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Jornalismo

Educação Antirracista: como trabalhar o tema na Educação Infantil

Educadoras destacam a importância de abordar as relações étnico-raciais desde a primeira infância e indicam possibilidades de propostas e projetos

PorVictor Santos

10/10/2022

A professora Geisa das Neves Giraldez com sua turma na Creche Municipal Direitos Humanos, localizada no Morro do Escondidinho, no Rio de Janeiro (RJ). Foto: Bárbara Dias/NOVA ESCOLA 

Com mais de 20 anos de experiência na Educação Infantil, Vera Lúcia Luiz, professora do CEI Margarida Maria Alves, em Campinas (SP), relata que em alguns momentos surge um certo estranhamento quando ela comenta a questão racial na perspectiva dos bebês e crianças.

“Muita gente me pergunta: ‘Mas, Vera, no berçário existe racismo? Os pequenos já demonstram algumas atitudes racistas?’. E eu respondo que sim, por exemplo, quando priorizam a boneca de uma cor em detrimento de outra. Muitos se surpreendem, mas coisas desse tipo ocorrem porque estamos em uma sociedade racista.”

Como explica a pedagoga Sheila Perina de Souza, cofundadora do Coletivo Luderê Afro Lúdico, voltado à arte-educação via literatura e brincadeiras africanas e afro-brasileiras, desde os primeiros anos de vida as crianças brasileiras negras e brancas são expostas a modelos de padrão estético e mesmo de inteligência fundamentados em um eurocentrismo.

“Então, se não houver um trabalho cuidadoso no campo das relações étnico-raciais, as práticas em sala tendem a reproduzir esse modelo, inclusive durante o brincar e o cuidar, que são fundamentais nessa etapa”, aponta ela, também mestre e doutoranda pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Ela ressalta que esse eurocentrismo leva ainda a outro risco. “Na pesquisa que deu origem ao livro Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na Educação Infantil [Editora Contexto, 2012], a professora Eliane dos Santos Cavalleiro demonstra, por exemplo, que as crianças menos tocadas em termos de afeto são as crianças negras.”

Para Geisa das Neves Giraldez, pedagoga e mestra em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é crucial ensinar todo mundo a viver junto a partir das diferenças.

“A primeira coisa importante é pensar como o racismo se dá: ele nos faz pensar que certo grupo (pessoas negras) é menos humano, como vemos nesses dados de que são as crianças menos tocadas”, afirma. “Então, muitas vezes, até com boa intenção, professores na Educação Infantil colocam que ‘todo mundo é igual’. Mas não, todo mundo é diferente, e essa diferença pode ser celebrada – desde que se ensinem as múltiplas perspectivas que temos no mundo, os muitos jeitos de estar e ser.”

“A própria palavra ‘antirracista’ me causa um certo desconforto, porque pressupõe ser ‘anti’, ser responsivo, e não quero ficar apenas nisso”, prossegue Geisa, que atua nas escolas Creche Municipal Direitos Humanos e Zélia Gattai Amado, ambas na rede municipal do Rio de Janeiro (RJ).

“Prefiro o termo Educação para as relações étnico-raciais porque, como professora e mulher negra, busco sempre retratar a negritude de forma positiva, com a minha presença e pelas referências que levo à sala”, diz.

“Afirmar nossas singularidades, fenótipo, cor da pele, cabelo, tipo de música, enfim, isso também é ser contra o racismo, já que estamos enfatizando uma existência negada pela hegemonia – justamente em uma etapa na qual eles são pequenininhos e estão se constituindo como pessoas.”

Formação, planejamento e materiais

Segundo a professora Vera, o trabalho do educador antirracista começa quando ele reconhece que esse problema existe em nossa sociedade. “Afinal, como vai combater algo em que não acredita?”, salienta.

Ela reforça que a capacitação dos professores na temática é apenas o ponto de partida para esse trabalho, que envolve reflexões e atitudes posteriores. “Tudo porque não basta só a formação: o momento seguinte é o de rever a própria postura e o material, uma questão de alteridade mesmo.”

