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Entrevista com Yolanda Reyes

Especialista colombiana em fomento à leitura e formação de leitores diz que a garotada está distante da literatura porque a cultura contemporânea conspira contra tudo o que não tem utilidade imediata

por:
BV
Beatriz Vichessi
Yolanda Reyes. Foto: João Marcos Rosa/Agência Nitro
Yolanda Reyes

Para quem insiste no discurso de que os jovens de hoje não gostam de ler, que as novas tecnologias são uma das maiores causadoras desse problema e que esse cenário não tem solução, Yolanda Reyes recomenda analisar melhor e mais a fundo a situação. A começar por observar o que esse público faz, do que gosta e o que diz. A educadora, colunista da revista digital Emília e fundadora dos Instituto Espantapájaros, em Bogotá, na Colômbia, chama a atenção, por exemplo, para os milhares de exemplares de livros de Harry Potter (J. K. Rowling, Ed. Rocco) vendidos no mundo. "Muitos adolescentes gostam de ler. Nós temos de ajudá-los a conhecer esse universo e refinar suas buscas a fim de que conheçam seus gostos e não sigam só o que está na moda", diz.

Com a experiência de quem também escreve para a garotada (no Brasil, foram publicados, dentre outros títulos infanto-juvenis, Terça-Feira: Quinta Aula e É Terminantemente Proibido, ambos da Editora FTD), a especialista também sugere que, para aproximar os adolescentes dos livros, os educadores trabalhem com leitura para além das atividades escolares.

Em visita à capital mineira para apresentar uma palestra na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil, Yolanda concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.

De acordo com sua experiência com formação de leitores, qual a relação dos jovens com a leitura?
YOLANDA REYES
Na Colômbia, tal como em outros países, incluindo o Brasil, uma característica antiga da Educação marca a aproximação desse público com os livros: o ato de ler é orientado para fazer provas. Isso vincula a literatura à aprendizagem memorizada e à ideia de que os livros precisam estar sempre ligados à escola e à obrigação de ler para fazer algo depois. Os jovens leem e escrevem bastante, mas têm pouco contato com os livros na vida fora da escola. Eles acessam outros suportes, como celular, blogs, Facebook, e trocam mensagens o tempo todo. Ou seja, têm mais relação com a leitura para a comunicação do dia a dia, por vezes superficial, e não com a leitura para decifrar a vida - que tem a ver com a literatura.

Trabalhar com leitura e literatura na escola é tarefa do professor da disciplina de Língua Portuguesa?
YOLANDA
Não só dele. É de todos porque ler tem a ver com o mundo da informação das diversas ciências e campos do conhecimento, com conectar coisas, saber como outras pessoas resolveram problemas, o que sentiram e o que viram, inclusive as que viveram há muito, muito tempo. O problema é que nem todos os educadores leem e para formar leitores é preciso, antes de mais nada, ser um leitor. Também é papel deles ensinar os alunos a interpretar, fazer inferências e, como disse o escritor, sociólogo e crítico literário francês Roland Barthes (1915-1980), ler levantando a cabeça. Quer dizer, ler nas entrelinhas e fazendo pausas para escutar a própria voz.

Ainda que muito jovens considerem ler importante, a maioria não vê utilidade nisso e não se dedica ao hábito. Como reverter essa situação?
YOLANDA
Realmente, as artes nem sempre têm resultados imediatos e funções práticas. A literatura, por exemplo, não tem a ver só com ler para entender algo. Lemos por prazer, para relaxar e para vivenciar experiências que não são nossas. Mas a cultura contemporânea conspira contra o que não tem utilidade imediata. As provas internacionais que avaliam leitura também reforçam seu caráter utilitário porque cobram que os alunos leiam para resolver algo e entendo que essa é uma aptidão importante e faz parte da vida. Precisamos mostrar aos estudantes que a leitura também tem a ver com sentimentos e toma tempo, mas não é um desperdício. Isso pode ser feito, por exemplo, organizando sessões de leitura coletiva e de troca de recomendações entre colegas.

A escola precisa mudar o jeito de se comunicar com os jovens para que eles se interessem pelos livros?
YOLANDA
Sem dúvida. Temos de rever as barreiras que colocamos entre a linguagem da Educação e as linguagens da vida cotidiana, muito ligadas à internet e à televisão. O mundo se abriu e a escola precisa considerar isso, integrando as novidades à sala de aula. Levar isso em conta não tem a ver só com a formação de leitores, mas também com conhecer melhor os jovens, se aproximar deles, falar a mesma língua. Como entender alguém de 15 anos sem considerar a tecnologia que ele domina? É necessário desenvolver um intercâmbio. Os adolescentes têm muito a ensinar sobre como navegar na internet, onde encontrar conteúdos interessantes e de que forma aproveitar ao máximo as funcionalidades de um celular, por exemplo. Os educadores, por sua vez, podem aproveitar que a literatura é um meio para entender a experiência humana, e a adolescência, uma fase de paixões para convidar os alunos a descobrir nos livros como outras pessoas, de outras épocas, se apaixonaram, por exemplo.

