Desafie a meninada a organizar o mundo

O Brasil é desenvolvido, subdesenvolvido ou emergente? Qual a opinião dos alunos? O mapa abaixo apresenta 15 países, sete com classificação errada. Convide a turma a identificá-los e explore a regionalização do espaço

POR:
Fernanda Salla
Jogo dos 7 erros. Bruno Algarve e Marcos Rufino
Jogo dos 7 erros Levando em conta o panorama econômico de cada país e o cenário mundial atual, descubra quais estão classificados de forma equivocada e debata com a garotada os motivos, propondo a categorização correta. A resposta está no rodapé. Clique para ampliar

Organizar o território de acordo com algum critério é uma necessidade do homem. Ao separar o mundo em blocos, ele estabelece estratégias para, entre outros fins, estudar a paisagem, explorar a natureza e investir dinheiro em determinadas nações. "Em Geografia, regionalizar significa dividir em grupos", diz André Martin, chefe do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Atualmente, quando se fala em países subdesenvolvidos, emergentes e desenvolvidos, estão em jogo quesitos relacionados à economia mundial e como cada estado nacional se comporta em relação aos demais. Subdesenvolvidos são os que têm uma economia pobre. Emergentes os que estão em progresso econômico. E desenvolvidos, os ricos. Mas questões políticas já ditaram a regionalização do espaço até o fim do século 20 (leia a página seguinte).

Respondendo à pergunta do início da reportagem, desde 2001, o Brasil é emergente. Antes, era considerado subdesenvolvido. A troca aconteceu por causa de mudanças na economia mundial e ações internas, como o controle da inflação em meados dos anos 1990, que contribuíram para a ascensão econômica.

O termo emergente surgiu ao mesmo tempo que o conceito Bric (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China). A sigla apareceu pela primeira vez no estudo Building Better Global Economic BRICs (Construindo uma Economia Global Melhor, em português), apresentado pelo economista norte-americano Jim O’Neill em 2001. Ele afirmou que as quatro nações se tornariam as economias dominantes até 2050. Segundo Martin, o estudo já previa que os Brics teriam uma economia descolada dos países centrais do capitalismo, o que diminuiu os efeitos da crise financeira de 2008 nessas nações, apesar do impacto nos Estados Unidos e em grande parte da Europa. Isso fez com que o termo se consolidasse e os Brics formassem o grupo dos emergentes.

Discutir a lógica de cada tipo de regionalização

Conhecer esse panorama é importante para trabalhar a temática com os jovens. Eles precisam aprender sobre a organização do espaço para compreender as relações de poder e o status que os estados nacionais têm na ordem vigente. "O que acontece em um lugar do globo, mesmo sendo um evento de pequena escala, pode afetar outros. Estudar a questão da regionalização econômica permite que a turma observe o planeta de modo crítico", diz Nelson Pedon, coordenador do curso de Geografia da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), campus de Ourinhos.

Por isso, o foco das aulas não pode ser só ensinar como cada estado é classificado. A questão interessa para fomentar o debate, claro. Mas, como mediador do conhecimento, você precisa discutir questões abrangentes com os estudantes.

Vale questionar se essa proposta de classificação ainda faz sentido. Quando foi adotada, no século passado, ela tinha a ver com a industrialização - nações com muitas indústrias eram desenvolvidas, e as carentes no setor, subdesenvolvidas - e isso refletia o poderio econômico de cada estado. Hoje, isso tem se mostrado frágil: indústrias não são a garantia de riqueza. No mais, vários países da Europa, como França, Itália e Grécia, ditos desenvolvidos por muita gente, têm enfrentando uma série crise econômica, enquanto muitos emergentes estão em situação bem melhor. Martin ainda sugere estimular os jovens a relacionar o conceito de primeiro, segundo e terceiro mundo ao de subdesenvolvido, desenvolvido e emergente. "No decorrer da história, a denominação de caráter político passou a refletir aspectos econômicos e o terceiro mundo virou sinônimo de pobreza e subdesenvolvimento", diz ele.

Importante também é encaminhar os alunos a pesquisar sobre outras formas de regionalização do espaço que têm a ver com a economia e a sociedade. A Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, leva em conta o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos países. Nessa classificação, o Brasil aparece em 84º lugar, num ranking de 187 posições, o que significa que é considerado uma nação com desenvolvimento humano alto. Já o Banco Mundial divide o mundo em quatro grandes grupos desde os anos 1980, com base na renda nacional per capita: baixa renda (até 1,9 mil reais anuais), média baixa (até 7,4 mil), média alta (até 22,8 mil) e alta (acima de 22,8 mil). Segundo esse critério, o Brasil é considerado um território que apresenta renda média alta.

Trabalhando com questões como essas, você instiga os adolescentes a questionar os rótulos destinados às nações e a buscar suas implicações. Assim, eles ganham a oportunidade de se tornarem críticos em relação às categorizações adotadas, às relações travadas nos quatro cantos do globo e aos interesses que existem por trás delas.

Respostas corretas: Brasil - emergente. México - emergente. China - emergente. Grécia - desenvolvido. Taiwan - desenvolvido. África do Sul - emergente. Rússia - emergente.

A velha ordem mundial

A velha ordem mundial. Bruno Algarve e Marcos Rufino

Na época da Guerra Fria, por questões políticas, o espaço mundial foi organizado em primeiro, segundo e terceiro mundo. A divisão foi proposta pelo demógrafo francês Alfred Sauvy (1898-1990) no início dos anos 1950, com base em um paralelo entre o cenário da época e a Revolução Francesa (1789) (veja o mapa acima). Essa regionalização começou a degringolar por volta dos anos 1980, principalmente com o crescimento econômico da China e do Brasil. Não fazia mais sentido eles serem considerados do terceiro mundo. Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, o conceito de segundo mundo acabou e a classificação deixou de fazer sentido.

- Primeiro mundo - Países capitalistas. Comparados à aristocracia do Primeiro Estado francês do fim do século 18: Estados Unidos e aliados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

- Segundo mundo - Comparados ao clero da França. Nações socialistas. URSS e aliados na Segunda Guerra Mundial.

- Terceiro mundo - Comparados com a população pobre francesa, que emergiu politicamente depois da Revolução. Demais países livres, incluindo o Brasil.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias