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Jornalismo

Brincadeiras e jogos africanos promovem Educação Antirracista de forma lúdica

Conheça 10 sugestões de atividades para realizar com as turmas dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental durante o ano todo

PorIngrid Yurie

17/11/2022

Ilustração: André Asahida/NOVA ESCOLA

Para as infâncias, o brincar é uma linguagem. Por meio das brincadeiras, as crianças aprendem sobre si, sobre os outros e sobre o mundo. Nessa perspectiva, promover a Educação Antirracista nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, um dos papéis da escola, ancorado na Lei 10.639, também pode acontecer por meio de jogos e brincadeiras africanas.

Ao trazer esse repertório, o educador oferece aos estudantes mais um elemento da cultura infantil que, junto aos brinquedos e à literatura, ajuda a promover a Educação para as Relações Étnico-Raciais, explica Míghian Danae Ferreira Nunes, educadora que integra o Grupo de Pesquisa Sociologia da Infância e Educação Infantil (GEPSI) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação da Universidade Lueji A'Nkonde de Angola (GEPEULAN), ambos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Para Míghian, que é coautora do livro digital gratuito Catálogo de jogos e brincadeiras africanas e afro-brasileiras (Aziza Editora, 2022), esse tipo de proposta também celebra a vida de crianças e adultos negros. “É, ao mesmo tempo, a denúncia do racismo e o anúncio da potência dessas crianças que brincam”, diz.

Para que esse trabalho seja efetivo, no entanto, é essencial que ele faça parte do projeto da escola, aconteça ao longo de todo o ano e toda a trajetória educacional dos estudantes, e não apenas nas celebrações do mês da Consciência Negrabaixe aqui um manual com sugestões para construir uma escola antirracista. A fim de ampliar o repertório de educadoras e educadores para realizar essas atividades, preparamos uma lista com dez jogos e brincadeiras africanas que podem acontecer na escola e em casa, com poucos recursos e mesmo nos espaços mais limitados.

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Na escola, essas propostas divertem a turma, contribuem para o fortalecimento do vínculo entre os alunos e educadores e ainda servem como ponto de articulação de vários saberes. “A partir de uma única brincadeira, é possível conversar sobre seu país de origem, mostrar sua localização no continente africano, contar como ela chegou ao Brasil e influenciou as nossas brincadeiras e explorar as letras das músicas que podem acompanhá-la”, afirma a professora Rosalina de Lázaro, que leciona para o Ensino Fundamental e Médio na EE José dos Santos, em Aspásia (SP).

Além desses conhecimentos, as brincadeiras e jogos africanos também favorecem a integração entre as várias dimensões do sujeito e promovem outras aprendizagens. “A história dos povos africanos foi negada na educação brasileira, como se não contivesse cultura e conhecimento. Então os jogos resgatam essa história rica de forma lúdica e experimental, além de contribuir para a formação cidadã, que visa o coletivo, o público, já que muitos jogos envolvem a cooperação e não a disputa, que é tão incentivada no ocidente”, diz Rosangela Maria Pacheco Chuab, professora na rede municipal do Rio de Janeiro (RJ) e membro do Coletivo de Professores Negros Antirracistas Agbalá.

Experiências práticas

Terra-Mar é um dos jogos favoritos das turmas da professora Rosangela. No chão, ela risca uma linha e escreve “terra” de um lado e “mar” do outro. As crianças enfileiradas prestam atenção ao comando que a educadora vai dar: “Mar, terra, mar!”. O desafio é acertar a sequência e terminar do lado certo da linha.

“Eles gostam muito e querem brincar sempre. É interessante notar que as crianças começam a perceber que precisam ouvir, prestar atenção, e que, quando conseguem fazer isso, passam a acertar mais vezes. Isso é algo difícil de ensinar no cotidiano”, comenta a educadora.

Antes de começar a brincadeira, que tem origem moçambicana, a professora apresentou o país e o continente aos estudantes, fez um paralelo com a brincadeira brasileira Morto-Vivo e discutiu como se deu a influência cultural africana no Brasil.

“Essa contextualização ajuda os estudantes a conhecer outras culturas do mundo. Na escola onde trabalho, a maioria das crianças é negra, então vejo a importância para elas de descobrir sua ancestralidade, e mesmo as brancas também aprendem que existem outros conhecimentos e saberes, o que contribui para a equidade e a valorização das culturas”, diz Rosangela.

E não são só as crianças que se divertem. Em outras oportunidades, a professora convida as famílias para brincarem com os alunos. “Nós fizemos o Jogo do Bastão e todo mundo se divertiu junto.” Rosangela se refere à brincadeira na qual as crianças formam uma roda e cada uma tem de apoiar um bastão no chão verticalmente. O objetivo é pegar o bastão do colega à direita sem deixar cair e, ao mesmo tempo, tentar manter a própria vara equilibrada para que o colega também consiga pegá-la. “Essa brincadeira é colaborativa e traz o princípio da filosofia ubuntu: só sou feliz se o outro é feliz comigo”, afirma Rosangela.

Para a professora Rosalina, essas brincadeiras também ajudaram no retorno presencial à escola. “Os estudantes estavam mais arredios ao fazer trabalhos em grupo, e isso ajudou muito”, conta. Em suas propostas pedagógicas, ela aproveita as brincadeiras dançantes para ouvir as músicas em dialetos africanos com a turma. Depois, estudam a tradução, aprendem a cantar e dançar e, então, realizam a brincadeira.

Enquanto os alunos brincam, a professora conta curiosidades sobre o país de origem do jogo, falando sobre os reis e rainhas, cientistas e engenheiros daquele local, para mostrar quem eram os escravizados antes de serem trazidos à força para o Brasil. “Isso melhora demais a autoestima dos estudantes negros e o interesse por saber mais sobre sua ancestralidade”, explica Rosalina, que também nota que esses jogos desenvolvem raciocínio lógico, autonomia e habilidades motoras e de comunicação.

 

Orientações pedagógicas para trabalhar com jogos e brincadeiras africanas

Incluir essas propostas lúdicas no trabalho pedagógico começa pelo planejamento. A dica das especialistas é encontrar pontes entre o currículo e as habilidades que as brincadeiras e jogos podem estimular nos estudantes, bem como as oportunidades de tematização que seu contexto histórico e cultural oferece.

“Uma brincadeira pode enriquecer o planejamento mais do que se pode esperar, porque ela permite trabalhar várias questões do currículo juntas, de forma prazerosa, menos bancária. Mas isso depende de muito estudo, principalmente porque a maioria dos professores frequentou escolas de brancos, onde os negros não estavam incluídos nem fisicamente nem no currículo”, destaca a professora Rosangela.

Outra dimensão que contribui para um bom planejamento é prever como será feito o registro e a avaliação da experiência, bem como ouvir as próprias crianças, suas famílias e os profissionais negros da instituição. “É [preciso] trazer as vozes dessas pessoas, valorizar a experiência, a produção de conhecimento da população negra que faz parte da comunidade escolar”, orienta Míghian.

Vale, ainda, experimentar o jogo antes de realizá-lo com a turma, prever os materiais e espaços necessários, bem como testar diferentes brincadeiras com as crianças para encontrar aquelas de que mais gostam.

Já em relação ao papel do professor enquanto a brincadeira acontece, as educadoras orientam a observação e a mediação das interações e das vivências, deixando que o grupo conduza a atividade mais livremente. “Mas eu geralmente estou brincando junto com eles”, graceja Rosangela.

Essa leveza não é banal. Ao realizar esse tipo de proposta, corre-se o risco de escolarizar as brincadeiras, sobretudo no contexto do Ensino Fundamental, em que há mais conteúdos curriculares e momentos para reflexão e menos brincar. “É preciso cuidado para não tornar a brincadeira uma ferramenta pedagógica o tempo inteiro. Garantir espaços no planejamento para brincar o ano todo, estimular que brinquem em casa e trazer as famílias para uma atividade pode ajudar nisso”, orienta Míghian.

Ao final de uma proposta lúdica, a professora Rosalina reúne as crianças e pergunta o que elas aprenderam com a vivência. Alguns estudantes, mais desinibidos, permitem que a educadora registre o relato em vídeo, que depois é divulgado para as famílias e serve como registro e avaliação da vivência. “Eles contam o que a brincadeira mobilizou neles de capacidade física e emocional. Costumam citar empatia, respeito e trabalho em grupo”, relata Rosalina.

Observar o comportamento das crianças, suas dúvidas e descobertas e como partilham a liderança também pode render anotações individuais posteriormente. “É trabalhoso, mas vale a pena, porque permite olhar para o desenvolvimento global de cada um ao longo do ano”, afirma Míghian.

Se for o caso de avaliar por rubricas, os critérios devem ser definidos coletivamente, levando em consideração os objetivos do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, diz Míghian, para quem, ainda assim, vale a pena garantir um espaço para incluir outras anotações específicas do educador.

Nesse momento de avaliação, Rosangela reinsere no planejamento as brincadeiras de que os estudantes mais gostaram. As que não chamaram tanta atenção, a professora reavalia, refletindo se foram bem encaminhadas ou adequadas à faixa etária.

“Em geral, as crianças são muito acolhedoras com novas experiências e conhecimentos. Já encontrei mais dificuldade com outros professores e gestores, que não veem intencionalidade pedagógica e sentido nessas brincadeiras. Só quem já sofreu racismo ou se sentiu prejudicado no currículo sabe. Mas todos nós temos a responsabilidade de tornar o currículo inclusivo e fazer valer a Lei 10.639”, convoca Rosangela.

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