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Jornalismo

Educação Infantil: desafios do pós-pandemia e estratégias para estimular a oralidade dos pequenos

O ensino remoto deixou, entre outras consequências, defasagens no desenvolvimento da fala das crianças. Educadores e especialistas dão dicas e sugestões para impulsionar a linguagem verbal nessa faixa etária

PorFabio Toledo

04/10/2022

Foto: Getty Images

Trocas e omissões fonéticas. Gagueira. Dificuldade em contar ou recontar uma história. Vocabulário reduzido. Não conseguir se colocar em uma conversa ou precisar de alguém para falar por si. Essas questões podem aparecer no decorrer do desenvolvimento da oralidade das crianças e precisam ser trabalhadas com atenção pelos professores. Esse cenário, muitas vezes desafiador, encontrou agravantes devido à pandemia.

 

O ensino remoto emergencial durante os momentos mais graves do quadro pandêmico foi marcado por dificuldades em todos os níveis. Uma adversidade inédita para professores, crianças e adolescentes e também familiares. Um dos setores mais afetados foi a Educação Infantil, especialmente por sua importância no desenvolvimento dos pequenos nos primeiros anos de vida.

 

Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os eixos estruturantes das práticas pedagógicas nessa etapa são as interações e brincadeiras, “experiências nas quais as crianças podem construir e apropriar-se de conhecimentos por meio de suas ações e interações com seus pares e com os adultos, o que possibilita aprendizagens, desenvolvimento e socialização”. Essa etapa também deve ser pautada por seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

 

“Os direitos de aprendizagem e desenvolvimento asseguram um papel ativo da criança e estão diretamente relacionados à sua linguagem oral. Essas experiências são garantidas quando o aluno interage e socializa com seus pares”, destaca Andréia Cristina Berretta, professora de Educação Infantil na EMEI Alto do Serra D'Água, em Porto Ferreira (SP), e integrante do time de formadores da NOVA ESCOLA.

 

Contudo, durante o isolamento social, o convívio com outras crianças e adultos, em geral, foi pouco ou inexistente. Muitas vezes as brincadeiras aconteciam apenas em casa, e o contato com os professores e colegas ocorreu à distância e de forma limitada. A exploração ficou restrita aos ambientes e objetos da casa e à tela do smartphone ou do tablet.

 

Entre desafios e angústias

Nesse cenário, durante e depois da pandemia, não foi incomum as crianças pequenas apresentarem dificuldades na fala. Segundo especialistas, elas podem ser divididas em, pelo menos, três categorias: dificuldades de articulação das palavras, de organização do pensamento e de posicionamento no discurso. Em cada tipo, ainda podem ocorrer variações e manifestações diferentes. “Às vezes, a criança tem dificuldade em se expressar, mas porque é muito tímida. Ela é capaz [de fazer isso], mas não tem entrada em uma conversa, não sabe pedir o turno de fala e participar de uma situação social. Existe essa complexidade, pois nem sempre é uma dificuldade no desenvolvimento psicológico da criança”, diz Silvana Augusto, escritora e coordenadora da pós-graduação Fazeres e Investigações das Crianças de Quatro a Seis Anos, do Instituto Singularidades.

 

“Uma das questões que mais me preocupava no período de ensino remoto era como perceber e detectar alterações e dificuldades na comunicação dos pequenos”, acrescenta a professora Andréia. “Na escola, utilizamos grupos de WhatsApp durante o ensino remoto. O sentimento era de angústia, porque, mesmo gravando e enviando vídeos explicativos sobre as atividades, faltava a interação entre as crianças e a professora. Sendo assim, como eu poderia conhecer melhor as crianças?”, questiona.

 

Esse sentimento levou Andréia a fazer adaptações. Uma de suas estratégias foi enviar livros infantis semanalmente, por meio dos pais, pedindo a eles a participação na leitura e o envio de áudios ou vídeos da criança recontando a história. Ela também sugeriu músicas para serem cantadas e outras histórias para as crianças recontarem. Conversou ainda com alguns utilizando áudios e chamadas de vídeo. “Essa interação, mesmo à distância, permitiu que eu percebesse que algumas crianças não estavam evoluindo em relação à oralidade”, ressalta.

