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Jornalismo

Como trabalhar competências socioemocionais durante a recomposição de aprendizagens

Acolhimento, escuta ativa e estratégias para desenvolver o pertencimento e a participação dos alunos devem ir além do cenário pandêmico e ajudar na redução das desigualdades educacionais

PorCamila Cecílio

10/08/2022

Foto: Getty Images

Era mais um dia de isolamento social e ensino remoto durante a pandemia da Covid-19 quando Analine Maria Martins Parente, professora de Geografia do 6º ao 9º na Escola Antônio Custódio de Azevedo, em Sobral (CE), abriu o WhatsApp e leu a seguinte mensagem de um aluno do 8º ano: “Professora, eu não vou mais poder acompanhar as aulas porque a minha mãe vai cortar a internet aqui de casa e usar o dinheiro para comprar comida”. “Me doeu muito saber que ele, um menino de 13 anos, passava por essa situação”, lembra.

Dois anos se passaram, a escola retomou as atividades presenciais, mas a frase não só ficou impregnada na memória da educadora, como reflete um problema que, naquela época, ela já imaginava que teria no pós-pandemia: estudantes mais ansiosos e com uma carga emocional pesada para lidar. E não é para menos, afinal, o Brasil foi um dos países que mais tempo permaneceu com as escolas fechadas, situação que expôs estudantes — especialmente os de escolas públicas — ao risco de insegurança alimentar e a problemas relacionados à saúde física e mental.

Realizado pela consultoria Vozes da Educação em parceria com a Fundação Lemann, mantenedora da NOVA ESCOLA, o levantamento internacional “Boas práticas de saúde mental nas escolas” aponta que, se antes da pandemia esse tema era pouco discutido, hoje ele se torna absolutamente central. Mas como fazer isso levando em conta a recomposição de aprendizagens – ações adotadas para impulsionar o processo de ensino e aprendizagem que foi fortemente impactado pela crise da Covid-19? O ponto de partida é ter em mente que, para poder se reinventar e olhar para a Educação de forma mais significativa, não se pode deixar de lado o desenvolvimento de competências socioemocionais previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), uma vez que aspectos cognitivos e socioemocionais estão diretamente entrelaçados.

 

A perspectiva da Educação integral

Segundo Carol Campos, fundadora do Vozes da Educação e pesquisadora associada do Teachers College, da Columbia University, nos Estados Unidos, trabalhar as competências socioemocionais é uma forma de prevenir problemas de saúde mental. “Quando o estudante aprende a lidar com as suas emoções, nomeá-las e dizer para as pessoas o que está sentindo, cria-se uma condição muito maior de se proteger de problemas relacionados a ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, porque ele começa a falar mais sobre isso”, afirma. “No ambiente escolar, cabe à escola ser esse espaço de criação de vínculo, de ensinar habilidades não apenas técnicas e teóricas, mas também socioemocionais.”

A necessidade de incluir a dimensão socioemocional na aprendizagem — ou, no caso, na recomposição de aprendizagens — sempre existiu, mas ganhou novo sentido nas últimas décadas e, mais agudamente, ao longo da atual pandemia, de acordo com Simone André, consultora e especialista em Educação. Isso porque a Educação e a escola vêm sendo pressionadas pelos desafios contemporâneos de um mundo muito mais complexo, de modo que a formação dos estudantes não passa mais apenas pelo conteúdo, ou seja, por pensar o currículo como um conjunto de disciplinas ou áreas de conhecimento a serem estudadas, compreendidas e memorizadas.

A especialista observa que “estamos diante de um mundo onde encontrar seu lugar exige outro tipo de navegação”, que envolve autoconhecimento, diálogo profundo com as próprias emoções, propósito, projeto de vida, colaboração, empatia, cooperação, responsabilidade pessoal e coletiva e foco. Ela também cita fatores como determinação na busca de objetivos, capacidade de resolver problemas, criatividade, alta e precoce capacidade de escolha e muita abertura a diferenças, novos desafios e incertezas.

“Uma Educação integral e profunda só acontece na interação consigo, com o outro, com o projeto de vida e o novo. O que mudou é que não temos mais a opção entre fazer uma Educação conteudista ou integral. Hoje, ou a Educação é integral ou não é Educação”, ressalta. “Isso vale para os filhos de famílias que nunca tiveram seu lugar no mundo assegurado, por estarem sujeitos a múltiplas camadas de exclusão, e para os filhos de famílias privilegiadas, que, mesmo tendo muitas garantias, já não encontram mais seu lugar dado no mundo.”

