Compartilhe:

Jornalismo

Língua Portuguesa: ajude seu aluno a ler o mundo em diversos contextos

A aquisição e o desenvolvimento da linguagem demandam o reconhecimento da língua em sua totalidade, os propósitos comunicativos e a interação entre interlocutores e a vida em sociedade

PorAna Cláudia Santos

16/08/2022

Foto: Getty Images

A história do ensino da língua materna em nossas escolas percorre um panorama de mudanças decorrentes da transformação do contexto educacional. Se retomarmos os primórdios de nossa colonização, veremos que a incorporação da Língua Portuguesa na Língua Tupi foi uma necessidade que facilitaria a comunicação entre nativos e portugueses, já que a população indígena era numericamente superior à europeia.

Entendemos, então, que consolidar e propagar o ensino da Língua Portuguesa tornou-se uma necessidade que foi se transformando com o passar do tempo. Aquela premissa inicial de que era preciso falar bem o idioma ganhou conotações diversas, e, nas escolas, foi incorporado aos currículos o escrever bem. 

Desde então, buscamos um equilíbrio que vai da permanência do ensino da variedade padrão às possibilidades linguísticas que não excluem os diversos falares que estruturam os processos de interlocução, que facilitam a comunicação e cumprem funções sociais tão importantes nas diferentes esferas. Funções que vão ao encontro de demandas colocadas pelo mercado de trabalho, pelas linguagens midiáticas e digitais e pelas práticas que se efetivam em diversos gêneros e instâncias discursivas.

O ensino de Língua Portuguesa já esteve pautado no domínio discursivo literário e serviu ao desenvolvimento da industrialização – ênfase para a indústria da comunicação, quando os textos jornalísticos ganharam as páginas dos livros didáticos. 

Hoje, com a tecnologia da comunicação, o ensino da língua materna conjuga sistemas semióticos e tem sido instrumento de convergência para o cotidiano dos alunos, mobilizando diferentes linguagens. Afinal, os gêneros textuais não são mais estáticos, podem expandir os sentidos e tecer reflexões e novos aprendizados.

Pensar o ensino de Língua Portuguesa é aprofundar as aprendizagens que circulam em quatro eixos, como proposto pela BNCC: oralidade e leitura/escuta; produção (escrita e multissemiótica) e análise linguística/semiótica. Ou seja, é reconhecer o funcionamento da língua em sua totalidade, os propósitos comunicativos, os contextos de produção e a interação entre os interlocutores e a vida em sociedade.

O que priorizar no segundo semestre letivo?

Certamente, professor, você já percorreu em suas aulas um longo caminho para tornar acessível o ensino da língua materna e as habilidades referentes aos procedimentos de leitura e estratégias cognitivas e metacognitivas, já que são as propostas mais recorrentes pela BNCC.  

Agora, que tal acionar os conhecimentos prévios de seus alunos e levantar hipóteses sobre os conceitos da língua materna que eles já dominam? Para isso, sugiro um estudo poético da formação da língua portuguesa brasileira com o samba-enredo da Mangueira intitulado Minha pátria é minha língua, Mangueira meu grande amor. Meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor. Levante inferências sobre o contexto histórico e de que maneira o português se misturou com o tupi e “tupinambrasileirou”, como diz a própria letra do samba.

O enredo da Mangueira aborda as influências que o idioma sofreu até chegar à versão atual. Uma boa oportunidade para articular as informações textuais com outras linguagens, como as que aparecem em charges e tiras que versam sobre a colonização brasileira. O tratamento das informações permite o reconhecimento de formas de intertextualidade e provoca diversas reflexões. 

Aproveite, por exemplo, o tweet para potencializar os recursos midiáticos, estudar os recursos composicionais e estilísticos desse gênero e até desafiar a capacidade de síntese e criatividade dos alunos ao materializar os conceitos e estudos realizados.

Outros caminhos para trabalhar em sala de aula

Para trabalhar habilidades relacionadas à interdiscursividade por meio de marcas linguísticas presentes no texto, um trabalho palpável é com o livro O Brasil das Placas – Viagem por um Brasil ao pé da letra, de José Eduardo Camargo e L. Soares.

Com uma linguagem bem humorada, os autores nos convidam a refletir sobre a linguagem que circula em nosso cotidiano. Imagens curiosas e inusitadas aparecem associadas criativamente a estrofes de cordel: “Viajando encontramos/ placa de tudo que é jeito/ cada uma acompanhamos/ de um cordel sem preconceito/ com modéstia esperamos/ que lhe faça bom proveito”. 

Faça, sim, um bom proveito, analise os aspectos sociodiscursivos e composicionais dos textos, assim como os efeitos de sentido decorrentes das variantes e dos mecanismos linguísticos. 

Para valorizar o manuseio do sistema de escrita, das diferenças de forma e como os conteúdos circulam nas comunidades onde vivem os alunos, proponha um mosaico de textos que conjugam imagens e palavras que possam traduzir as representações linguísticas do entorno da escola ou do lugar onde vivem. Incentive a leitura das entrelinhas e a atribuição de valores ao não escrito.

Ao incorporar os novos e multiletramentos, crie estratégias para que o bom uso da linguagem favoreça uma postura crítica, de discernimento. Colabore também para a compreensão dos efeitos de sentido de um texto e de como o leitor desempenha um papel de protagonista ao interpretar e inferir pistas deixadas pelo autor, além de dialogar com a informação, sendo capaz de avaliar aspectos ideológicos. 

Professor, apoie-se em textos de cunho jornalístico para tecer reflexões sobre as relações étnico-raciais e as intenções da Educação na formação humana e na construção de valores. A sociedade brasileira não se considera racista; porém, nas interações sociais que envolvem família, educação formal, oportunidades de trabalho, afetividade e outros aspectos, o preconceito racial ainda se faz presente. 

Por isso, podemos estabelecer relações intertextuais entre a música Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, da banda O Rappa, e trechos de O Navio Negreiro – Tragédia no Mar, de Castro Alves, ou ainda citar o polêmico parecer do Conselho Nacional de Educação, que apontou traços preconceituosos no livro As caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato.

Uma atividade divertida pode ser a análise de diferentes vozes presentes nos textos, selecionando as informações e dados verdadeiros que poderão subsidiar o planejamento e a edição de memes. As imagens deverão articular os recursos linguísticos e extralinguísticos com o intuito de promover a produção e o entendimento do sentido global do texto, revelando opinião, criticidade e posicionamento frente às questões sociais. Este site pode ajudar na criação dos memes.

A aquisição e o desenvolvimento da linguagem resultam da interação social. Nossa tarefa ao ensinar Língua Portuguesa é operar novas formas de organização de mensagens e fazer do jogo da comunicação a concretização da necessidade de sentir e ler o mundo em contextos diferentes.

Ana Cláudia Santos é professora de Língua Portuguesa na Educação Básica da rede estadual de ensino há 20 anos e mestranda em Educação Profissional e Tecnológica. Foi vencedora do Prêmio Educador Nota 10, promovido pela Fundação Victor Civita, nas edições de 2014 e 2018, com os trabalhos O Povo Conta e O (Ser)tão de Cada Um. Recebeu a medalha Ordem do Mérito Educacional (MEC) – Grau de Cavaleiro e o troféu Capitão-Médico João Guimarães Rosa, da Academia de Letras da PMMG.