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O desafio de escrever cada vez melhor

Especialista em memórias literárias analisa produção da aluna Nathalya Cristina Trevisanutto e indica como superar as dificuldades que aparecem na versão inicial

por:
EF
Elisângela Fernandes
Nathalya Cristina Trevisanutto, 13 anos, autora dos textos utilizados nesta reportagem. Foto: Rafael Silva
Nathalya Cristina Trevisanutto, 13 anos, autora dos textos utilizados nesta reportagem

Nathalya Cristina Trevisanutto foi uma das vencedoras da Olimpíada de Língua Portuguesa em 2012. Até chegar à versão final do texto Cores, Aromas e Sabores de Infância, ela precisou reescrevê-lo diversas vezes. As mudanças ocorreram à medida que a professora Vanicléia de Oliveira Sousa Rebelo propôs atividades de leitura e escrita para que a turma do 8º ano da CEEFM Doutor Duílio ampliassem seus conhecimentos sobre o gênero memórias literárias.

Mariana Luz Pessoa de Barros, professora do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e pesquisadora dos temas autobiografia, memória, tempo e literatura, analisa a primeira versão produzida por Nathalya e indica quais atividades podem ser propostas para que os alunos tenham cada vez mais desenvoltura em relação a linguagem literária, foco narrativo, seleção e ordenação das informações e padrões da escrita.

Clique nos trechos realçados para ver os principais problemas que aparecem no texto inicial. Em seguida, leia o texto vencedor e veja como esses problemas foram superados.

1ª produção

Nasci em uma família de seis irmãos, éramos uma família bem pobre, meu pai trabalhava muito para sustentar a família, e meus irmãos tiveram que largar os estudos para ajudar meu pai na plantação do café. Eu morava em uma colônia, era no sitio e tinha sete casas. O fogão era de lenha, em dias de chuva a família toda ia buscar lenha.

Eu e meus sobrinhos brincávamos de baixo da seringueira fazíamos bola de borracha e ao entardecer ficávamos olhando os carros passarem na rodovia. As crianças também trabalhavam no café, ajudavam a moer o café, a juntar de noite e a limpar o tronco do café, parecia um serviço fácil, mas era muito perigoso porque tinha vários bichos perigoso debaixo do café como aranhas, escorpiões, etc.

As famílias da minha colônia se juntavam no terreiro para conversar porque naquele tempo não havia televisão, as crianças então aproveitavam para caçar vaga-lumes, os adultos diziam que se cantássemos essa música os vagalumes viriam até nós "Vaga lume tem tem, seu pai tô aqui sua também" as crianças pensavam que era verdade. As meninas se enfeitavam de outra maneira naquela época, faziam tamanco de lata de óleo e unhas postiças de flores.

A escola daquele tempo era no sitio e era de madeira, só existia uma sala e era dividido em duas partes por uma cortina, eram dois quadros, eram duas carteiras juntas, a professora que fazia a comida e dois alunos dia lavava a louça. No recreio as crianças brincavam de pé-na-lata, pique-esconde, pega-pega, ciranda, Terezinha de Jesus, etc. Eram os alunos que lavavam a escola uma vez por mês.

A primeira televisão que eu vi era do dono do sitio e o pessoal ia assistir o "Jornal Nacional" e a novela "Direito de Nascer". Quando a televisão chegou na minha casa, foi uma festa, só meu irmão mais velho podia ligar a TV.

O chuveiro era de lata, e a água era armazenadas em potes, e ferro de passar roupa era de brasa, e a gente só bebia refrigerante no Natal.

As festas de São João, quando eu morava no sitio, tinham sete fogueiras uma em cada casa do sitio, o cheiro das delicias de São João exalavam por todas as casas, em um momento da festa o pessoal se reunia para rezar o terço e depois se deliciavam com os pratos típicos de São João.

Produção final

Cores, aromas e sabores de infância

Os aromas sempre despertam em mim lembranças e saudades. Como é bom voltar à infância e deixar escapar dos guardados de minha memória fragmentos de um tempo tão bom! Fecho meus olhos e parece que vejo o lugar: Sítio São Salvador.

