Os efeitos dos anabolizantes no corpo

Ao discutir os efeitos dos hormônios, os jovens aprendem sobre os músculos

POR:
Fernanda Salla, Laís Semis

Os efeitos dos anabolizantes no corpo. Infografia: Erika Onodera

Os efeitos dos anabolizantes no corpo
Eles variam de acordo com a dosagem, o tempo de uso, a predisposição genética e a faixa etária dos usuários, mas as consequências podem ser físicas e psicológicas


"Um moleque de 15 anos me disse que tomou uma cartela inteira de anabolizante de uma vez para ganhar músculos. Era um remédio usado no tratamento da AIDS", conta Felipe*, 23 anos, que cursa Educação Física. Há dois anos, ele também havia utilizado a substância para se recuperar de uma lesão, já que ela auxilia na regeneração muscular. Como a venda sem receita médica é vetada pelo Conselho Federal de Medicina, conseguiu o produto clandestinamente, com um amigo. A razão da proibição são os efeitos colaterais possíveis para a saúde do usuário (conheça alguns deles no infográfico acima).

Assim como eles, outros jovens recorrem à droga como um atalho para o corpo musculoso ou para a melhoria da performance esportiva. De acordo com um levantamento realizado em 2010 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 1,4% dos alunos de Ensino Fundamental e Médio no Brasil usam ou já experimentaram esteroides anabólicos androgênicos (EAA). Por isso, o assunto não pode ser ignorado nas instituições de ensino. "É importante trabalhar a autoimagem dos estudantes ainda na adolescência e ajudar a quebrar a ditadura estética", diz Marcos Mourão, professor de Educação Física da Escola da Vila, na capital paulista.

Derivados sintéticos do hormônio testosterona, os anabolizantes atuam no crescimento e na divisão de células, resultando em dois tipos de efeitos: anabólicos - que incluem a hipertrofia muscular e o aumento da resistência física - e androgênicos - relacionados ao desenvolvimento de características sexuais masculinas. A possibilidade de aumento de desempenho difundiu o uso entre atletas. Um caso notório ocorreu nos Jogos Olímpicos de Seul, na Coreia do Sul, em 1988, quando o velocista Ben Johnson superou o próprio recorde, se tornando o homem mais rápido do mundo, e acabou pego no exame antidoping.

Corpo definido e capacidade esportiva, porém, não são sinônimos de saúde. "Muitos com esse perfil têm pressão e colesterol altos, além de outras doenças irreversíveis", alerta Nabil Ghorayeb, professor do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, da Universidade de São Paulo (USP).

Mas, se as consequências para o corpo podem ser tão agressivas, por que tantos assumem os riscos? "Vários sites sobre o tema, que vendem a substância na internet, afirmam que ela não causa problemas, e muitos acreditam nisso", atenta Ghorayerb. É o caso de Tiago*, 20 anos, que cursa Educação Física. Admirador do fisiculturismo, ele começou a tomar anabolizantes para melhorar a aparência. "O que mata é o descuido. Para evitar os efeitos colaterais, eu vou ao médico e abro o jogo: ‘Usei EAA e quero checar se está tudo bem’. Mesmo sendo contra, por ser médico, ele me ajuda a conter os efeitos negativos", diz.

A droga é receitada com fins medicinais a pacientes que estejam se recuperando de cirurgias ou tenham condições debilitantes crônicas - como alguns tipos de anemia e insuficiência renal -, podendo ser administrada em comprimido ou injetável. Porém, Christiano Francisco dos Santos, professor da Escola de Saúde e Ciências da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), alerta que nem controlada ela está livre de causar problemas, derrubando a teoria de Tiago. "Se lermos a bula de um paracetamol, por exemplo, vemos que ele pode gerar diversos efeitos colaterais mesmo em doses recomendadas."

Além disso, de acordo com Eduardo Henrique De Rose, médico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), entre os usuários que buscam resultados estéticos e esportivos, a quantidade consumida chega a ser até 100 vezes maior do que a indicação clínica. Há, ainda, o risco de utilizar o produto errado. "Quando se compra no mercado negro, não existe controle sobre o que iremos receber. Pode ser um anabolizante de uso veterinário ou até outra substância qualquer", conta Felipe.

Entender as motivações dos adolescentes para usar a droga e que informações eles têm sobre o assunto são as chaves para o trabalho docente. "Muitos não contam que utilizam EAA por medo de ser recriminados. É preciso ouvi-los e esclarecer as dúvidas sem julgá-los", sugere Felipe. Vale abandonar o discurso moralista e impositivo e se colocar no lugar dos estudantes, planejando situações para que eles consigam compreender os riscos que correm ao optar por esse recurso e as alternativas saudáveis que existem (veja sequência didática).

Na escola, além de apresentar o histórico e as consequências do uso do produto, aulas práticas ajudam os alunos a aprender sobre o funcionamento dos músculos e conhecer treinos voltados a cada finalidade. Assim, eles compreendem que ganhar massa não significa ter mais resistência - a hipertrofia é proporcionada por exercícios de alto impacto e poucas repetições, já a resistência envolve esforço físico de baixa ou média intensidade por mais tempo. Enquanto o tema não for discutido em sala, amigos e a internet continuarão ditando comportamentos e sendo as fontes de informação sobre o assunto para os adolescentes.

* Para preservar a identidade dos estudantes entrevistados, os nomes são fictícios.


Consultoria Eduardo Henrique de Rose, Nabil Ghorayeb, Christiano Francisco dos Santos e Jomar Souza, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.

Alterações de comportamento. Erika Onodera

Alterações de comportamento

A agressividade é uma consequência possível do mau uso de EAA. O velocista sul-africano Oscar Pistorius justificou-se pelo homicídio da namorada atribuindo o ato a algo conhecido como "fúria dos anabolizantes". O mesmo ocorreu com o lutador canadense Chris Benoit, que se suicidou dois dias depois de matar a esposa e o filho.

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