 

Apesar dos esforços à distância dos professores, há uma diferença entre o ambiente de desenvolvimento assistido da linguagem, como é a escola, e o ambiente doméstico, onde a intimidade exige menos a necessidade da fala. “Às vezes, um olhar, um gesto, um balbucio, o jeito como chora, as expressões faciais, tudo isso informa algo sobre a criança. Quando a gente tem bastante intimidade com ela, é capaz de entender o que quer sem recorrer à linguagem falada”, explica Silvana. “Então, em um contexto doméstico, onde as crianças ficaram mais tempo em casa, muitas delas não precisaram falar para ‘se virar’, pois eram compreendidas muito facilmente pelos parentes mais próximos.”

 

Entraves para os aspectos sociais da comunicação

Com o retorno gradual ao ensino presencial, os professores puderam avaliar melhor os impactos dessa situação. Para Gabriella Andrade, professora da EM Iracema França Lopes Corrêa, em Ilhabela (SP), e formadora do time da NOVA ESCOLA, os principais aspectos notados foram a insegurança e a apatia das crianças na comunicação com ela e com os colegas de turma. “A roda de conversa era muito difícil. Era mais um monólogo meu para tentar incentivar as crianças a se expressar.”

 

A dificuldade encontrada pela professora reflete outro problema do cenário pandêmico para os pequenos, referente às práticas sociais de comunicação, uma vez que o contato das crianças foi, em geral, com um grupo restrito de pessoas. “É até possível que tenham desenvolvido a fala, mas não necessariamente a disposição e os procedimentos para conversar no coletivo”, avalia Silvana. Isso implica ouvir o outro, considerar o que ele diz na organização de seu pensamento, esperar a fala terminar e olhar para quem está falando. “São hábitos que só se desenvolvem na prática social da conversação e que foram bastante prejudicados durante a pandemia.”

 

Conforme a especialista, outro fator que atrapalhou a prática social da comunicação das crianças foi o uso excessivo de aparelhos eletrônicos. Celulares e tablets podem até ter mantido a atenção dos pequenos em algo e garantido um dia a dia mais tranquilo em casa, mas também influenciaram a forma como interagem com o exterior “real”. Os resultados observados no retorno ao ensino presencial são, pelo menos, dois: a assimilação de linguagens próprias da internet e a pouca interação com uma expressão humana.

 

“Muitas crianças, além de isoladas, tiveram contato demais com as telas e acesso a influencers e personalidades do mundo digital que têm todo um modo de falar, de se expressar, bastante estereotipado. Por vezes, acabaram por assimilar esses modos, até por imitação, e trazem essa linguagem para o contexto do retorno à escola.” De acordo com ela, muitas ficaram tanto tempo submetidas a telas, vídeos, desenhos, animações e jogos, que tiveram pouca condição de interação com uma expressão humana. “Por mais que a máquina responda às demandas das crianças, por meio da interatividade, sem a atitude responsiva do outro, elas ficaram com muita restrição em sua possibilidade de comunicação.”

 

Segundo Gabriella, o retorno gradual foi marcado por um trabalho difícil. Porém, aos poucos, ela obteve resultados. “Foi possível lidar com esse desafio à medida que os meses foram passando e as crianças foram criando vínculos comigo e entre si. Utilizei alguns cartões de apoio durante as rodas de conversa para que elas fossem entendendo o processo de comunicação: um fala, o outro escuta e o outro responde ao assunto do qual estamos tratando”, relata.

Boas práticas

Confira sugestões de atividades pedagógicas que podem ajudar no desenvolvimento da oralidade das crianças

 

Rodas de conversa: é uma boa maneira de as crianças expressarem desejos, sentimentos, necessidades e opiniões. “Segunda-feira é um dia propício para propor a roda de conversa sobre o que fizeram no final de semana. Elas adoram”, ressalta Andréia Berretta.

 

Rodas de leitura: o professor pode realizar a leitura apresentando imagens do livro para os pequenos e fazendo intervenções para que participem de maneira ativa, tanto com reações e comentários como no reconto da história.

 

Criações coletivas de histórias: em roda, o professor inicia uma história e cada criança dá a sua contribuição. Caso alguém tenha dificuldade em elaborar sua parte, os demais podem ajudá-lo. “Eu gosto muito de observar o quanto as crianças são capazes de ensinar e aprender umas com as outras”, comenta Gabriella Andrade.

 

Brincadeiras com trava-línguas: são várias as frases que possibilitam desafiar a fala dos pequenos, como “o rato roeu a roupa do rei de Roma" ou “a aranha arranha a rã ou a rã arranha a aranha?”.

