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Jornalismo

Educação Antirracista: caminhos para trabalhar a temática nos Anos Finais do Fundamental

Confira sugestões de propostas que abordam relações étnico-raciais e um material que lista como cada componente curricular pode explorar o assunto

PorVictor Santos

11/08/2022

A professora Karla Paranhos e seus alunos na aula-passeio da eletiva ‘AfroPop’. Na região do Rio de Janeiro (RJ) conhecida como ‘Pequena África’, ela guia seus estudantes rumo a um olhar afrorreferenciado pelo território. Foto: Tete Silva/NOVA ESCOLA

Quando o assunto é Educação Antirracista, a professora Karla Monteiro Paranhos, que leciona Ciências para os Anos Finais do Ensino Fundamental na EM Deodoro, no Rio de Janeiro (RJ), frisa que não podemos “tapar o sol com a peneira”. Segundo ela, a escola não está livre de reproduzir o racismo que é estrutural – na maioria das vezes, ela é, inclusive, o primeiro lugar onde a criança se defronta com situações racistas. “Inicialmente, é preciso que todos os atores se conscientizem de que esse problema existe e deve ser combatido.”

Pensar e executar esse trabalho no ciclo do 6º ao 9º ano é algo que envolve algumas especificidades para os educadores. “É uma etapa que traz uma fragmentação por componentes. Temos professores especialistas excelentes em suas áreas, mas eles vêm de cursos de licenciaturas que não costumam ter formações específicas para relações étnico-raciais”, diz Karla. “Por isso temos de tentar entender as possibilidades de abordar essa temática em todas as áreas e também encontrar correlações de forma interdisciplinar.”

Para apoiar os professores nesse e em outros desafios relacionados a consolidar projetos que abordam a questão racial nos Anos Finais, conversamos com educadoras e educadores experientes, que sinalizaram por meio de exemplos práticos as possibilidades de atuação. Trazemos ainda um material complementar, que pode ajudar a planejar iniciativas para cada um dos componentes curriculares.

Como começar

Especialista em estudos africanos e afro-brasileiros e com ampla experiência na rede pública de ensino, a professora Rosa Margarida de Carvalho Rocha atualmente se dedica à formação de professores para a implantação da Lei Federal 10.639/03 (atualizada pela Lei 11.645/08). A legislação regulamentou a obrigatoriedade do estudo de História e Cultura Afro-Brasileira nos ensinos Fundamental e Médio das escolas públicas e privadas do país. De acordo com a professora Rosa, três pontos são cruciais para nortear a Educação Antirracista.

“O primeiro deles é o reconhecimento e a valorização das diferenças. O segundo, o fortalecimento da memória histórica brasileira, valorizando a diversidade étnica e nos reconhecendo como um país construído a muitas mãos, já que geralmente atribuímos isso apenas ao grupo hegemônico branco europeu”, explica a formadora. “O terceiro ponto diz respeito ao desenvolvimento de atitudes e valores – falo aqui da importância de assumir posicionamentos contrários a toda forma de discriminação.” 

Em relação aos diversos estudos e pesquisas desenvolvidos nessa área, Rosa conta que sempre buscou construir uma articulação entre documentos normativos, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e a própria Lei 10.639/03. “É muito importante pensar nessa interlocução. Não é o professor sozinho que tem de assumir a responsabilidade. Todos os envolvidos – secretarias, núcleos das secretarias e coordenação pedagógica, além do próprio professor – precisam de um plano de ação para dar andamento a esse trabalho.”

A educadora Karla na Pedra do Sal, monumento histórico carioca. Segundo ela, muitos alunos já passaram por aquela região, mas desconheciam a sua história – cabendo aí uma rica oportunidade de aprendizado em uma visita guiada. Foto: Tete Silva/NOVA ESCOLA

Letramento racial, diagnóstico, problematização, implementação e acompanhamento

Em uma perspectiva metodológica, a especialista fala de um aspecto que também foi ressaltado pelos entrevistados na reportagem sobre Educação Antirracista nos Anos Iniciais do Fundamental: o ponto de partida está no letramento racial. “As pessoas só criam empatia por um tema quando o conhecem. Então, quando se está formando professores, por exemplo, a sensibilização acompanhada da responsabilização sobre esse tema é necessária.”