Atualmente, as bibliotecas são lugares repletos de livros, porém sem muito movimento. É necessário repensar o modelo tradicional para torná-lo mais atrativo?
YOLANDA
Sim. Várias delas oferecem acesso à internet e isso chama a atenção da comunidade local. No entanto, em um canto ficam os computadores, em outro os livros e, num terceiro, os funcionários. São três mundos que não estão conectados. Os bibliotecários e os professores precisam trabalhar para envolver as crianças, os jovens e outros adultos e não se contentar em atender às necessidades deles, mas criar novas, mostrar outras possibilidades.

De tempos em tempos, o mercado editorial lança coleções volumosas, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis (J.R.R. Tolkien, Ed. Martins Fontes) e a saga Crepúsculo (Stephenie Meyer, Ed. Intrínseca). Todas fazem sucesso, inclusive entre as pessoas que não têm o hábito de ler. No entanto, são poucos os jovens que se interessam por outros títulos e continuam lendo. Precisamos de mais criaturas fantásticas nas estantes para formar leitores?
YOLANDA
Em primeiro lugar, é necessário entender que esses títulos e tantos outros são fenômenos criados pelo mercado. Os autores são talentosos, mas seguem uma fórmula que mistura amor, intriga, magia... Seguramente outras obras com essas características são bem-vindas: movimentam as editoras e atraem o público. Penso que tudo bem na medida em que são livros com muitas páginas e mesmo assim conquistam os jovens. Ao mesmo tempo, questiono por que a juventude é atraída por isso e não por Drácula, escrito por Bram Stoker no século 19? É uma obra tão grande quanto as outras e abrange a mesma temática! Na minha opinião, há um recado muito claro nessa história: os adolescentes querem ler, encaram muitas páginas sem reclamar e deixam claro do que gostam. A escola tem de usar tudo isso para fazê-los acessar outros títulos, mais complexos e desafiadores. É uma forma de ajudar a conhecer e se apropriar de um livro, de um autor ou de um tema em especial, indo além do que está na moda. Para isso, os professores e quem trabalha com formação de leitores tem de sinalizar o caminho, fazer sugestões: ‘Você está gostando de ler sobre vampiros? Esse livro que tenho em mãos tem um personagem semelhante. Quer experimentar lê-lo depois?'

Sugerir clássicos adaptados para quadrinhos é recomendável para aproximar a turma da literatura?
YOLANDA
Trata-se de uma linguagem diferente do texto original, tal como um livro adaptado para o cinema. Dependendo de quem é o responsável pelo trabalho, o resultado é bom, mas ainda assim há algo único no original: as palavras. Elas descrevem coisas e provocam sensações de modo diferente das imagens. Sobre esse gênero, também acho que não faz sentido indicá-lo para a garotada porque o original é grande demais ou tem um vocabulário complexo. É preferível focar o trabalho em um fragmento. O professor pode planejar a leitura compartilhada a fim de que a turma conheça e entre em contato com a linguagem ou outra característica da história. Outra saída a que muitos alunos recorrem são os resumos. Esse material contém o argumento da história, mas literatura não é só argumento. É linguagem.

Convidar os autores para conversar com o público, a fim de despertar nas pessoas um interesse pela história, é uma alternativa válida?
YOLANDA
Em primeiro lugar, é fundamental ter claro que o mais importante de tudo isso é o livro, a história que ele contém. Depois, é imprescindível compreender que a estratégia de levar o escritor ao encontro das pessoas nem sempre funciona. Acho que a reunião tende a ser mais frutífera quando as pessoas já leram o livro porque elas têm sobre o que conversar com o escritor, podem fazer perguntas, questionar o autor e contar suas impressões. Ainda assim, há que se considerar que, mesmo já conhecendo a obra, o evento pode ser decepcionante: alguns leitores criam uma imagem do autor que nem sempre coincide com a real e há profissionais que são grosseiros, tímidos... No mais, nem sempre é possível encontrar quem criou a história. Conversar com quem não está por perto, mora longe ou não vive mais é uma das coisas que fazem da literatura algo maravilhoso.

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