 

Vínculos e aprendizagem significativa

Diante disso, a recomposição de aprendizagens também não pode mais ser entendida como uma versão da antiga e superada recuperação. “É preciso entendê-la como um caminho para desnaturalizar as crenças e práticas escolares que reforçam os fatores de exclusão e geram as defasagens e as desigualdades educacionais”, diz Simone. Para além da equidade, esse entendimento da recomposição inclui no processo educacional as dimensões socioemocionais que são importantes para ampliar e aprofundar as aprendizagens, tornando-as capazes de abraçar complexidades, incertezas, temores e diferenças.

Simone explica que a recomposição de aprendizagens em todas as etapas passa por dois movimentos simultâneos. Um deles é reconstruir os vínculos dos estudantes, em especial os mais vulneráveis à exclusão, com a escola, com os professores, entre si e com suas aspirações educacionais. O outro é oferecer, com base no referencial curricular local e nas necessidades de cada aluno, as aprendizagens essenciais de que precisarão para seguir aprendendo.

“O importante é entender que um movimento não acontece sem o outro. Ou seja, sem recompor vínculos, não haverá recomposição de aprendizagem acadêmica e vice-versa: sem aprendizagem acadêmica, o vínculo com a escola não ganha sentido”, acrescenta a consultora. Baixe, no botão abaixo, quais elementos indicam que o aspecto socioemocional está sendo cuidado na recomposição de aprendizagens.

Baixe aqui o material para diagnóstico

 

Carol, por outro lado, alerta que é importante não confundir competências socioemocionais com saúde mental. “A primeira é formada por competências e habilidades que podem ser ensinadas e trabalhadas dentro do currículo. Na prática, conseguimos ensinar para uma criança o que é autogestão, empatia e resiliência, por exemplo.” Mas, quando se fala de depressão, ansiedade, crise de pânico, automutilação etc., alcança-se outro lugar, o da saúde mental, e não cabe à escola se responsabilizar por esse tratamento. “Mas ela pode atuar na prevenção e fazer os devidos encaminhamentos”, destaca.

Impactos da pandemia no desenvolvimento socioemocional

Simone André, consultora e especialista em Educação, orienta sobre como lidar com essas questões

Após um primeiro semestre de retomada do ensino presencial, especialistas dizem que vivemos uma “segunda pandemia”, mas desta vez de cunho emocional. “As questões de saúde mental farão, cada vez mais, parte das experiências escolares e precisarão ganhar lugar na sala de aula, no convívio escolar, em casa. Os caminhos para lidar com isso são sistêmicos, ou seja, em parte estão nas mãos dos professores, mas também dos gestores escolares e das secretarias de Educação”, observa Simone. Confira algumas dicas da especialista:

 

  1. Para acolher os alunos, os educadores também precisam de suporte. Isso passa por terem espaços estruturados de proximidade e acolhimento entre si e com os gestores que, por sua vez, precisarão propor e mediar momentos de escuta, rodas de conversa e encontros informais para identificar as necessidades de apoio pessoal e de formação dos professores. Esses espaços também são essenciais para a construção de relacionamentos profissionais fortes e colaborativos e para acolhimento em situações de luto, doença, estresse, experiências traumáticas, sobrecarga de trabalho etc.
  2. Professores devem estar mais atentos e sensíveis, escutando e observando situações em que: os alunos passam a adiar ou não concluir as tarefas escolares; deixam de participar ou expor suas ideias e opiniões; isolam-se dos colegas; fogem das aulas ou se atrasam; demonstram cansaço durante as aulas; mostram-se distraídos por causa de ansiedade, preocupações e medos; apresentam dificuldade de concentração ou memória e parecem tristes ou deprimidos. Muitas dessas situações são corriqueiras, mas o fato de estar atento a esses sinais e demonstrar empatia, interesse ou preocupação costuma ter um efeito positivo na disposição emocional dos estudantes, ainda que não resolva diretamente o problema.
  3. Gestores e professores podem mapear e fortalecer os vínculos entre os estudantes e os adultos na escola, de modo que cada aluno tenha uma relação mais próxima com ao menos um adulto de referência. Isso é fundamental para assegurar o sentimento de pertencimento à escola e, consequentemente, favorecer a permanência e a aprendizagem.