 

Encenações de cantigas: esse tipo de atividade chama a atenção das crianças e costuma engajá-las. “Fiz com eles a encenação da cantiga ‘A linda rosa juvenil’. Todos memorizaram a cantiga bem rápido e se envolveram muito nessa prática. Fizemos uma apresentação para outras turmas utilizando fantasias e objetos pertinentes. Repetimos muito as apresentações porque as turmas se envolveram tanto que queriam representar todos ou quase todos os personagens”, conta Andréia.

 

Crianças como protagonistas: as educadoras salientam que, para todas as atividades, a recomendação é considerar a criança o centro do processo. Isso envolve escutar com atenção o que dizem e buscar as melhores práticas de acordo com os interesses da turma. “Para aqueles com dificuldades na fala, é necessário que o professor se abaixe na altura da criança e a olhe nos olhos quando for falar com ela. É importante solicitar sempre que ela fale o que quer, mesmo com dificuldade, e não entregar algo quando ela apenas apontar”, recomenda Andréia.

 

Defasagens, parcerias e envolvimento das famílias

Com a liberação do ensino 100% presencial e o aumento do número de crianças simultaneamente no espaço escolar, os contatos sociais ficaram mais intensos, além de haver “mais vozes dentro da sala de aula”, como brinca Gabriella. Isso possibilitou uma maior percepção das dificuldades, mas também dos avanços, reduzindo a angústia de Andréia e de muitos outros educadores.

 

Ainda assim, os quase dois anos da fase mais grave da pandemia deixaram uma grande defasagem no desenvolvimento da fala, com um aumento de casos de problemas de oralidade ou comunicação. “Na minha realidade de sala de aula, houve uma melhora, mas a defasagem continua me preocupando. Ainda é alto o número de crianças com necessidades de ajuste da fala, e o atendimento fonoaudiológico não é muito rápido de ser conseguido na rede pública”, lamenta Gabriella.

 

Como explica Andréia, um indicador da necessidade de apoio do profissional de fonoaudiologia é a estagnação do desenvolvimento da fala. “Se não percebo evolução na oralidade do aluno, procuro sempre parceria com profissionais especializados. As famílias também têm um papel fundamental nesse processo. Se existe o apoio e envolvimento familiar, os resultados são mais rápidos e evidentes.”

 

Para orientar e envolver as famílias nesse processo, ela dá algumas orientações que os educadores podem passar para os pais ou responsáveis. “É importante engajar as crianças desde pequenas nas atividades diárias de casa. Conversar sempre sobre o que estão fazendo, pedir que completem frases durante os afazeres, incentivá-las a expressar seus sentimentos, ideias, sonhos, desejos e medos e escutar atentamente o que elas têm a nos dizer, com calma e paciência.”

 

Gabriella reforça a importância do papel das famílias. “É preciso se comunicar com as crianças não só com a boca, mas com o corpo todo. Olhar nos olhos, demonstrar interesse, fazer perguntas que estimulem o raciocínio, cantar, ler histórias e observar o desenvolvimento.”

 

Para Andréia, a evolução acontecerá a longo prazo. “Vai depender muito da parceria entre escola, família e profissionais especializados. Por meio do diálogo e da troca de conhecimentos, é possível traçar estratégias para a evolução da linguagem oral dessas crianças e ações de intervenção precoce, evitando maiores transtornos”, finaliza a professora.

Para saber mais 

Confira algumas obras que tratam do assunto

 

O cérebro da criança, de Daniel Siegel e Tina Payne. nVersos Editora, 2011.

 

A vez e a voz das crianças, de Adriana Friedmann. Panda Educação, 2020.

 

Do andar ao escrever: um caminho psicomotor, de Fátima Gonçalves. Cultural RBL Editora, 2015.

 

O surgimento da linguagem na criança, de Aimard Paule. Artmed, 1998.

 

Atualidades em linguagem e fala. Organizado por Ivonaldo Leidson Barbosa Lima, Giorvan Ânderson dos Santos Alves e Isabelle Cahino Delgado. IESP Faculdades, 2018.

 

Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais, de Julieta Jerusalinsky. Agalma Psicanálise, 2017.

 

Pensamento e linguagem, de L.S. Vigotski. Martins Fontes, 2008.

 

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