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Jornalismo

Como contribuir com a formação de leitores nos Anos Finais do Fundamental?

É importante ouvir os interesses dos alunos, abrir espaço para debates e reflexões e colocar as obras em diálogo com a realidade dos estudantes

PorCamila Cecílio

10/11/2022

Foto: Getty Images

A primeira vez que a professora Michelli Marchi Oss-Emer teve contato com um livro foi aos três anos de idade. Ela ouvia atentamente sua bisavó, que lia para ela a história dos milagres de Nossa Senhora de Fátima. No ano seguinte, a menina ganhou da madrinha, que era professora, uma coleção de fábulas. “Eu ainda nem sabia ler, mas vivia com aqueles livros para cima e para baixo”, conta. “Como vim de uma família humilde, que não tinha o hábito da leitura, aquelas eram as únicas obras às quais eu tinha acesso na época. Anos depois, na escola, a nossa biblioteca era apenas uma prateleira com a série Vagalume, e eu ia relendo todos porque era só o que tinha”, lembra.
Com o passar do tempo, a paixão pela literatura continuou crescendo. Michelli, atualmente com 36 anos, se formou em Letras e se especializou em Gestão de Bibliotecas Escolares pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, atua como docente de Língua Portuguesa dos Anos Finais do Ensino Fundamental na EBM Paulina Wagner, em Blumenau, e na EEF Clara Donner, em Timbó, ambas no interior de Santa Catarina. Em 2020, ela foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 com o projeto O podcast na sala de aula: oralidade, escrita e tecnologia.
Mas, mesmo apreciando muito os livros e suas histórias, Michelli tinha dificuldade de inserir o trabalho com a leitura literária nas suas aulas. “Eu incentivava [a leitura] e conversava com os alunos, mas era difícil trabalhar um livro inteiro, especialmente por serem textos mais longos e pela questão do acesso às obras. Por mais que a gente tivesse biblioteca, não contávamos ainda com o PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] Literário, que garantiria obras a todos os alunos. Isso era um entrave”, diz.

Contextualização, discussões e reflexões

Essa realidade começou a mudar em 2019, quando ela fazia mestrado em Letras na UFSC e teve a ideia de desenvolver um projeto literário a partir do livro O menino do dedo verde, clássico infanto-juvenil do escritor francês Maurice Druon. “Em uma das disciplinas do mestrado, nós estudamos alguns critérios de qualidade de uma obra infantojuvenil. Achei esse livro uma ótima escolha por ter também capítulos curtos e algumas ilustrações, adequado para turmas de 6º ano, com as quais trabalhei”, explica.
Com isso, a professora partiu para a prática em sala de aula: primeiro, fez a apresentação do autor, contextualizando a época em que a obra foi escrita. Depois, para motivar a leitura, relacionou o livro com outros textos que dialogam com a história. Como o enredo aborda a temática da guerra, Michelli decidiu mostrar o trailer do filme O menino do pijama listrado — inspirado no livro homônimo, de John Boyne — a fim de ampliar o olhar dos alunos para um dos assuntos tratados. Os primeiros capítulos foram lidos em sala, e depois a professora combinou prazos para que os estudantes lessem e pudessem discutir alguns temas em grupo.
Para ela, a prática de sempre contextualizar algum assunto que aparecia na história e recorrer a materiais complementares foi essencial para engajar a turma, que se envolveu com a trama. Em um trecho da obra, o garoto visita uma cadeia, e esse foi o gancho para falar com os alunos sobre o sistema prisional brasileiro. Com o auxílio de um infográfico, a conversa rendeu um bom debate sobre direitos humanos. Em outra parte da história, o menino conhece uma favela e usa o poder de seu dedo para florir o lugar. Com isso, Michelli propôs uma discussão que partiu de uma reportagem sobre artistas plásticos que fizeram diversas pinturas nas casas de uma comunidade no México, ação que colaborou para melhorar a segurança das pessoas.
“São discussões que acontecem a partir da história, e não cobranças com questionários e fichas de leitura. A proposta é sempre ter conversas sobre algo que surgiu na narrativa, mas que vai mais a fundo em questões que nos fazem refletir, que é uma das coisas que a literatura provoca na gente”, comenta. Para encerrar o trabalho com O menino do dedo verde, as crianças plantaram mudinhas de flores em um vaso e o entregaram para alguém que estava precisando de um gesto de gentileza. Depois, escreveram um depoimento sobre esse momento.