Em seguida, é o momento do diagnóstico. “A Secretaria tem de diagnosticar o que fez e o que deixou de fazer sobre essa temática. Da mesma forma, a escola precisa identificar em que status ela se encontra com relação às mesmas questões.” Para isso, esse material elaborado pela própria Rosa para a NOVA ESCOLA pode auxiliar o professor, de maneira lúdica, a descobrir e fazer um levantamento de como sua escola está nas diversas dimensões das relações étnico-raciais.

O passo seguinte diz respeito à problematização. “Com tudo mapeado, é o momento de efetivamente criar o plano de ação, com aquelas perguntas simples e que são necessárias: o que vou fazer, como vou fazer, quem vai fazer, de que forma e quando?”, destaca a especialista. “É nesse momento que a escola define quais são a sua missão e as suas responsabilidades perante as questões antirracistas.” Ela salienta que a problematização pode levar a uma formalização dessas práticas em manuais e protocolos e mesmo a uma inserção no Projeto Político-Pedagógico (PPP).

Por fim, com as ações já em andamento, cabe aos envolvidos monitorar e avaliar. “Em projetos desse tipo, é importante pensar em avaliações processuais e também ao final de cada ciclo, para retroalimentar o plano de ação e identificar o posicionamento de toda a comunidade escolar a respeito das relações étnico-raciais”, orienta.

Desafios da separação por componentes – e os caminhos para superá-los

Como realçou a professora Karla no início desta reportagem, o fato de os Anos Finais apresentarem essa divisão por “caixinhas” de conhecimento traz uma dificuldade a mais para desenvolver projetos de Educação Antirracista. “A própria Lei, apesar de enfatizar História e Arte, reforça que [a temática] deve ser trabalhada no currículo como um todo. Então, cabe a nós entendermos que há possibilidades para todas as áreas”, aponta a educadora.

Ela traz alguns exemplos de diferentes componentes para corroborar esse raciocínio. “No caso de Língua Portuguesa, como a gente pôde, por tanto tempo, negligenciar a cor de Machado de Assis?”, questiona. “Ou mesmo Matemática: muitos podem dizer, ‘Ah, é super Exatas’, mas há uma questão racial pautada ali que muitas vezes não é falada. ‘Quando surgiu tal raciocínio matemático?’ ou “De onde vieram esses pesquisadores e que cor eles tinham?’.”

Indagações similares também norteiam o trabalho de letramento racial que Karla realiza com as turmas em suas aulas de Ciências. “Eu gosto de fazer uma atividade na qual pergunto para eles: ‘Na visão de vocês, qual é a cara do cientista?’. Indico algumas fotografias, e nunca, na perspectiva deles, vai ser uma pessoa preta, uma mulher, uma mulher preta…”, comenta. “No ano passado, realizei uma atividade colocando apenas imagens de cientistas que eram mulheres negras. Aí lembro, por exemplo, de um deles falando, ‘Ela parece a minha mãe, não parece cientista’ [risos]. Partindo de propostas como essa, trago então as contribuições de especialistas negros e africanos para o processo científico.”

Criando novas possibilidades

Ainda nessa linha, Karla compartilha mais alguns exemplos que aparecem quando ela está realizando seus planejamentos. “Em Ciências, nós temos competências e habilidades bem definidas, e, em geral, não há nenhuma que fale especificamente de relações étnico-raciais. No entanto, se considerar uma habilidade que envolve estudar método científico e a História da Ciência, você tem uma brecha para trabalhar essas relações analisando, por exemplo, quem fez parte dessa história. Quem são essas pessoas e como contribuíram para o desenvolvimento desse contexto?”, exemplifica.

Alguns temas atuais, que igualmente aparecem entre as habilidades de Ciências, também são oportunidades de reflexão. “Sobre problemas ambientais, não tenho como descontextualizá-los de questões étnico-raciais, já que, quando me aprofundo neles, vejo que atingem de forma mais forte populações negras, indígenas e periféricas. Por que será que isso acontece?”, indica a professora. “Outro ponto são as vacinas. Preciso falar sobre como funcionam no organismo e sobre imunização. Assim, quando trago dados que mostram que no Brasil e na Europa 80% da população está vacinada contra Covid-19, e na África a porcentagem é muito menor, não é só uma questão técnica [que está] em jogo. E o aluno dos Anos Finais já tem um pouquinho mais de maturidade para enxergar essas nuances.”

Para a especialista Rosa Margarida, há pontos fundamentais que cada componente pode abordar no que diz respeito à Educação Antirracista. Para apoiar os docentes, ela compartilhou com a NOVA ESCOLA um material complementar, que pode ser baixado gratuitamente no botão abaixo.

BAIXE GRATUITAMENTE UM DIAGRAMA COM AS QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS EM CADA COMPONENTE CURRICULAR DOS ANOS FINAIS

“Vale reforçar que o interessante é trabalhar de forma interdisciplinar e até transversal”, afirma Rosa. “De qualquer forma, a ideia desse diagrama é fornecer condições para que os professores percebam onde as questões étnico-raciais podem entrar em cada componente curricular – como um conteúdo pertencente, e não como um apêndice. Torna-se possível, assim, a interlocução de projetos, trabalhos e conteúdos desenvolvidos nesse nível de ensino com a Educação Antirracista.”

O circuito histórico ‘Pequena África’ abrange parte da Zona Portuária do Rio de Janeiro (RJ) e os bairros da Saúde e da Gamboa. Na aula-passeio, Karla e os estudantes passaram por pontos históricos como o Largo São Francisco da Prainha, a Pedra do Sal e o Cais do Valongo e terminaram no Museu Memorial dos Pretos Novos. Foto: Tete Silva/NOVA ESCOLA

A bagagem dos estudantes nessa etapa

As professoras Rosa e Karla mencionam que o repertório que os próprios alunos desse ciclo trazem em sua bagagem pode auxiliar, e muito, para que bons projetos antirracistas sejam executados. “Esses diálogos dentro da comunidade escolar são essenciais. Não é dar voz aos adolescentes, porque eles já têm voz, e sim escutar o que eles têm a dizer”, salienta Rosa. “Já atuei em uma escola na qual muitos alunos viviam em situação de risco. Desenvolvemos um projeto em que, uma vez por mês, professores e estudantes sentavam e conversavam sobre vários assuntos, inclusive sobre o que os adolescentes mais queriam aprender em sala de aula. Todos os educadores conseguem, habilmente, articular conteúdos do planejamento global com o que os alunos querem.”

Na escola onde leciona, a professora Karla tem a oportunidade de comandar uma disciplina eletiva que lhe permite desenvolver os tópicos ligados à temática racial para além da aula de Ciências. “Propus uma eletiva com a temática ‘afropop’. Nela, consegui mesclar componentes como Geografia, História, Arte e Línguas, adaptando para a linguagem e os interesses dos adolescentes. Por exemplo: onde surgiu o funk carioca e por que a discriminação? Abordamos também samba, grafite e outros assuntos, sempre na perspectiva da cultura e da resistência.”

O trabalho, no entanto, não para por aí e atravessa os muros da escola, que está localizada no bairro da Glória, próximo à região central do Rio de Janeiro. “Graças a essa ‘proximidade estratégica’, consigo fazer atividades de campo com os estudantes no território que hoje é conhecido como ‘Pequena África’ – remanescente da história do povo negro no Rio de Janeiro”, descreve a professora. “Então realizamos essas visitas guiadas. Muitos já passaram por aquela região, mas não conheciam a sua história. Sempre procuro partir dos conhecimentos prévios que eles têm sobre a escravidão no Brasil, mesmo que estereotipados, e aproveitamos esses momentos para trabalhar diversos conteúdos.”

De acordo com a especialista e formadora Rosa Margarida, quando a instituição realiza esse recorte étnico-racial, consegue visibilizar o sujeito concreto que está dentro daquele espaço, impulsionando o processo de ensino e aprendizagem. “Tudo porque o aluno se engaja mais e se torna protagonista do aprendizado, já que ele se vê e é visto pela escola.”

Educação Antirracista transdisciplinar na prática

A equipe de uma escola mineira conta como aborda a temática racial de maneira transversal

O PPP da EM Polo de Educação Integrada (EMPoeint), que atende alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Belo Horizonte (MG), foi simbolicamente sintetizado por uma mandala. Nela, uma figura humana aparece no centro e, em volta, surgem palavras-chave que representam tanto os conhecimentos escolares (acadêmicos e científicos) quanto os saberes presentes nas pessoas e no território da comunidade.

“Trabalhar com a Educação Antirracista de forma transversal é algo diretamente ligado a essa centralidade do sujeito presente na nossa proposta”, explica a vice-diretora Shirlei Lopes da Silva. “Afinal, sabemos que o sujeito na nossa escola tem cor: estamos na periferia de BH, nossos alunos são em sua maioria meninos e meninas negros, muitos vivendo em situação de vulnerabilidade social. Precisamos considerar a EMPoeint como equipamento de proteção, como um local para pensar esse sujeito negro e da periferia, e de enfrentamento ao preconceito racial.”

A estrutura curricular da escola, que é integral, engloba três áreas de conhecimento com seus respectivos componentes: Ciências Humanas (História e Geografia), Ciências da Natureza e Matemática (Matemática e Ciências) e Códigos e Linguagens (Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Arte e Educação Física). Assim, permite consolidar um trabalho transdisciplinar, que inclui ainda atividades e vivências educativas, como teatro, artes urbanas (hip-hop e grafite) e capoeira, vinculadas aos saberes populares e a diferentes conhecimentos.

“Temos tempo de planejamento de forma coletiva nas áreas e entre as áreas do conhecimento”, enfatiza a coordenadora pedagógica geral Glaucia Aparecida Vieira. “Dessa forma, conseguimos articular e relacionar os componentes e conhecimentos e mesmo alterar a ordem tradicional para ensiná-los de acordo com o tema que vamos trabalhar.” É durante esse planejamento coletivo que o próprio material didático é produzido, e os livros didáticos habituais ficam como apoio.

Além disso, destaca Glaucia, esse tempo de planejamento garante momentos de capacitação, incluídos na carga horária, com foco nas condutas dos docentes. “Nas formações em Educação Antirracista, construímos conceitos como branquitude, para que nós, sujeitos educadores não negros, conseguíssemos trabalhar esse lugar de privilégio, para não trazer para os estudantes uma expectativa tomando como referência as experiências que temos com a cor da nossa pele.”

Exemplos de propostas

De acordo com os professores, as possibilidades de trabalho transversal são muitas. “Na minha área, Códigos e Linguagens, é possível resgatar a contribuição africana para o Português brasileiro e incorporar paralelamente itens como comidas, dança e ritmos. Dessa forma, misturamos componentes como Educação Física, Arte, Dança, Língua Portuguesa e Literatura Africana, valorizando a contribuição do povo desse continente para a riqueza cultural do nosso país”, diz o educador Baltazar Nunes de Souza.

Na mesma linha, o monitor de vivências educativas Anderson de Jesus Rodrigues conta que, quando começou a trabalhar Educação Ambiental com transversalidade, abordou plantas e cultivos cujos conhecimentos foram trazidos pelos africanos, com foco em mostrar as potências e quebrar os estigmas sobre esse povo. Nessa perspectiva da potência, o professor salienta ainda a presença de pessoas pretas e pardas lecionando. “Com nossos corpos presentes dentro da escola, nos tornamos referências. Tornar-se negro é um processo doloroso por conta do preconceito. Eu comecei a usar meu cabelo [black] com 26 anos e quero ser exemplo para que o usem assim com dez, 12 anos. Alguns estudantes já disseram: ‘Vi que você usa assim e resolvi deixar meu cabelo crescer também’”, comenta.

Para Agda Ramos Nunes, educadora monitora de Danças, a centralidade no sujeito ilustrada pela mandala do PPP se entrelaça com a intencionalidade pedagógica em Educação Antirracista. “Tudo parte do planejamento: quem é esse sujeito estudante? Precisamos conhecê-lo para depois criar as atividades em cima disso”, reforça. “Como diz a autora Lélia Gonzalez, nós não nascemos pretos, nós nos tornamos pretos. Muitos estudantes aqui não se viam como meninas e meninos pretos, mas com as vivências envolvendo música, arte, pintura e tudo mais, eles passaram a se ver assim.”