Compartilhe:

Jornalismo

Tarefa de casa: como fazer de forma significativa?

Quando planejada com intencionalidade pedagógica, atividade para casa pode aproximar as famílias da escola e funcionar como uma avaliação formativa

PorIngrid Yurie

27/10/2022

Crédito: Getty Images

A tarefa de casa, embora muito enraizada na Educação, pode ser um desafio para algumas escolas. Por um lado, muitos estudantes não fazem a atividade e, por outro, não é incomum a proposta se tornar mecânica, pouco agregando ao aprendizado da turma para além do que foi visto em sala. No entanto, quando atrelada ao projeto da escola e planejada com intencionalidade pedagógica, a atividade passa a ser significativa para estudantes e professores, além de uma aliada importante para a recomposição das aprendizagens.

Para tanto,  o primeiro passo dessa jornada está em discutir com a comunidade escolar quais são as funções da tarefa de casa diante da proposta pedagógica da unidade. As teorias educacionais mais contemporâneas e críticas em torno do tema consideram realizá-la como uma metodologia ativa de sala de aula invertida. Isto é, um momento para fortalecer a autonomia dos estudantes, tanto em organizar tempos e espaços, quanto em aprender a estudar. Deixando, assim, o momento da aula dedicado às interações e trocas com o professor e os colegas.

"Isso permite à criança ter mais compromisso com a própria aprendizagem, a entender seus avanços e dúvidas e, com isso, se posicionar durante a aula", afirma Angela Luiz Lopes, coordenadora pedagógica na Comunidade Educativa CEDAC.

Como se trata de um projeto da escola, isso precisa ser firmado no coletivo, o que também ajuda os professores a planejarem como aumentar esse desafio ao longo dos anos, ampliando o tempo de duração da atividade e a autonomia do estudante. Além disso, auxilia a entender em quais contextos a proposta faz sentido. "Se as crianças têm jornada escolar estendida, mandar tarefas de casa pode sobrecarregá-las", exemplifica Luciane Maria Schlindwein, professora no curso de Pedagogia e no programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Tais debates precisam, ainda, envolver a família, combinando a regularidade e o papel que ela terá, o que aproxima pais, mães ou responsáveis das propostas pedagógicas, facilita com que a criança se organize e evita situações em que os irmãos mais velhos ou adultos realizam a tarefa pela criança. "É função da escola conscientizar a família sobre a importância da atividade para os estudantes", reforça Angela.

Atividade de casa no contexto das aulas

Na turma de 1° ano do Ensino Fundamental da professora Andréia Jaqueline Renta, da rede municipal de Jaraguá do Sul (SC), quando aparece uma letra de adulto no caderno, as crianças já sabem: terão de refazer o exercício. "Elas aprendem sobre combinados, as consequências de não cumpri-los e ajudam a evitar esse tipo de situação", conta Andréia. 

Individualmente, cada professor precisa olhar para a questão da tarefa de casa em seu planejamento a fim de estabelecer qual será o objetivo da atividade em função do que está sendo trabalhado em sala de aula ou do que será abordado no futuro, a periodicidade, o papel do estudante e da família no momento de sua realização e como ela será retomada posteriormente.

"É importante que essa tarefa tenha sentido para a criança realizá-la fora da escola, que mobilize o interesse em descobrir novas coisas, de ter espírito investigativo, curioso, criativo, atento às coisas que acontecem em seu dia a dia, principalmente, pensando que até os 12 anos ela está vivendo sua infância, período no qual as brincadeiras e as artes são fundamentais e devem fazer parte da aprendizagem", lembra Luciane. 

Estratégia pode auxiliar turmas heterogêneas

Além de terem significado para os estudantes, as propostas para serem realizadas em casa também precisam ter sentido para os educadores. Na prática da professora Andréia, que todos os dias passa para a turma atividades a serem concluídas em no máximo 15 minutos, elas servem como uma avaliação formativa diária e indicam como continuar o processo de ensino e aprendizagem no dia seguinte, de acordo com as demandas da turma.

Esse olhar ágil para o processo e próximo do indivíduo e da coletividade abre outra possibilidade: as tarefas de casa personalizadas. "Não é propor uma tarefa para cada estudante, mas identificar agrupamentos de acordo com os diferentes níveis de conhecimento da turma e ter duas ou três possibilidades de atividades diferentes", explica Angela. 

Em salas com pronunciada heterogeneidade de desenvolvimento, que se tornaram mais comuns após a pandemia, essa pode ser uma estratégia especialmente interessante porque apoia grupos de estudantes a concentrar esforços para avançar nos pontos específicos em que têm mais dificuldades. 

"No dia seguinte (à atividade de casa), experimente propor que as crianças compartilhem os exercícios feitos para trocarem conhecimento, mostrarem como cada um resolveu e pensou e, assim, estimular que eles aprendam uns com os outros", aconselha Angela. 

Lição ou tarefa de casa? Qual é o melhor nome? 

Trabalho e dever são palavras que podem carregar uma ideia de algo imposto e acabar desestimulando os alunos. Porém, mais do que isso, a escolha do termo precisa estar alinhada com o planejamento da comunidade escolar

Existem muitos jeitos de se chamar as propostas pedagógicas que os estudantes levam para casa: dever, lição, atividade e tarefa de casa estão entre os mais comuns.

Pedagogicamente, os termos "atividade" e "tarefa" são mais contemporâneos e podem ajudar a desvincular a ideia de disciplina imposta que as palavras "dever" ou "lição" carregam.

Independentemente da escolha, porém, vale debater com a comunidade escolar o termo que será utilizado. Essa é uma forma de começar a discutir o sentido de tais atividades, bem como reforçar sua conexão com o trabalho realizado na escola e não como algo apartado.

Como propor boas tarefas de casa?

Uma boa atividade para ser realizada em casa começa com a participação das próprias crianças em sua formulação. "A professora precisa escutar os estudantes para saber de seus interesses, dos formatos mais atrativos e como é a realidade fora da escola. Assim, é possível criar uma conexão mais efetiva entre os objetivos educacionais e o que a turma gosta", explica Luciane. 

Manter uma periodicidade das atividades combinada com as famílias e os estudantes também é importante, já que facilita a inserção na rotina de casa e estimula o hábito de estudar. É necessário, ainda, promover propostas que as crianças consigam realizar com o máximo de autonomia. E atenção à duração da atividade para não desestimular a turma. Quando muitas tarefas chegam incompletas, por exemplo, pode ser um sinal de que a proposta está demasiadamente longa. 

"Se for uma possibilidade, é bacana propor pesquisas na internet ou pequenos vídeos que tenham relação com o que vem sendo discutido em sala, porque as crianças já gostam muito de ficar conectadas", diz Luciane.

A coordenadora pedagógica Angela ressalta, ainda, que a própria tarefa de casa precisa ser um conteúdo de ensino. "Não podemos tomar por garantido que as crianças vão saber o que fazer e organizar um tempo e espaço para realizá-la. Por isso, o professor precisa evidenciar esses procedimentos no dia a dia de sala de aula e assegurar regularidade", explica Angela.

Já em relação aos objetivos das propostas para casa, eles  podem variar. É possível aproveitar as tarefas fora do horário escolar para introduzir um tema, ampliar algo iniciado em sala, rever e consolidar conhecimentos que serão avaliados em uma prova, ou para ensaiar algo que será feito no dia seguinte.

"Ler um conto para um adulto da família pode ser uma tarefa de casa que serve para colocar a leitura no lugar de uso social e preparar o estudante para ler para os colegas e a professora em voz alta no dia seguinte", exemplifica Angela. 

Critérios e planejamento

A professora Érika Lança Lemes Brasil, que leciona para o 1° ano do Ensino Fundamental na escola municipal João Fernandes de Andrade, em Salto de Pirapora (SP), costuma aproveitar as atividades para casa para promover dois objetivos principais: consolidar aprendizagens e aproximar as famílias do trabalho pedagógico.

