Compartilhe:

Jornalismo

Uso da calculadora em sala de aula: muito além de um apertar de teclas

As aulas de Matemática devem ser mais do que a simples resolução de cálculos para que os alunos percebam o componente como uma ferramenta para leitura, interpretação e ação no mundo

PorIvonete Dezinho

06/09/2022

Foto: Getty Images

“Eles estão utilizando calculadora para fazer uma atividade avaliativa?” “Desse jeito é moleza.” “Assim, até eu faço!” “Ah, se no meu tempo fosse assim…” Essas foram algumas das frases que ouvi durante uma atividade na qual minha turma fazia uso da calculadora na aula de Matemática. Conto melhor a seguir.

No início do terceiro bimestre, levei meus alunos ao pátio da escola para fazer um trabalho avaliativo. Lá, havia mesas grandes e um ótimo espaço para que eles pudessem trabalhar em grupo. Os estudantes tinham em mãos uma lista com situações-problema, e um dos comandos era que as resolvessem utilizando a calculadora comum ou do celular.

O que me surpreendeu foi que a maioria das pessoas que presenciou a atividade estranhou, e algumas delas fizeram comentários indignados ao perceber que os alunos estavam utilizando o aparelho para fazer os cálculos. Teve até quem parasse e perguntasse: “Isso é sério? Eles podem utilizar a calculadora em uma atividade avaliativa?”.

 

O que pensam os alunos sobre a calculadora?

Fiquei refletindo sobre o acontecido, pois para nós era uma prática comum nas nossas aulas. Então, pensei em ouvir a opinião dos principais envolvidos nessa polêmica, os alunos, e descobrir qual era a opinião deles sobre o uso da calculadora nas atividades de Matemática. No outro dia passei em todas as turmas do Ensino Fundamental 2 e pedi que escrevessem um texto sobre o que achavam. Compartilho com vocês trechos de algumas redações recebidas.

“Acho necessário. Há cálculos muito grandes e não há necessidade de fazer a conta à mão, pois apenas perderia tempo que poderia ser usado pensando em como resolver o próximo problema.” “Quando uso calculadora, me sinto como alguém andando de bicicleta com rodinhas, traduzindo: me sinto inferior, precisando de ajuda.” “A calculadora mostra a resposta certa, mas não mostra como deve ser feita a conta. Para isso, temos que pensar bastante. Então, acho bom o uso da calculadora.”

E mais: “Eu quase não a uso, só nas contas muito difíceis ou para conferir os resultados. Dá uma confiança maior, mas também deixa você muito dependente. Fico pensando que no vestibular e no ENEM não vou poder usar.” “Fazer certos cálculos complexos já é difícil com o auxílio da calculadora. Imagino como seria a vida de engenheiros, astronautas, arquitetos, químicos, matemáticos sem esse dispositivo. Felizmente, os instrumentos de cálculo facilitam a nossa vida na escola e fora dela.”

O uso da calculadora nas aulas de Matemática sempre foi, e continua sendo, um assunto controverso entre matemáticos, professores, pais e alunos. Polêmica que está diretamente ligada à crença de que primeiro deveríamos memorizar e trabalhar o cálculo da conta armada e só depois de dominar as técnicas é que deveríamos usar a calculadora. Existe um senso comum de que quem usa a calculadora não aprende a fazer cálculos, não pensa, calcula mecanicamente, nunca vai aprender a fazer contas, fica dependente e não aprende de fato a Matemática. E você? Qual a sua opinião sobre o assunto? Antes de continuar a leitura, pense um pouquinho sobre essa questão.

 

Matemática vai além das operações

Mas, continuando… No III Encontro Nacional Online dos Professores que Ensinam Matemática (ENOPEM) 2022, o professor Antônio José Lopes Bigode fez uma conferência intitulada Competências de cálculos na era digital: qual é o lugar da tabuada e da calculadora num mundo sem decoreba?. De acordo com o professor Bigode, a polêmica não deveria ser utilizar ou não a calculadora nas aulas, e, sim, como empregá-la de modo inteligente para potencializar as habilidades de cálculo mental, de estimativa e, inclusive, para compreender melhor o algoritmo que os alunos fazem mecanicamente.

Nessa conferência, várias questões foram feitas aos professores que ensinam Matemática, como: o que é calcular na vida cotidiana hoje? Que tipo de cálculos você faz? Quais são as suas necessidades de cálculo? Qual é o único lugar onde ainda é exigido o cálculo “armado”, feito com lápis e papel? E ainda: onde acontece o cálculo, na cabeça ou no botão que apertamos?

Sabemos que a resolução de um problema não envolve somente a realização de uma operação matemática em si. Antes disso, o aluno percorre vários caminhos, entre eles, o que considero essencial, sem o qual não resolvemos problemas em nenhuma área de conhecimento: o da leitura e da interpretação. Posteriormente, ele traça estratégias de resolução, faz estimativas, escolhe operações, pensa no sentido da operação escolhida, analisa e decide qual operação é a mais adequada, reflete sobre o resultado e o relaciona ao enunciado e ao questionamento da situação-problema apresentada.