Lembro-me das casas enfileiradas, todas pintadas de azul e iluminadas pela luz do sol. Sete casas, sete famílias e muitas crianças para pintar o sete!

O cafezal dominava a paisagem e consumia o trabalho de toda a família, até das crianças. Minha tarefa era limpar os troncos com as mãos e tirar do interior dos pés de café os preciosos grãos que teimavam em ficar escondidos entre galhos e folhagens. A lavoura rendia trabalho para o ano todo: capinar, arruar, derriçar, rastelar, peneirar, ensacar. Ufa...! A melhor parte era quando a colheita estava no terreirão para secar.

O cheiro do café secando ao sol não me sai da memória... Ao final do dia toda a família ia amontoar e cobrir os grãos para protegê-los do sereno da noite. Depois de coberto, o monte de café se tornava nosso brinquedo preferido: um escorregador gigante, nosso parque de diversão!

À noite, depois do banho de bacia e do jantar à luz de lamparina, todos os moradores se juntavam no terreirão para um dedinho de prosa. O que se ouvia era uma sessão de casos e "causos". As crianças tremiam de medo quando as histórias eram de assombração. No sítio ainda não tinha a luz elétrica para ofuscar o brilho das estrelas e nem da luz cintilante dos vaga-lumes. As crianças amavam capturar aqueles seres enigmáticos. Cantávamos a rima mágica "Vaga-lume tem, tem, seu pai tá aqui, sua mãe também". Não sei se por crença ou por questão de coincidência os bichinhos sempre eram atraídos para nossas mãos. Pobres insetos! Só eram devolvidos à natureza depois de conferidos e contabilizados. É que apostávamos para ver quem era o maior e melhor caçador de vaga-lumes.

No final da década de 1970, meu padrinho, que era o proprietário do sítio, apareceu com uma novidade que mudaria para sempre a nossa rotina noturna: um televisor preto e branco que funcionava a bateria. Logo fomos enfeitiçados por aquela máquina. O terreirão foi deixado de lado. Os vaga-lumes passaram a voar sossegados. Ninguém queria perder um capítulo da novela O direito de nascer. A parte engraçada da história é que não assistíamos a nenhum comercial. A televisão era cuidadosamente desligada nos intervalos para economizar a bateria.

Nas noites de São João o cheiro das delícias exalava das janelas de todas as casas. Bolo de milho, biscoito de polvilho, chá, ximango, quentão e muita diversão. Sete casas, sete fogueiras! E no final o santo terço em homenagem ao santo do dia.
 
As primeiras letras aprendi em uma escolinha rural. Era de madeira, com apenas uma sala dividida para duas turmas. Dois quadros, carteiras duplas. A professora também se dividia em duas, para atender os alunos e preparar nossa merenda no fogão a lenha. Se bem me lembro, pelo menos uma vez por mês lavávamos a escola: água de poço, sabão de soda, vassoura e escovão. O assoalho de tábua bruta ficava branquinho!

Éramos tão felizes, mesmo não tendo todas as facilidades de hoje! Gostávamos da luz da lamparina, do sabor da água do pote, do aroma do ferro a brasa, do macio e delicioso chiado do colchão de palha. Mas tudo o tempo leva...

Quando meu padrinho faleceu, o sítio foi vendido. Tivemos que nos mudar para a cidade. As casas foram sendo demolidas, uma após outra. O café deu lugar à pastagem e hoje o destruído espaço da minha infância não lembra em nada o que já foi um dia. Neste ano, as últimas árvores do nosso pomar foram arrancadas. O sítio foi tomado pelo verde da plantação de cana.

Passei toda a minha infância naquele sítio maravilhoso localizado aqui mesmo no município de Tamboara. Foi assim minha infância, vivida com simplicidade e amor, com minha família tão querida! Hoje tudo o que era alegria virou saudade, sinto falta das cores, aromas e sabores daquele lugar. Quando revivo esses momentos, meus olhos se enchem de lágrimas.

(Texto baseado em entrevista realizada com Vanicléia de Oliveira Souza Rebelo)

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