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Jornalismo

O que deve estar no radar do diretor escolar em julho?

Planejamento pedagógico, manutenção dos espaços e questões burocráticas são algumas das demandas da gestão para o período

PorThais Paiva

10/07/2023

Julho é sinônimo de férias para os estudantes e professores. No entanto, para os gestores, é um momento de dar conta de diversas demandas administrativas e pedagógicas. Foto: Getty Images

Julho pode ser sinônimo de férias para os estudantes e parte da comunidade escolar, mas é um momento de intenso trabalho para os gestores. Avaliar como foi o primeiro semestre e, a partir disso, replanejar a segunda metade do ano, organizar a documentação pedagógica e os materiais, bem como colocar em ordem questões ligadas aos departamentos financeiro e administrativo são algumas das demandas que o período exige. Sem falar nos pequenos reparos e outras manutenções no espaço da escola que só são possíveis sem o ir e vir dos alunos. 

O mês é também um momento-chave para refletir sobre o planejamento pedagógico feito no início do ano letivo, se a rota traçada lá atrás vem funcionando ou se é necessário buscar outros caminhos e alternativas. Além disso, é importante realizar as intervenções necessárias no caso dos alunos que apresentam dificuldades.

Na EE Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG), esse processo envolve uma série de encontros com diferentes segmentos da comunidade escolar como alunos, professores, pais e responsáveis, comunidade do entorno e coordenadores pedagógicos. A escola, que atende cerca de 150 alunos dos ensinos Fundamental e Médio, faz um processo de avaliação contínuo, com a convocação do Conselho de Classe ao final de cada bimestre. 

Porém, chegado julho, gestão, coordenação e corpo docente se reúnem para desenhar estratégias de recuperação de curto prazo para os alunos que não foram bem em algum conteúdo ou tiveram problema no caminhar do primeiro semestre. Essas ações são desenvolvidas paralelamente ao currículo, nos primeiros 15 dias do mês, enquanto os alunos ainda estão frequentando as aulas. 

“Depois, fazemos uma reunião com os familiares. Costumávamos deixar essa conversa para agosto, mas esse ano já fizemos, porque a ideia é que os pais se engajem na aprendizagem dos filhos nesse processo de recuperação”, conta o diretor João Paulo Pereira de Araújo.

Para os casos que exigem maior acompanhamento, são também desenhadas intervenções para o momento do retorno das férias. “Traçamos um plano de longo prazo para aqueles alunos do 4°, 5°, 6° e 7° anos que estão com uma dificuldade maior e um cronograma para que voltemos em agosto com essa estratégia em andamento”, conta o gestor. 

Planejamento pedagógico e revisão do PPP

As informações coletadas por meio dessas conversas também servem de base para revisitar o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e as 10 prioridades elencadas no início do ano no Plano de Ação. “Juntos, fazemos um estudo do PPP para ver quais, dentre as 10 ações que desenhamos, nós conseguimos iniciar, quais já estão finalizadas e quais deixaram de ser prioridade”, conta João Paulo. A dica para outros gestores é que façam essa revisão do documento para servir de base para traçar novas metas e ver quais se mantêm para o próximo semestre letivo.

Por exemplo, quando desenhado em janeiro, o Plano de Ação da escola não previa um projeto de educação antirracista, o que, agora, se mostrou urgente. “Essa necessidade surgiu ao longo do primeiro semestre e já começamos a levantar dados. Devemos ainda no próximo semestre ter um projeto com este tema”, afirma o diretor.

Processo semelhante acontece no CEI Jardim Macedônia, em São Paulo (SP), que atende crianças de 0 a 3 anos. Com os pequenos, os professores e os funcionários da inspetoria de recesso a partir da segunda semana de julho, a diretora Josiane Souza do Porto aproveita para, junto à vice-diretora e coordenadora, analisar o andamento do projeto de estudo Conhecer para respeitar a tua/nossa história - Por uma educação antirracista, que materializa o PPP da escola e vem guiando as práticas pedagógicas previstas para 2023, com foco na questão étnico-racial

LEIA TAMBÉM: Caminhos para fazer da escola um espaço antirracista

Antes de saírem de recesso, as professoras avaliam de forma individual e, depois, coletivamente o trabalho feito até então. “A gente senta junto para avaliar o que atingimos e o que não atingimos, quais são os documentos que a gente vai trazer para o segundo semestre e, a partir disso, a gente revisita o PPP se necessário”, conta Josiane.

Voltada para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e atendendo cerca de 500 alunos em três turnos, julho é um mês especialmente desafiador para a EE Professor Samuel Benchimol, em Manaus (AM). “Aqui, a EJA é semestral. Então, em julho, é como se acabasse um ano para outro se iniciar”, conta o diretor Rodrigo Barbosa Froes.

Para não se perder diante de tantas demandas, o gestor costuma produzir um cronograma e elencar prioridades. “O gestor escolar tem que ser um administrador, tem que pensar em todas as esferas da escola. E lembrar que o resultado positivo da sua administração vai ter um impacto positivo no desempenho da escola”, diz Rodrigo. 