Diferentes práticas de leitura

Com tudo isso, Michelli encontrou algumas maneiras de incentivar e promover a leitura literária junto a seus alunos, mas sabe que esse é um grande desafio para os professores de Língua Portuguesa. Muito disso acontece porque, nos Anos Finais, com os professores especialistas, a literatura acaba perdendo espaço, ao mesmo tempo que os estudantes vão criando seus gostos e interesses. Como, então, aproximar os alunos da leitura?
“A leitura talvez seja, na sociedade contemporânea, a habilidade mais necessária de ser trabalhada na Educação como um todo”, afirma Denise Guilherme, diretora em A Taba, empresa especializada em curadoria de livros infantis e juvenis com foco na formação de leitores. “Somos uma sociedade das palavras e das imagens, e a leitura é uma habilidade fundamental para o exercício pleno da cidadania. Uma pessoa que não sabe ler, e aqui estamos falando da leitura para além da codificação, não cria interpretações, não compreende a linguagem e os mecanismos de um texto escrito, de uma imagem, de uma peça visual. É uma pessoa que vai ter menos criticidade, menos inserção na sociedade de hoje”, argumenta.
A especialista explica que a formação do leitor literário passa primeiro pelo acesso a um acervo de qualidade, isto é, livros que têm um bom trabalho com a linguagem. Mas só ter acesso a um bom acervo não garante a formação do leitor. “Ele precisa passar por diferentes práticas de leitura literária”, reforça Denise, que também é professora no curso de pós-graduação Literatura para Crianças e Jovens, do Instituto Vera Cruz.
Um exemplo dessas práticas é a leitura compartilhada, que é ler e conversar sobre uma mesma obra, dividir interpretações com outros leitores, compartilhar estratégias de leitura e ser capaz de indicar um livro e de estabelecer relação entre os autores lidos e as estruturas narrativas dessas obras. Essas ações também incluem perceber que existem vários tipos de narrador, e que eles trazem diferentes camadas para uma determinada leitura, e entender que há diversos tipos de personagem, além das relações de causa e efeito entre suas ações e o que elas provocam na trama da história.

Formação do leitor literário

Segundo Denise, esses são elementos que compõem a formação de um leitor literário, ou seja, são habilidades e aprendizagens que se espera que um leitor desenvolva. “E isso só é possível diversificando as práticas de leitura literária dentro da escola. Ou seja, não é só ler para responder a perguntas”, destaca. “A gente pode ler para perseguir um autor e identificar os elementos que caracterizam seu estilo; ler livros com diferentes tipos de narradores para perceber diferentes formas de contar uma história – por exemplo, se é um narrador onisciente ou um personagem e quais diferenças isso provoca na narrativa”, cita. “Conversar sobre os diferentes desfechos que aparecem nas histórias, os mecanismos e elementos da linguagem que os autores usam para provocar determinados sentidos no leitor e assim por diante”, completa.
Por outro lado, Denise observa que, especialmente nos Anos Finais, tem sido comum o discurso de que os jovens estão nas redes sociais e que, por isso, não se interessam pela leitura. “Talvez eles não se interessem pela literatura que circula na escola. Mas, se olharmos os perfis dos tiktokers e instagramers, veremos que eles têm um público enorme, justamente o público que os professores muitas vezes tentam atingir na escola, sem sucesso. Então, quando pensamos nos Anos Finais, como formamos leitores e os aproximamos da literatura? Lendo. Muito mais do que falar sobre leitura e literatura, é [necessário] ler junto.”
Ela pondera que é comum que, à medida que os alunos vão ganhando autonomia na leitura e maior proficiência, os professores deixem de lado a leitura compartilhada e assumam que eles são capazes de fazer essas leituras sozinhos. De acordo com ela, esse pode ser um caminho equivocado. “O professor precisa priorizar, como estratégia de formação desses leitores, a leitura compartilhada, conversar sobre a obra, relacioná-la com outros livros conhecidos e usar a linguagem à qual os alunos estão acostumados”, aponta.

