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Lendas urbanas conquistam a classe

Esses textos repletos de fatos amedrontadores fazem sucesso entre a garotada. Planeje atividades de leitura e de análise para ensinar os detalhes e particularidades deles

por:
EF
Elisângela Fernandes
Loira do banheiro. Ilustração: Raphael Salimena
Loira do banheiro Ela morreu no banheiro de uma escola e, com algodão no nariz, volta ao mundo dos vivos para assombrar os alunos.

"Credo, professora, que coisa horrível!", exclamou um dos alunos. "Não vou conseguir dormir à noite", disse outro. O medo parecia estar tomando conta da turma do 6º ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) durante as atividades de leitura nas aulas de Língua Portuguesa, mas, de acordo com a professora Fernanda Müller, todos estavam fascinados com as lendas urbanas.

Esse subgênero literário (que faz parte do gênero lenda) passou a integrar o planejamento quando a educadora propôs como tarefa de casa que os estudantes perguntassem a amigos e familiares quais lendas eles conheciam. Ela esperava que eles levassem para a escola histórias folclóricas como a do Saci-Pererê, da Mula Sem Cabeça, do Boto e do Curupira. Mas nada disso - só a do Negrinho do Pastoreio apareceu e, ainda assim, uma vez. Em vez deles, as crianças falaram da Loira do Banheiro, do Homem do Saco e da Gangue dos Palhaços. 

"Notei que seria interessante organizar sessões de leituras dessas lendas e problematizar as diferenças entre elas e as folclóricas, comparando as características desse subgênero com as dos contos maravilhosos e das fábulas, que estávamos lendo também", diz Fernanda.

A proposta foi aceita com empolgação pela garotada, que pesquisou uma porção de lendas urbanas. Depois, foi a vez de a professora levar para a turma um texto que contava a lenda da Mulher da Meia-Noite a fim de fazer um estudo mais focado. Ela também preparou um roteiro para orientar a leitura. O objetivo era levar os alunos a observar e sistematizar as características que marcam o subgênero. Por fim, a docente instruiu a moçada na organização de um quadro comparativo das diversas particularidades dos outros gêneros.

De acordo com a região, detalhes sofrem alterações

Mulher da meia-noite. Ilustração: Raphael Salimena
Mulher da meia-noite Sedutora, usa um vestido vermelho (ou branco, dependendo da versão). Passa as noites em busca de homens solitários, que se dispõem a acompanhá-la até sua casa. Mas, à meia-noite, ela desaparece.

Transmitida pela tradição oral, a lenda urbana é uma narrativa simples e curta, tal como a folclórica. Ambas são, por excelência, produtos inacabados, à espera de alguém que faça uma mudança aqui ou ali no enredo. "Elas estão sempre sendo ressignificadas", explica Heloisa Prietro, doutora em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de livros infantis e juvenis. Não é à toa que alguns personagens aparecem em lendas contadas nos quatro cantos do país, só que em diferentes contextos e com estilos e marcas. Por exemplo, são muitas as moças bonitas e loiras presentes no imaginário popular: a do Banheiro, a do Cemitério do Bonfim e a da Estrada.

Outra característica marcante do subgênero é que, tal como ocorre com a lenda folclórica, quem conta a urbana precisa se esforçar para convencer o interlocutor de que se trata da mais pura verdade. Porém essa é uma tarefa difícil, já que o narrador quase nunca vive o personagem (embora sempre saiba onde e quando o fato ocorreu). É o primo de alguém distante ou o amigo do amigo, por exemplo, que desobedeceu aos pais e foi levado pelo Homem do Saco. Assim, é comum encontrar durante a narração expressões como: "Sei que é difícil acreditar, mas juro que é verdade".

"Muitas vezes, também são somados à história elementos e acontecimentos do cotidiano da comunidade local", explica Carlos Renato Lopes, professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autor da tese Lendas Urbanas na Internet: Entre a Ordem do Discurso e o Acontecimento Enunciativo. Por exemplo, a má sorte de uma pessoa pode ser creditada como culpa de um personagem.

Histórias podem ter mais de um século de vida

Homem do saco. Ilustração: Raphael Salimena
Homem do saco Sujo e malvestido, ele anda pelas ruas à procura de crianças para raptá-las. Há versões em que alguns pais entregam seus filhos desobedientes para que ele os leve embora.

Além de se dedicar à organização de sessões de leitura, pesquisas e análises das características das lendas urbanas, cuide para que três informações não passem despercebidas pelos alunos: 

- Elas não existem só nos grandes centros urbanos. Algumas surgem com narrativas do folclore tradicional de uma região e são adaptadas ao longo do tempo, incorporando aspectos cotidianos. 

- Não são narrativas recentes, contemporâneas. As primeiras surgiram no século 18, com as grandes aglomerações de pessoas e os primeiros jornais, que nem sempre se prezavam pela verdade, mas por noticiar fatos intrigantes. 

- Alguns motes também não são inéditos. O fato de a Gangue dos Palhaços sequestrar crianças para extrair e comercializar os órgãos delas já foi explorado em O Mercador de Veneza, do inglês William Shakespeare (1564-1616). Em certo momento do livro, ao emprestar dinheiro ao mercador Antonio, Shylock, um judeu rico, pede como garantia "uma libra de carne humana" como forma de pagamento de uma dívida.

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