E, no cronograma, a prioridade são sempre os alunos. “O primeiro contato é com o pré-conselho, com os professores para saber como estão os alunos”, conta. A partir dessa conversa, o gestor se reúne, então, com a pedagoga da escola para entender quem são os estudantes que evadiram, quais estão com dificuldades ou faltando e, a partir desse diagnóstico, chamá-los para uma conversa. “No caso dos alunos que evadiram, fazemos uma busca ativa. Esse é o grande gargalo da EJA: um aluno que arruma um trabalho, uma aluna que engravida”, exemplifica.

Organização das demandas administrativas e financeiras

Além da avaliação e replanejamento da parte pedagógica, julho pode ser um período decisivo para colocar em ordem questões de cunhos administrativo e burocrático. “Nós aproveitamos essas semanas para, por exemplo, fazer a revisão da documentação dos alunos que vieram de outras escolas. Além disso, tivemos mudanças de função na equipe da merenda, da limpeza e em outros aspectos operacionais”, conta João Paulo. 

No que diz respeito ao setor financeiro, sem as demandas que precisam ser atendidas quando as aulas estão a todo vapor, o diretor pode analisar com calma a aplicação dos repasses públicos e organizar os documentos para recebê-los ou mantê-los. 

“Fazemos um balanço do primeiro semestre e o planejamento de onde se pretende investir no segundo. A gente faz essa avaliação, preparando uma reunião para o Colegiado Escolar para assim que houver o retorno. É o caso da merenda. Já começamos a fazer a avaliação do cardápio, olhando para aquilo que compramos e sobrou, o que faltou, a fim de organizar as compras para entrarmos com a licitação. O mesmo é feito para material de limpeza, de papelaria etc”, conta João Paulo.

Checar junto à secretaria como está o lançamento de notas, a parte documental dos alunos e funcionários, os relatórios, a situação das pré-matrículas e das verbas também faz parte da rotina da gestão durante as férias escolares dos estudantes. “Infelizmente, são poucos recursos para uma burocracia muito grande. Para que a gente consiga usá-los, precisamos estar com a documentação em dia. Costumamos usar julho para consultar o conselho, levar as informações para o cartório e banco, para fazer um plano de aplicação das verbas para ver quais são as ações prioritárias”, conta Rodrigo.

Na CEI Jardim Macedônia, o foco vai para a organização da documentação junto à secretaria, de forma a ordenar os materiais, documentos dos professores e prontuários. “Também retomamos o plano de compras que preenchemos em maio e fazemos a organização interna dos documentos referente às empresas terceirizadas, da alimentação escolar, do recebimento de material. A gente aproveita para organizar os documentos e fazer um mini inventário dos materiais recebidos pelas terceirizadas e pela própria prefeitura”, conta Josiane.

Pequenas reformas e espaços pedagógicos

Com a escola praticamente vazia, é oportuno aproveitar o recesso entre semestres para cuidar da infraestrutura e fazer os reparos e mudanças necessárias nos ambientes. “São duas semanas que aproveitamos para dar uma olhadinha no espaço e fazer intervenções e manutenções que não davam para fazer com as crianças junto. Ações como: retirada de mato, dedetização, limpeza de caixa d'água, pintura”, enumera Josiane.

Entre as manutenções já previstas pela EE Professor Samuel Benchimol para o segundo semestre, estão a lavagem e a vistoria de todos os ares condicionados. “Manaus é muito quente e úmida. Se no primeiro semestre o principal problema são as chuvas, as inundações, o telhado, no segundo, são os ares condicionados que precisam estar a todo vapor porque fica muito calor”, conta Rodrigo. 

Feitos esses pequenos reparos de cunho operacional, o diretor afirma ser um bom momento para repensar os espaços em sua perspectiva pedagógica. “Gosto de trabalhar com projetos. Estamos agora arrumando o jardim da escola para trabalhar o meio ambiente, os tipos de plantas, quais são medicinais etc. Estamos no meio da Amazônia, então é uma contribuição para todos”, conta.

Pausas e saúde mental

Com tantas demandas e tão pouco tempo, pode ser difícil relaxar e manter a saúde mental. Por isso, é importante que os gestores coloquem no planejamento um olhar para o bem-estar de toda a comunidade escolar, incluindo eles próprios. 

“Uma das formas que encontro para manter a saúde mental é me planejar ao máximo. Mas mesmo assim é muito difícil, porque na gestão são inúmeras demandas e, de uma hora para outra, surge alguma que não estava no planejamento. Então, para além disso, eu pratico atividades físicas todos os dias e busco assistir a séries e ler livros para tentar me acalmar em relação à ansiedade”, detalha João Paulo.

Atividade física também é uma estratégia utilizada por Josiane. “Faço atividades físicas como caminhada e pilates e sempre que possível saio com as amigas pra tomar um café e bater um papo”, diz.

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