Como escolher obras para incentivar a leitura literária?

Confira as dicas da especialista Denise Guilherme

 

Segundo Denise, a primeira coisa a ser considerada é se o livro é bom. “Para isso, pergunte-se: ele me afeta? Mexe comigo? Me mobiliza? Tem uma boa linguagem? Tem um trabalho interessante com a palavra? É um bom modelo de texto literário? Ele se conecta com os temas e interesses que dialogam com os meus alunos?”, propõe.

Ela comenta que, muitas vezes, o professor fica naquela de “eu vou oferecer os clássicos, senão o aluno não vai conhecê-los sem a minha ajuda”  e que, sim, é papel da escola apresentar os clássicos. Mas não só o clássico pelo clássico. “É preciso que a gente coloque essa obra em comparação com outras e consiga justificar o porquê da sua escolha. Quais conteúdos e habilidades da formação do leitor eu gostaria de desenvolver nos meus alunos?”, questiona. “Isso é meio caminho para a gente contagiar, porque a leitura também é contágio.”

Outra dica é ouvir os estudantes. Muitas vezes, os professores fazem a escolha dos livros sem considerar as preferências leitoras dos alunos. “Conhecer os estudantes é um caminho para construir uma ponte entre os desejos e interesses deles e as leituras que vão ser sugeridas pela escola”, afirma Denise.

Aproximando-se do mundo dos jovens

Um primeiro passo para adentrar o universo de interesse dos alunos, de acordo com a especialista, é pesquisar vídeos de youtubers e tiktokers que falam do livro que está sendo trabalhado em sala. Depois, pensar em como transformar essa obra em outro conteúdo que possa dialogar com aquilo com que eles estão acostumados em termos de linguagem, como um vídeo ou um podcast. Criar um clima de confiança também é essencial para que os estudantes possam dizer o que pensam sobre a história. Isso sem que tentem corresponder à expectativa do professor, no sentido de ter uma resposta certa a respeito da interpretação. É importante que eles possam falar livremente sobre o que viram de mais interessante no livro.
Apaixonada por literatura, a professora de Língua Portuguesa Francislene Naves, de 42 anos, tem apostado nesse caminho para engajar mais seus alunos com a leitura. Quando surge a ideia de trabalhar com determinadas obras literárias, ela apresenta duas histórias como se tivesse visto ou vivido os enredos. Em seguida, sem mencionar que está falando de um livro, a professora pergunta aos alunos de qual história eles ficaram mais curiosos para conhecer o final. “Somente depois disso eu apresento o livro e começamos a ler juntos. É uma forma que encontrei de estimular a leitura, e isso tem funcionado bastante. Eles mesmos escolhem a obra que será trabalhada.”
Francislene, que também foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2021, com o trabalho de podcast Fala, Galhardo, tem duas turmas de 9º ano na EE Dr. Disnei Francisco Scornaienchi, em Campinas (SP). Da última vez que usou essa estratégia, ela contou um pouco sobre as histórias de Capitu e Bentinho, de Dom Casmurro, de Machado de Assis, e de Jean Valjean, personagem principal de Os Miseráveis, do francês Victor Hugo. Cada turma escolheu uma história, e as leituras seguiram compartilhadas, com discussões em sala.
Para estimular ainda mais os estudantes, ela decidiu fazer uma “pizza literária”. “Tenho vários alunos que gostam de desenhar, então sugeri que eles pegassem caixas de pizza e as decorassem com frases do livro ou algo que chamou a atenção deles enquanto liam a obra. A ideia era que a pessoa que fosse ‘degustar’ a história pegasse aqueles ‘pedaços’ e compartilhasse com os outros, que teriam de descobrir que momento era aquele na história”, conta a professora. “É como se fosse um jogo, cujo objetivo era instigar o aluno a conhecer a história a partir de trechos escritos nas caixas de pizza. O resultado foi muito legal.”