Acolhimento e escuta ativa

A professora Fernanda Vaz Dantas, que atua com duas turmas de 1º ano na EM Haydee Colli Monteiro, em Londrina (PR), conta que, no ano passado, teve um aluno de sete anos que vivenciou todo o processo de adoecimento do pai, desde o teste positivo para a Covid-19 até a intubação e a morte. Depois disso, a família perdeu a casa onde vivia e teve de ir morar com parentes. Neste ano, ela recebeu uma aluna de seis anos que perdeu o pai em um acidente de carro e, logo em seguida, a avó, também para a Covid. “O luto tem sido vivenciado todos os dias nas nossas turmas.”

Desde que a escola voltou ao modelo presencial, Fernanda realiza círculos de diálogos que integram o Projeto V.I.D.A., lançado em 2020 pela Secretaria de Educação, a fim de garantir acolhimento aos estudantes da rede municipal. “Vimos que os alunos estavam trazendo de casa os medos e as perdas e passando por situações muito difíceis. O projeto nos ajudou a identificar isso”, recorda. Como parte da iniciativa, ela passou a dedicar um período das aulas de sexta-feira para ouvir as crianças, momentos em que os pequenos compartilham seus sentimentos com a turma.

Foi em uma dessas situações que sua aluna relatou que sentia muita falta do pai e da avó, e a professora notou que todas as crianças se comoveram com aquela dor. “Sem eu dizer nada, outros alunos se levantaram e a abraçaram, oferecendo palavras de carinho e força. Eles sabem que estamos em um ambiente seguro para as nossas emoções. Temos um pacto de respeito sobre a fala do outro, tudo é ouvido com muito carinho, e eles são muito solidários uns com os outros.”

A iniciativa deu tão certo que Fernanda percebeu que podia inserir esses momentos na rotina diária sempre que necessário, e não só às sextas-feiras. Assim, quando a criança tem necessidade de compartilhar o que está sentindo, o caminho para falar com a professora está sempre aberto. A educadora, por sua vez, pergunta se o aluno gostaria de dividir seus sentimentos com o restante da turma e, geralmente, a resposta é positiva.

De acordo com Fernanda, o acolhimento começou a ter impactos na recomposição de aprendizagens. Ao trabalhar com as turmas conteúdos de leitura e escrita, a professora vem percebendo que os alunos se sentem mais seguros e até mesmo mais concentrados durante as atividades. “Nosso lema é: nenhum a menos. Esperamos que todos aprendam para que possamos avançar juntos. Sempre digo a eles que é importante aprender a ler e a escrever não só para juntar letrinhas, mas para que consigam pensar sobre algo, concordar ou discordar etc. Eles têm consciência sobre o que aprendem e o que os colegas aprendem, no sentido de poder ensinar o que sabem e poder aprender o que não sabem com o outro. Isso é reflexo de um trabalho de escuta, cooperação, empatia, autoconhecimento e comunicação”, avalia.

Estratégias para promover competências socioemocionais durante e depois da pandemia

Confira sugestões dos especialistas ouvidos pela reportagem para proporcionar ambientes de aprendizagem seguros e desafiadores e trabalhar o pertencimento, a cooperação e a empatia entre os estudantes

  • Assegurar que todos os alunos tenham vínculo construído com um ou mais adultos que sejam sua referência no cotidiano;
  • Considerar os estudantes parceiros e interlocutores, convidando-os para participar das decisões e da resolução dos problemas que os afetam na sala de aula e na escola;
  • Estimular os estudantes a construir conhecimentos e soluções que eles considerem importantes para si e para o mundo;
  • Fortalecer a potência do professor e dos demais educadores para reconhecer o sofrimento (“Como você está hoje?”) em situações individuais ou coletivas, que podem se refletir em isolamento, solidão, ansiedade e agitação;
  • Ter cuidado para não usar narrativas prescritivas ou excesso de positividade (“Você pode! Tenha foco, seja protagonista!”);
  • Criar e planejar espaços e tempos estruturados e informais para prática de escuta ativa, como rotinas frequentes na escola e presentes a cada aula;
  • Propor momentos de convívio e divertimento para fortalecimento de vínculos – por exemplo, café da manhã, passeios, saraus e celebrações, incluindo os familiares;
  • Ter a resolução colaborativa de problemas como metodologia norteadora das reuniões pedagógicas, nas estratégias de aproximação com familiares e nas experiências de aprendizagem durante as aulas;
  • Cultivar um clima escolar e de sala de aula seguro, com regras claras e respeitadas por todos, além de construídas coletivamente, com a participação dos estudantes;
  • Envolver os estudantes no planejamento de situações e projetos de aprendizagem nos quais possam aprender a pensar, decidir e responsabilizar-se coletiva e colaborativamente;
  • Considerar o erro uma oportunidade de aprendizagem e valorizar a diversidade e a divergência de pontos de vista;
  • Conectar a aprendizagem ao projeto de vida dos alunos, estimulando que sonhem e busquem novos caminhos para si e para o mundo ao seu redor;
  • Expor os estudantes a processos de criação que mobilizem suas paixões e sua imaginação.

 

Espaço para todos e redução das desigualdades

Simone salienta que o acolhimento significa também oportunizar que todos os estudantes se percebam vinculados a adultos que têm altas expectativas sobre sua aprendizagem, que demonstram a eles confiança e desejo de que aprendam e se desenvolvam plenamente. Além disso, também é importante cultivar um clima escolar de estabilidade, rotinas, confiança, combinados, regras e aulas que sejam significativas, participativas e desafiantes, de forma que todos os estudantes tenham espaço e possam contribuir na construção do conhecimento.

É o que a professora Analine, de Sobral, vem fazendo com suas turmas dos Anos Finais do Fundamental, sobretudo desde que as aulas presenciais voltaram, em setembro de 2021. “De cara, identificamos que os alunos estavam tendo muitas crises de ansiedade e dificuldades de aprendizagem”, lembra. Por isso, uma de suas primeiras atividades foi pedir aos estudantes que elaborassem uma linha do tempo na qual tinham de contar os altos e baixos do período em que ficaram longe da escola. “Muitos relataram que tiveram casos graves de Covid em suas famílias, que foi muito difícil ficar em casa e aprender no ensino remoto, já que compartilhavam com outros familiares um único celular.”

No dia a dia, além de conversar em grupo e individualmente com os alunos, a professora sempre organiza as turmas para fazer atividades em duplas, normalmente formadas por um aluno que tem mais facilidade com o conteúdo e outro que tem menos, de maneira que o primeiro possa dar feedbacks em relação a se o colega está conseguindo assimilar a matéria. Ela explica que faz isso para estimular o trabalho em grupo e fortalecer a socialização e, também, porque é uma forma de colocar o estudante como aliado no processo de aprendizagem e ter um acompanhamento mais próximo dos que precisam de mais ajuda.

Simone André reforça que, no Brasil, a pandemia penalizou a todos os estudantes, mas ainda mais meninas pobres, não brancas e moradoras de áreas periféricas ou rurais. “As questões de gênero, cor, etnia, status social e geografia se apresentaram fortemente como fatores de exclusão. Desse modo, estes, mas também todos os estudantes, precisarão no curto, médio e longo prazos de recursos para lidar com os efeitos da pandemia na sua escolarização, em seus projetos de vida e, consequentemente, em sua saúde mental.”

Carol, do Vozes da Educação, enfatiza que é essencial lutar cada vez mais por políticas de saúde mental para todos. “Hoje, no Brasil, quem tem acesso a psicólogos, psiquiatras e outros profissionais que podem ajudar em um transtorno mental são pessoas ricas, geralmente brancas. Então, precisamos fazer com que a saúde mental seja algo acessível às pessoas de forma geral. Essa luta vai acontecer também por meio das escolas”, completa.

3 iniciativas para garantir a equidade na recomposição de aprendizagens

  • Conhecer o contexto e as necessidades de cada estudante, tirando da invisibilidade os que mais precisam de ajuda.
  • Cuidar para que esses estudantes sejam representados nos espaços e nas narrativas escolares, a partir do seu potencial, do seu lugar de fala e da aposta no seu direito de aprendizagem e na sua capacidade de aprender e se desenvolver.
  • Assegurar que as oportunidades criadas para acolhimento, pertencimento, escuta, colaboração e aprendizagem sejam significativas para esses estudantes, ou seja, dialoguem com suas identidades (quem são), seu projeto de vida (quem desejam ser) e sua criatividade (o que querem transformar).

  Consultoria pedagógica: Simone André, especialista em Educação integral e desenvolvimento socioemocional.