Assim, conforme a professora, ao se colocar no lugar dos pequenos, vale pensar: “Será que a minha prática pedagógica agrada a essa criança negra? Ela se vê no material que utilizo, como os livros e vídeos que estou passando? É preciso pensar em todas as coisas que estão postas e lembrar que secretarias de Educação e unidades escolares têm verba para aquisição de materiais como bonecas negras e lápis e giz que contemplem diferentes tonalidades de pele.”

A educadora Geisa complementa esse raciocínio realçando que o professor da Educação Infantil possui uma função de curador em seu contexto. “Todos esses materiais – brinquedos e bonecos, livros literários – precisam ser pensados e organizados de forma a atender a diversidade do grupo para que as crianças negras se reconheçam e para que as brancas vejam que existem outros modos de estar no mundo além do delas mesmas”, comenta.

“Por exemplo, no trabalho com recorte, prefiro selecionar revistas semanais, que são mais populares e plurais, do que levar uma revista de moda. A chamadinha com os nomes [lista com os nomes dos alunos afixada na parede da sala de aula] precisa incluir figuras diversas, e os próprios jogos devem apresentar personagens que gerem a identificação de todas as crianças.”

Em seu projeto que aborda as regiões do Brasil, a educadora Geisa contempla diferentes personalidades. Na foto, seu conterrâneo carioca Pixinguinha, que rendeu propostas muito ricas em sala. Foto: Bárbara Dias/NOVA ESCOLA

Em relação às bonecas, as professoras enfatizam alguns detalhes importantes. “Muitas vezes, as bonecas negras ficam lá nos baús, e as pessoas falam: ‘Nossa, compramos e ficaram abandonadas, ninguém brinca com elas’”. Mas aí a gente precisa primeiro pensar: como essas bonecas negras estão? Elas estão, por exemplo, vestidas, assim como as bonecas brancas?”, questiona Vera.

“Feito isso, se elas não vão ao colo das crianças, cabe a mim, como educadora, ter intencionalidade pedagógica com essa boneca. Dizer: ‘Olha, ela é minha filha, é nossa amiga, por que será que ninguém quer pegar?’. Porque a Educação Infantil é o jogo simbólico da representatividade, da brincadeira, é preciso chamar a criança para aquela boneca.”

Para Sheila, que também é autora do livro As brincadeiras africanas de Weza (Editora Kitembo, 2021), a literatura é outro ponto fundamental. “Atualmente, temos muitas obras com personagens negras, mas esses livros precisam trazer os personagens de uma perspectiva e uma narrativa positivas. Por isso gosto muito da autora Sonia Rosa, com a sua ‘literatura infantil negroafetiva’”, indica.

“É interessante reforçar que esses livros podem ou não tratar a questão racial – e é crucial mostrar pessoas negras em diferentes contextos.”

Sheila também alerta que os pequenos precisam se ver para além da sala de aula. “Projeções visuais são fundamentais. É preciso observar: quais referências usamos nas placas e murais da escola? De que maneira pessoas negras aparecem e são representadas? Tudo isso ajuda crianças negras e brancas a construir imagens sobre o que é o negro.”

Projetos na prática e o apoio das famílias

As três entrevistadas frisam que o cerne de qualquer projeto na Educação Infantil deve se pautar no protagonismo das crianças no processo de aprendizagem.

“As práticas mais efetivas partem da escuta das próprias crianças, ao colocar a visão de mundo delas no centro, saindo de um certo ‘adultocentrismo’”, explica Geisa. Ela dá um exemplo de projeto que surgiu dessa maneira. “Um dia eu estava descendo com a turma para o refeitório, e estava chuviscando. Então, um dos meninos falou: ‘A chuva ‘tá’ cansada, ‘tá’ caindo devagarinho’. Para mim, isso é poesia [risos]! Começamos um projeto com poemas a respeito do que eles pensavam sobre o mundo, espalhando-os posteriormente em lambe-lambes pela comunidade.”

Na mesma linha, a professora Vera discorre que a Educação Infantil possui, de fato, um conteúdo programático a ser trabalhado, mas há muitos projetos que partem das situações do cotidiano. Nesse caso, podem ser disparadores tanto falas e interesses dos pequenos quanto circunstâncias mais complexas que eventualmente despontam no dia a dia.

“Por exemplo, já houve uma situação em que uma criança branca se referiu ao cabelo de outra como ‘feio’. Professores que não foram preparados para uma Educação Antirracista poderiam dizer ‘esquece isso’, mas por aqui fizemos uma intervenção”, relata.

“Para entender que todos os cabelos são bonitos e têm sua especificidade, trouxemos uma mãe aqui do bairro que é trancista. Ela até fechou o salão no dia, e, junto com sua equipe, fizeram tranças nas meninas e penteados nos meninos.”

Esse caso relembrado por Vera é ilustrativo de dois elementos-chave da Educação para as relações étnico-raciais. O primeiro deles é a própria questão do cabelo. A educadora Sheila conta que visitou 32 escolas públicas de diferentes regiões de São Paulo (SP), em uma consultoria que prestou para a prefeitura e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

“Um dos casos que ouvi foi que uma suspeita de piolho em uma turma começou com um menino com cabelo black – justamente porque o racismo traz essa ideia do cabelo crespo relacionado a descuido, e meninos e homens negros têm o cabelo raspado para passar a impressão de limpos e bem cuidados”, descreve.

“Eu mesma lembro que minha mãe prendia meu cabelo em um coque, e as minhas professoras diziam que não iam mexer porque não sabiam cuidar. Elas não percebiam, mas ali era um momento em que eu não recebia afeto.”

O segundo elemento simbolizado no relato de Vera é o papel e o valor da presença das famílias nos espaços escolares. “Por aqui, já tivemos uma mãe ensinando remédio para piolhos com boldo”, comenta a professora Geisa. “Conversar com as famílias e ouvir pessoas pretas que compõem a comunidade é também trabalhar relações étnico-raciais. Inclusive, a gente fala família, mas é uma maioria esmagadora de mães, é muito feminino. Elas estão ali todos os dias e sabem muitas coisas.”

Um “desenhema” (desenho de um poema) em uma proposta sobre a região Centro-Oeste. Durante a sessão de fotos da NOVA ESCOLA na creche, um barulho de granada e tiros causou susto e alguns contratempos no trabalho da professora Geisa. “Quando digo que todo o dia é dia de a gente ser, é justamente por isso: esse contexto que vivenciamos enquanto tirávamos as fotos é também uma das faces do racismo. E as práticas de Educação para as relações étnico-raciais são uma resistência e uma insistência cotidiana, buscando atravessar o currículo com experiências negras positivas todos os dias.” Foto: Bárbara Dias/NOVA ESCOLA

 

Questões étnico-raciais permeando diferentes propostas

Um dos caminhos possíveis a ser explorado com os pequenos, segundo as educadoras entrevistadas, diz respeito a um olhar diferenciado para o continente africano, valorizando suas nuances, especificidades e potências e articulando tudo isso com o conteúdo. Essa representatividade deve vir de forma positiva para que as crianças se sintam confortáveis com a sua identidade.

“Recentemente, apresentei a brincadeira terra/mar, que tem origem em Moçambique, e procuramos onde esse país ficava no globo, contextualizando que a África é um continente e pesquisando imagens de prédios, escolas e penteados locais”, conta Vera. “O mesmo com Angola: estive em Luanda e trouxe para eles o dinheiro local e o tecido da capulana, para verem e manusearem, além de mostrar fotos como as do pôr do sol. Tudo isso ajuda a desmistificar estereótipos como os da ‘África miserável’ ou mesmo dos safáris.”

Ainda de acordo com Vera, outro elemento interessante são os griôs da cultura africana, que basicamente eram contadores de história em um contexto muito baseado na oralidade – tópico que, inclusive, precisa ser estimulado na Educação Infantil.

Ela prossegue: “Então, peço que a criança escute uma história familiar em casa, que também é registrada por escrito pelos pais e mães. Depois, na escola, ela nos conta tudo, como um griô transmitindo uma narrativa, e eu fico ali, com o registro escrito feito pelos familiares, lembrando algum eventual ponto que ela esqueceu ao narrar.”

Segundo a profissional, vale ter em mente que é possível incluir as questões étnico-raciais em qualquer tipo de projeto na Educação Infantil, não só em ações estritamente relacionadas a países e ao continente africano. “Se a temática for meio ambiente, por exemplo, dá para abordar como a cultura indígena e a africana o tratam como preservação da vida e da cultura.”

A professora Geisa também sublinha essa concepção de conduzir iniciativas que não necessariamente estejam em um guarda-chuva de “africanidades”. “Adoro me desafiar – vou inventando coisas junto com as crianças. Gosto muito do que chamo de ‘desenhema’, desenho de um poema, em que posso trabalhar diferentes temáticas. Comecei anos atrás com um livro de poemas infantis do qual a turma gostou muito, mas notei que não tinha textos de poetas negros”, lembra ela, que passou então a levar artistas como MC Poze e Emicida – deste último, especialmente a música Casa.

“Nela, focamos o verso ‘O céu é meu pai, a terra, mamãe/ E o mundo inteiro é tipo a minha casa’. E aí vamos pesquisando juntos: apresento o Emicida – as crianças podem reconhecê-lo como alguém parecido com uma pessoa próxima da família –, conto a história dele e o lugar onde nasceu, mostro o mapa de São Paulo, e vamos também pesquisando lugares do mundo. Fazemos um mapa cheio de imagens de casas, e cada criança escolhe seu lugar para estar – ‘junto com a foca’, ‘debaixo do arco-íris’, ‘na neve’, ‘no lugar onde o Emicida nasceu’. Não há fronteira para o sonho, e vamos construindo tudo com o lúdico, a arte, a Geografia, enfim, vários conhecimentos e experiências vão se entrelaçando.”

Explorando a riqueza cultural brasileira

Com seu projeto atual, que olha para as regiões do Brasil, Geisa indica que tem conseguido permear múltiplas possibilidades.

“Comecei pela região onde estamos, Sudeste, e falei aqui do Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro (RJ). Primeiro, eu trouxe o Pixinguinha (1897-1973), que nasceu aqui perto, no bairro do Catumbi. Contei a trajetória dessa personalidade negra de um jeito envolvente, que ele ficava escondido atrás da escada para ouvir músicas dos saraus, e fechamos cantando Carinhoso”, relata. Já em São Paulo, o foco foi o grafite da artista Crica Monteiro, e a turma fez uma releitura da obra dela no muro da escola. Em Minas Gerais, a professora apresentou a congada, um ritmo negro. “Lemos o livro Benedito, do Josias Marinho. Eles amaram as ilustrações. Comemos pão de queijo e fizemos pintura com café.”

Prosseguindo nesse giro pelo país, a educadora enumera outras ações que envolveram as regiões Nordeste e Centro-Oeste. “Conhecemos o cacuriá de Dona Teté e o guaraná rosa do Maranhão, a cidade e o baião de Luiz Gonzaga (1912-1989) em Pernambuco, a música de Gilberto Gil na Bahia, o maracatu com apoio do livro da Sonia Rosa e, mais recentemente, mostrei fotos de um quilombo onde eu estive na Chapada dos Veadeiros, na região Centro-Oeste.

Ou seja, passamos por vários ritmos e locais, mostrando para as crianças que existem vários jeitos de ser preto e que podem, portanto, se encontrar de várias formas.”

Mais do que contemplar as diversas existências, conclui a docente, trata-se de valorizar e respeitar essas diferentes perspectivas. “A experiência do racismo, infelizmente, é cotidiana, por isso sempre bato na tecla de que ‘todo dia é dia de a gente ser’. Todo dia é dia de existirmos dentro da gente e também na escola, a partir do que ela oferta. A escola não pode invisibilizar a presença das crianças negras, e o currículo não pode ignorar a produção das pessoas negras. É urgente ter isso em mente ao pensar e trabalhar a Educação para as relações étnico-raciais.”

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