Diálogo com outros conteúdos culturais

Outra atividade interessante realizada por Francislene durante o ensino remoto foi com a obra E não sobrou nenhum, da escritora britânica Agatha Christie, conhecida por seus romances policiais e de suspense. Para incentivar os alunos a ler o livro, a professora elaborou, com a ajuda de estudantes de Letras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que participaram de suas aulas, alguns enigmas, com pistas e muito mistério no projeto chamado Detetives Literários. Só depois disso, a obra foi apresentada e disponibilizada em PDF. “Conseguimos cativá-los, e foi muito interessante porque todos leram e adoraram”, recorda.
Exemplos como esse mostram que as possibilidades para envolver os estudantes com a leitura literária são diversas. Denise Guilherme ressalta que vale a pena, por exemplo, criar playlists musicais para serem ouvidas a partir da escolha do livro. Outra sugestão é pensar em mídias que podem dialogar com a obra, como vídeos e filmes, e que outras linguagens fazem ponte com o autor e a temática do livro. “O caminho é conversar muito sobre a obra, sobre a linguagem, relacionando-a com a vida e o repertório deles. E também sair do livro em si para pensar de que maneira a obra dialoga com outros conteúdos culturais que esses jovens já consomem e que podem ampliar a experiência da leitura.”
Ela cita como exemplo o livro Dragão, da editora WMF, que é uma novela indicada para jovens de 11 a 14 anos, com uma narrativa e linguagem visual interessantes para a faixa etária. “A temática está muito presente nas séries de streaming. Então, o professor pode pedir aos alunos que pesquisem a mitologia do dragão, vejam quais outras obras dialogam com aquele personagem e conheçam quem está falando sobre o livro nas redes, ou que produzam resenhas em vídeo, em 30 segundos, como os tiktokers fazem”, sugere.
A professora Michelli destaca outra prática que tem funcionado com seus alunos: o diário de leitura, um caderno onde eles podem anotar o que leram, as dúvidas, os sentimentos em relação àquilo, copiar frases das quais gostaram e fazer desenhos. “Percebo que os alunos conseguem ‘digerir’ melhor a obra quando fazem esse processo de escrita no diário. Ela acaba propondo reflexões que, em uma leitura sem registro, poderiam passar despercebidas. É uma forma de ler e pensar sobre o que se leu”, explica. “Além disso, há estudantes que são mais tímidos. Com o diário, consigo acompanhar as ideias e opiniões de todos, além de perceber se há alguma dificuldade de compreensão. Isso permite intervir a tempo para que esse aluno não desanime e desista da leitura porque não está conseguindo entender [o livro].”

Diário de leitura

O material a seguir pode ser compartilhado com os alunos para que o preencham de forma digital, ou você, professor, pode imprimir quantas cópias forem necessárias e distribuir aos alunos.

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O professor também deve ser um leitor

A professora Michelli observa também a força do exemplo. “Meus alunos brincam que eu sou ‘a louca dos livros’ porque sempre carrego uma sacola com algumas obras. Às vezes, estou na biblioteca e pego um livro na mão, sem pretensão, e observo que algum aluno depois vai lá e pega um livro também. O professor tem de ser leitor e fazer essas intervenções o tempo todo”, ressalta. “Eu também acredito que, para formar leitores literários, é fundamental que o professor seja também um leitor assíduo, sempre em busca de algo novo”, completa Francislene.
Denise enfatiza que o professor que deseja formar leitores também precisa se formar como leitor. Na prática, isso significa procurar livros, fazer parte de clubes e grupos de leitura e estar a todo o momento lendo com outras pessoas. “Tem professor que acha que leu na faculdade, estudou, e depois só leu os livros que trabalha com os alunos, e a própria leitura não faz parte da experiência de vida dele. Um bom professor de leitura tem de estar a todo momento se banhando de experiências de leitura. Ou seja, criando condições para que ele mesmo possa ir se formando como leitor.”

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