ou mesmo se alunos brancos são sempre escolhidos pelos professores a dar contribuições sobre as aulas. São situações sutis, mas que exibem o privilégio de pessoas brancas em um contexto escolar.

Então, abordar os privilégios da branquitude pode ser o início da atuação racial promovida por professores brancos. Levar para a sala de aula o questionamento dos motivos que pessoas brancas devem ser racializadas já é um bom caminho de discussão, porque o foco da temática racial é sempre o que ocorre com pessoas negras no seu aspecto mais negativo e violento. 

Desta forma, uma abordagem interessante, por exemplo, é questionar as ausências de pessoas negras em determinados espaços, a começar pelas imagens dos livros didáticos. Que tal conduzir uma aula em que haja uma pesquisa sobre quantas imagens de pessoas negras existem no livro e sob quais condições as pessoas negras aparecem? Essa é uma forma de problematizar a questão da visibilidade negra estar sempre atrelada a aspectos negativos. 

Porém, nada disso fará uma pessoa branca ter a dimensão do que é sofrer racismo. Por isso, professores brancos devem falar a partir da perspectiva da branquitude diante de atitudes racistas. Em sala de aula, quando um professor branco está mediando uma abordagem sobre relações raciais, ele deve criticar o privilégio que pessoas brancas têm na sociedade, além de jamais falar sobre como uma pessoa negra se sente diante do racismo (ou como ela deveria se sentir), simplesmente pelo fato de que ele não vive a experiência de quem sofre discriminação racial. 

No entanto, ao testemunhar o racismo e assumir uma postura antirracista, esse educador gera uma reflexão muito potente junto a outras pessoas brancas. Afinal, você não precisa ser uma pessoa negra para querer uma sociedade com igualdade racial, não é?

O que dizem professores brancos?

Para engajar o argumento desta coluna, convidei professores que se autodeclaram brancos e atuam próximos a mim para responderem à questão central da nossa discussão: como professores brancos podem trabalhar com a temática das relações raciais? Confira, caro leitor, o que eles responderam:

Entender-se como sujeito não universal

Para o professor Estevão Garcia, da rede pública do Rio de Janeiro, o primeiro passo para um professor branco trabalhar com as questões raciais é se racializar como branco. Entender-se como sujeito não universal, sendo portanto, mais um componente de um grupo étnico-racial que compõe a diversidade humana. 

“Por outro lado, é importante compreender que o lugar de fala de uma pessoa branca deve sempre partir do entendimento do privilégio racial desse grupo e que tal privilégio deve ser sempre questionado para ser superado”, diz ele.

Para tanto, Estevão identifica o estudo sobre a temática das relações raciais como uma importante ação de letramento, pois, como pessoas brancas ainda não se enxergam racializadas, elas precisam ler autores negros e conceitos das literaturas afro-centradas, seja da África ou afro-diaspóricas, para trabalhar a partir de uma narrativa contra-hegemônica e decolonial.

Troca de ideias e escuta ativa

Já o professor Robson Sardinha, também da rede pública do Rio de Janeiro, acredita que uma pessoa negra fala com mais propriedade sobre as situações de racismo às quais é, infelizmente, exposta. Sofre, literalmente, na pele tais constrangimentos criminosos. Contudo, a troca de ideias sobre as relações raciais não deve ser impedida de acontecer em momento algum, independentemente dos grupos raciais que estejam interagindo.

Conhecer a vivência dos alunos

Para a professora Viviane Poubel Bandeira, que dá aulas na rede pública de Minas Gerais, existem diversas maneiras do professor branco trabalhar a lei nº 10.639/2003. Uma prática pedagógica antirracista interessante, segundo ela, é dar voz ao aluno, conforme já nos contava bell hooks no livro Ensinando a Transgredir, ao falar sobre a importância do entusiasmo na sala de aula. O entusiasmo ocorre quando colocamos o conhecimento como algo horizontal, no qual todos são convidados a interagir e suas colocações são aproveitadas para conduzir o tema da aula.

A professora Viviane nos conta que trazer o conhecimento para a realidade do aluno permite que ele vivencie por meio de construções práticas e isso desperta o interesse, além de mostrar como sua voz é relevante.

Atenção ao que naturalizar em sala de aula

Quando o tema da aula permeia as histórias ou as culturas africanas e afro-brasileiras, os professores devem mostrar com naturalidade a diversidade humana em suas diferentes organizações sociais, econômicas, políticas e culturais para que os alunos aprendam que a realidade é plural. 

Todavia, quando o tema da aula acaba se tornando um problema de discriminação racial, todos os educadores devem focar o trabalho em encarar as várias formas que o racismo se apresenta no ambiente escolar, mostrando que não há nenhum tipo de brincadeira por trás de atitudes racistas, mas há, sim, a intenção de inferiorizar. Ao enfrentarem essas questões, os educadores desafiam o status quo e realizam um empurrão em direção ao objetivo de justiça social. 

Lavini Castro é educadora antirracista. Doutoranda em História Comparada pelo PPGHC/UFRJ. Mestre em Relações Étnico Raciais pelo PPRE/CEFET-RJ. Historiadora pela UFRJ. Professora de História do Ensino Fundamental e Ensino Médio das redes pública e particular do estado do Rio de Janeiro. Idealizadora e coordenadora da Rede de Professores Antirracistas. Ganhadora do Prêmio Sim à Igualdade Racial do ID_BR em 2021.

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