Como suas propostas em sala costumam ser bastante lúdicas e práticas, a tarefa de casa acontece uma vez por semana, sempre no momento de finalização de um conteúdo, e é realizada em um caderno específico. "As famílias não conseguem ter contato com o que a criança está trabalhando no momento, porque as atividades são diferenciadas, então esse caderno serve para consolidar algo que aprendemos no período e como um roteiro para a família acompanhar a aprendizagem", conta a educadora.

Na semana em que a professora conversou com a Nova Escola, por exemplo, a turma estava aprendendo sobre o CH. Uma das atividades em sala foi montar pequenos sanduíches feitos de pão, salada, carne e queijo de EVA enquanto conversam sobre as palavras e seus sons. Ao final da montagem, a professora perguntou para a turma o que tem no meio do sanduíche. "A resposta é o CH!", brinca a educadora, que depois entregou o CH em EVA para a turma colocar no meio. Para casa, levaram uma atividade de escrita de palavras com o objetivo de aplicar e fixar o que foi visto em sala.

Além deste tipo de tarefa de casa, a professora também costuma propor atividades lúdicas, com o objetivo de propiciar momentos de qualidade entre crianças e adultos, como a construção de uma marionete, feita após a leitura em sala do livro Pinóquio. "A família tem que estar envolvida na vida da escola, isso é muito importante para as crianças", diz Érika.

Já a professora Andréia Jaqueline Renta, que leciona para o 1° ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal de Educação Básica Anna Töwe Nagel, em Jaraguá do Sul (SC), as tarefas são enviadas para casa de segunda a quinta-feira, com previsão de que durem no máximo 15 minutos para serem realizadas. Em sextas-feiras combinadas com a família, as crianças levam um livro para ler com os adultos durante o final de semana. 

"Meu critério de planejamento das tarefas de casa envolve enviar atividades que trabalhem as habilidades da BNCC que são mais importantes e precisam de mais tempo para consolidação, como leitura e escrita", explica.

Para não tornar as propostas repetitivas e mecânicas, a educadora sempre planeja diferentes brincadeiras, como pesquisar objetos dentro de casa com uma determinada letra. "Não pode ser mais do que já vimos em sala e nem sempre do mesmo jeito, porque fica cansativo", reafirma Andréia. 

A importância do pós-tarefa

Tão importante quanto propor boas tarefas de casa, é retomá-las em um momento seguinte na sala de aula de forma contextualizada. Correções mecânicas ou apenas checar se a atividade foi feita não garantem aprendizado e desmotivam a turma.  

"Da próxima vez, a criança vai pensar que não faz diferença ela fazer ou não. Então, é preciso que ela veja sentido nessa tarefa para ela continuar aprendendo o que está sendo trabalhado em sala de aula, porque percebe que quando não faz, perde uma discussão, por exemplo", afirma Angela. 

Na rotina da turma da professora Andréia, retomar a tarefa de casa é o ponto de partida do trabalho de todos os dias. "É uma forma de valorizar o esforço e a dedicação deles e percebo que esse reconhecimento faz diferença no comprometimento que eles têm com a atividade", relata.

Para além desse incentivo, a tarefa de casa é uma bússola para a professora decidir por onde continuar o conteúdo a partir das dúvidas da turma e identificar o que eles já conseguem fazer com mais autonomia. 

Parte importante da etapa de retomar a atividade de casa nas aulas é compartilhar o processo com os colegas, para promover a interação e para que eles percebam diferentes argumentos, formas de pensar e resolver problemas. 

Uma das atividades que a professora Andréia propôs e rendeu muita conversa entre a turma foi uma pesquisa em casa dos materiais que compunham diferentes brinquedos. Eles tinham que selecionar quatro brinquedos, desenhá-los, escrever seus nomes e pesquisar do que eram feitos os materiais com a ajuda da família. 

"Foi muito bacana quando voltaram para sala e compartilharam com os colegas, porque se engajaram na conversa e conseguiram se expressar, praticar a oralidade e ainda discutir os diferentes materiais", relembra a educadora.

Veja mais sobre:

Últimas notícias