Antes de clicar na tecla da calculadora, o estudante percorre vários caminhos, passando por interpretação, levantamento de hipóteses, raciocínio lógico, análise de estratégias de cálculo e resolução, como relata um de nossos alunos: “A calculadora mostra a resposta certa, mas não mostra como deve ser feita a conta. Para isso, temos que pensar bastante”.

Em um artigo sobre o tema, Katia Stocco Smole, diretora do Instituto Reúna e fundadora do Mathema, afirma que a resolução de problemas com a calculadora permite a construção e a valorização da Matemática, representando um espaço de mobilização de diferentes saberes. Além disso, possibilita o desenvolvimento de capacidades e atitudes formativas face à Matemática e à vida. Para ela, a calculadora vem abrir novas dimensões para as atividades, aliviando o peso dos cálculos que a resolução de um problema geralmente transporta e permitindo ao aluno ter foco em seu processo de resolução.

 

Encorajamento e autonomia

Percebo que o uso da calculadora permite aos alunos que têm dificuldades com as operações básicas se encorajarem na resolução de situações-problemas fazendo os cálculos que à mão ainda não se sentem seguros. Com isso, vão ganhando autonomia, percebem que são capazes e, nessas tentativas, aprendem técnicas e alternativas que os ajudam a superar as dúvidas ou dificuldades com as operações básicas.

Há também um ganho de tempo ao se trabalhar com a calculadora, por agilizar a resolução. Dessa forma, os estudantes podem utilizar melhor o decurso resolvendo novos problemas, discutindo estratégias de resolução, analisando tentativas e erros e compartilhando diferentes formas de resolução.

Sempre utilizei a calculadora nas aulas de Matemática, antes mesmo da pandemia, com algumas restrições. Ao retornar ao ensino presencial, deixei que os alunos a utilizassem em todas as aulas, inclusive nas atividades avaliativas, e também que utilizassem o celular para pesquisa. Não fazia sentido, após dois anos de ensino remoto, período no qual o celular foi o principal ou único instrumento pelo qual foi possível desenvolver as atividades educativas, proibir esse recurso.

O interessante é que, ao liberá-lo, vários problemas que aconteciam anteriormente deixaram de ocorrer. Os alunos estão mais conscientes quanto à utilização do celular, e a calculadora tem sido uma ferramenta muito importante para a recomposição da aprendizagem.

Os resultados que podemos obter com o uso da calculadora em sala de aula são principalmente a presença de alunos mais tranquilos e seguros, sentimentos muito importantes neste ano de retorno às aulas presenciais. “Com o uso da calculadora, tenho me sentido mais seguro quando preciso fazer cálculos grandes, economizo tempo, e isso até tem me ajudado a decorar a tabuada.” “Com a calculadora, estou perdendo o medo da Matemática, tenho me arriscado mais, minha mão até parou de suar.” Estas foram algumas frases que escutei deles.

Quando utilizamos a calculadora de modo planejado, ela não impede nossos alunos de pensar e aprender Matemática. Ela é fonte de motivação para que eles aproveitem melhor o tempo que gastariam fazendo cálculos enormes, pensando, criando estratégias de resolução, estimando, desenvolvendo o cálculo mental e experimentando modos diversificados de aprendizagem. 

As aulas de Matemática devem ir além da simples resolução de cálculos. Precisamos abrir espaço para que os alunos possam exercer o pensamento livre, crítico, criativo, consciente e para que assim percebam a Matemática como uma importante ferramenta para leitura, interpretação e ação no mundo.

Caro colega professor, o uso da calculadora nas aulas de Matemática também é um assunto polêmico por aí? Qual a sua opinião sobre o uso da calculadora nas aulas? E nas avaliações? Compartilhe a sua opinião.

 

Um abraço e até breve!

 

Ivonete Dezinho é professora há 36 anos, lecionou por 25 anos na rede estadual de Educação de Mato Grosso do Sul, nos Anos Inicias do Ensino Fundamental, e há 19 anos trabalha com Matemática na EMEF Professor Milton Porto, em Naviraí (MS). Em 2014, foi uma das vencedoras do Prêmio Educador Inovador com o projeto “A Matemática na minha vida”. Em 2018, recebeu o Prêmio Educador Nota 10 e foi vencedora da premiação popular #EsseProjetoé10 com o projeto “De pai para filho: uma abordagem do ensino da Matemática nas profissões”. Em dezembro de 2018, recebeu a medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo pelo Ministério da Educação (MEC). Em 2020, foi vencedora do Prêmio Educador Digital com o trabalho “Boas práticas na educação remota com o projeto 'Da ponta do dedo à ponta do lápis': o ensino da Matemática na modalidade remota”.