Imagens sem som e com movimento

O teatro de sombras e a história do cinema são a base para a produção de um curta mudo

POR:
Paula Peres, NOVA ESCOLA, Ana Ligia Scachetti
O hábito de brincar com as sombras das mãos ganhou novo signifcado para a sala . Foto: Elisa Elsie
O hábito de brincar com as sombras das mãos ganhou novo signifcado para a sala

Muitos alunos têm um telefone celular e estão acostumados a clicar na função gravar e registrar os mais variados acontecimentos. Você pode aproveitar esse interesse para apresentá-los à linguagem do cinema. Os professores Nicodemos Silva de Lima e Eudesia Maria Carvalho de Freitas fizeram isso com o 6º ano da EM Celestino Pimentel, em Natal. Ele é responsável pela disciplina e ela pela sala de multimeios. Trabalharam juntos e colocaram a tecnologia a favor da compreensão dessa expressão artística.

Eudesia e Lima iniciaram a sequência explicando para os estudantes que iriam estudar a imagem, o movimento e o cinema e perguntaram o que já sabiam sobre esses temas. "Eles achavam que cinema era apenas a sala onde vamos assistir a filmes", lembra a docente. Em uma aula expositiva, então, a turma assistiu a uma apresentação em PowerPoint que contou a história do registro das imagens ao longo do tempo. Todos conheceram o teatro de sombras, originário da China. "Mostramos que essa técnica é uma maneira de expressar o pensamento usando o corpo, as mãos ou objetos recortados", acrescenta Eudesia. Segundo ela, muitos alunos têm o hábito de brincar com a sombra das mãos na parede quando a sala está na penumbra. Os docentes propuseram que todos retomassem essa prática para se expressar e criassem figuras de animais, aproveitando a luz do DataShow para projetá-las.

Depois que os alunos entenderam que a imagem e o movimento são usados como expressão do pensamento, os docentes explicaram que um dos frutos dessa relação é a chamada sétima arte: o cinema. O retrospecto continuou passando por equipamentos como o fenacistoscópio, considerado o primeiro aparelho a representar uma cena em movimento, criado pelo físico belga Joseph Antoine Ferdinand Plateau (1801- 1883). E, finalmente, as crianças foram apresentadas aos irmãos franceses August (1862-1954) e Louis Lumière (1864-1948), pioneiros dessa linguagem. Eles desenvolveram o cinematógrafo, que registrava a imagem em um filme e permitia que, depois, ela fosse projetada para o público. Deles, os estudantes assistiram a A Chegada do Trem na Estação (com 55 segundos) e A Saída dos Operários da Fábrica Lumière (com 48 segundos), ambos de 1895. Após a exibição, a turma disse estar espantada com a brevidade das produções: "Mas é só isso?". "Dessa maneira, quebramos o paradigma de que filme tem de ser longo", lembra Eudesia.

Muito prazer, Charles Chaplin

Os alunos ensaiaram a cena e a gravação final foi feita com o celular da professora. Foto: Elisa Elsie
Os alunos ensaiaram a cena e a gravação final foi feita com o celular da professora

A etapa seguinte foi sobre o cinema mudo. A sala viu que nessa fase os filmes haviam se tornado mais longos, demandavam uma produção maior e tinham um enredo, não apenas uma cena. Porém, ainda não havia som e os atores passavam a mensagem usando somente gestos. Novamente, a reação das crianças foi de estranheza. Então, os docentes promoveram uma oficina de mímica, e a percepção da turma começou a mudar. Na atividade, um aluno pegava um papel com uma palavra - como dor, alegria e cócegas - e tinha de explicá-la com gestos para que o resto da turma adivinhasse. "Queríamos que o responsável pela mímica exercitasse o uso do gestual e que quem estava na plateia refletisse sobre a compreensão disso. Mas esse momento também serviu de preâmbulo para a elaboração do curta-metragem mudo. Conseguimos que a classe percebesse a importância do uso dos gestos, que substituem as falas nessa modalidade de cinema", diz Lima.

Após o exercício, os professores exibiram à turma O Circo (The Circus, de 1928, 71min, ficha técnica e trechos disponíveis no site charliechaplin.com), do ator e diretor inglês Charles Chaplin (1889-1977). "Eu gostei muito do filme e do trabalho do Chaplin, porque ele é um comediante que não precisa falar para fazer rir. Aprendemos que tem como encenar e mostrar a arte sem falar", resume a aluna Isabela da Silva, 13 anos.

Com o interesse de todos despertado por aquele tipo de produção, os estudantes passaram a produzir o próprio filme mudo. Criaram uma pequena história em conjunto, e cinco se voluntariaram para ser os atores. Os papéis foram ensaiados em uma aula e quem não estava atuando opinava sobre o que poderia ser melhorado. Na aula seguinte, a encenação foi feita e filmada pela câmera do celular da professora.

Anna Rosaura Trancoso, coordenadora de Arte da Secretaria Municipal de Educação de Rio das Ostras, a 165 quilômetros do Rio de Janeiro, e formadora do projeto Cineduc - Cinema e Educação, ressalta que o fato de terem a câmera nas mãos não quer dizer que as crianças e os adolescentes consigam se apropriar de uma linguagem. "É importante eles compreenderem que a escolha de um enquadramento, a realização de um movimento com a câmera ou a inclusão de um objeto de cena influenciam diretamente no resultado final", acrescenta, lembrando que a prática é fundamental para esse aprendizado. "O cinema é o pai do audiovisual. Estudá-lo e se apropriar dele exercita um olhar mais crítico diante do que é assistido e capacita a se expressar por meio desses recursos."

O curta-metragem produzido pelo 6º ano em Natal seguiu o estilo de um bangue-bangue. Dois meninos interpretaram os vilões, que chegavam a um estabelecimento comercial e tentavam assaltar duas clientes. Nesse momento, o xerife entrava em cena, prendia os bandidos e salvava as mocinhas. "Depois de preparar os alunos, o professor deve deixá-los livres para criar. É comum o docente interferir demais nas etapas de produção, mas o olhar da criança é diferente do olhar do jovem que, por sua vez, é diferente do olhar do adulto", comenta Anna.

Os educadores finalizaram o trabalho usando o programa Windows Movie Maker. Colocaram os efeitos especiais sugeridos pela turma, mantiveram as cenas em preto e branco e incluíram os créditos de todos os envolvidos na produção. Depois, todos assistiram juntos ao resultado e trocaram impressões com outra turma da escola que passou pelo mesmo processo. O 6º ano continuou se aprofundando no universo da linguagem cinematográfica, aprendeu como se produz um roteiro e ainda participou de oficinas de animação e stop motion, mas esses são filmes para uma próxima sessão.

1 Animais na sombra Explique que o movimento está presente nas produções artísticas há muito tempo e apresente o teatro de sombras. Proponha que as crianças façam silhuetas de bichos com as mãos e projetem na parede.

2 Cinema sem som Exiba os primeiros filmes dos irmãos Lumière e mostre como o cinema evoluiu depois disso com produções de Charles Chaplin. Deixe que a turma comente e ressalte que o ator explicava tudo sem usar a voz.

3 Produção de um curta Peça que a turma crie o roteiro de um curta-metragem mudo. Os alunos devem decidir quem serão os atores e todo o desenrolar do filme. Após os ensaios, a gravação e a edição podem ser feitas por você ou por eles.

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