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Jornalismo

Alfabetização matemática: o que priorizar no segundo semestre

Confira os quatro pontos que não podem ficar fora do seu planejamento

PorSelene Coletti

08/08/2022

Foto: Getty Images

A alfabetização matemática deve estar presente em nossa prática pedagógica para que os alunos aprendam a ler e a escrever a linguagem matemática como forma de entender o mundo que os cerca, para que saibam compreender, interpretar e utilizar seus símbolos, signos e sinais.

Alfabetizar na língua materna já pressupõe o letramento. Na Matemática não é diferente: esses dois processos devem andar juntos e ser o foco das atividades. Pensando nisso, trago quatro pontos a serem priorizados no trabalho com a alfabetização matemática nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental:

1. A qualidade do espaço da sala de aula

O educador italiano Loris Malaguzzi diz que o ambiente funciona como o terceiro educador. Essa premissa, em minha opinião, também se aplica à alfabetização matemática. 

No entanto, não pense que ter um ambiente alfabetizador seja encher as paredes de números e cartazes que ficam acumulando poeira. Ao contrário, é construir um ambiente no qual a turma possa interagir com diferentes portadores com função social: calendário, panfletos, régua de altura, quadro de números, relógio analógico, reta numérica, dentre outros. Conheça aqui 14 materiais que podem contribuir com as aprendizagens matemáticas.

A escolha dos materiais deve dialogar com o seu planejamento, pois eles devem servir de apoio para as crianças durante as atividades propostas. Dessa forma, os elementos ganham sentido e não estão lá apenas para “enfeitar”. 

Outro aspecto a ser pensado é a organização das carteiras na sala. Sabemos que dispor os alunos sentados um atrás do outro não permite a troca e a interação entre os pares nem estimula a participação. Se quiser um ambiente favorável à aprendizagem e que contribua com seus objetivos, reflita sobre essa disposição. Por exemplo, se vai trabalhar com jogos, o melhor é utilizar a formação em grupos de quatro alunos. Já se quisermos que a turma troque ideias para resolver uma situação-problema, organizar os alunos em duplas permitirá a negociação de estratégias. Quando a proposta é socializar os registros ou discutir coletivamente uma proposta, a melhor configuração é em forma de U. 

Você já havia pensado como esse aspecto de organização do ambiente pode contribuir para a alfabetização matemática? A sala de aula deve ser um espaço no qual a turma está imersa na linguagem matemática e na função social dessa área do conhecimento. 

2. A qualidade das propostas. As atividades propostas têm a ver diretamente com a concepção de aprendizagem e de ensino e com a perspectiva que temos da Matemática. 

Se acreditamos que o aluno é protagonista desse processo, traremos propostas nas quais a turma possa refletir em conjunto e construir o conceito que estamos querendo trabalhar. Dentro dessa ideia, o que seria melhor: completar números que faltam em um quadro numérico ou escrever uma sequência de um a cem? É evidente que a primeira opção, pois nele o aluno colocará em jogo os seus conhecimentos sobre a regularidade do quadro para completá-lo em vez de escrever mecanicamente os números.

Quando o objetivo é estudar os números ou desenvolver habilidades de contagem, precisamos trazer esse conteúdo de uma forma que se aproxime do seu uso social. A utilização dos jogos com dados permitirá trabalhar esses dois aspectos. A turma se envolve, encontra significado e aprende. Dessa forma, é fundamental pensar em propostas nas quais os alunos possam conectar os conhecimentos matemáticos à leitura de mundo e às suas vivências cotidianas.

Nesse sentido, o primeiro passo é ter bem definido o objetivo de aprendizagem para depois pensar na proposta, a qual deve permitir que o aluno utilize seus conhecimentos prévios e, com as interações e trocas em sala de aula, possa ampliá-los. 

É uma tarefa difícil, dado que exige refletir sobre aquilo que vamos propor levando em consideração a sala como um todo e as particularidades de cada aluno. Com base nessas reflexões, pensamos a atividade mais adequada para cada um – a qual, na grande maioria das vezes, não é igual à do colega. 

3. A intervenção do professor. Planejar boas propostas e boas perguntas para que a turma avance na construção do conceito a ser trabalhado é primordial! 

Isso requer intencionalidade para ampliar as aprendizagens dos alunos, o que, por sua vez, exige um bom planejamento e objetivos bem definidos. Essa intervenção implica também garantir momentos para ouvir as ideias dos alunos e, com base nelas, elaborar perguntas que os farão avançar – sempre respeitando o modo de pensar de cada um. Essa dinâmica possibilita estimular a oralidade e a argumentação. 

4. O investimento nas imagens. Trazer para a sala de aula o mundo das imagens contribui para a alfabetização matemática. Explorar tabelas, gráficos, diagramas, cartazes e panfletos contribui com as aprendizagens. 

Outro caminho é propor que a turma utilize o desenho como forma de comunicar as ideias e registrar a resolução das situações-problema. 

O desenho sempre esteve presente em minhas aulas, seja durante brincadeiras e jogos ou em outros tipos de propostas. Quando os alunos usavam o Paint no computador, os registros ficavam ainda mais cheios de detalhes. Veja só:

Os desenhos acima foram criados com base na brincadeira “Se eu fosse um robô”, que explorava noções de espaço em uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental. É possível perceber que no segundo há uma melhor organização do espaço ao registrar o caminho do robô e os obstáculos pelos quais passou. 

Enfim, pensar em propostas que alcancem os aspectos elencados aqui é pensar em situações de aprendizagem que coloquem os alunos no centro do processo de aprendizagem com a mediação de nós, professores. 

E em sua sala, como está caminhando a alfabetização matemática? Conte para mim aqui nos comentários.

Até a próxima!

Selene.

Selene Coletti é professora na rede pública há 40 anos. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por dez anos, lecionando do 1º ao 5º ano. Em 2016, foi uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio Gestão para o Sucesso Escolar, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil na Prefeitura de Itatiba (SP). Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.