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Jornalismo

Tematização da prática: como realizar formações aproximando teoria e o dia a dia da sala de aula

Proposta é que experiências didáticas sirvam de base para a reflexão e para a busca de referências teóricas, ajudando os professores a aperfeiçoarem o processo de ensino e aprendizagem

PorCamila Cecílio

13/07/2022

Ilustração: NOVA ESCOLA

Analisar experiências e situações vivenciadas em sala de aula para que possam ser utilizadas como reflexão sobre a atuação dos professores. Se alguma vez você pensou em utilizar essa ideia como estratégia formativa, é provável que já tenha ouvido falar sobre “tematização da prática”. A expressão, que pode causar certo estranhamento em educadores que não tiveram contato com essa metodologia, começou a ser praticada no Brasil na década de 1990. 

Mesmo que não seja tão popular, o conceito é simples: tematizar é olhar para algo e tratá-lo como um tema de reflexão, levantando teorias a seu respeito, o que faz com que a tematização seja, por vezes, chamada de teorização. Já “da prática” consiste basicamente em analisar as atividades didáticas em sala de aula para estudar as teorias que vão ajudar os professores a perceber as intervenções necessárias para o processo de ensino e aprendizagem. Com isso, os educadores veem que prática e teoria estão interrelacionadas. 

“A tematização é uma boa estratégia para ser utilizada na formação de professores, porque o coordenador pedagógico consegue fazer um diagnóstico das dificuldades que podem ser comuns entre os docentes. Para esse registro, o coordenador pode observar as atividades que foram planejadas, fazer anotações ou gravar trechos das aulas”, afirma Elisa Vilalta, formadora da rede de Maceió (AL) e integrante do time de formadores da NOVA ESCOLA.

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Observar para intervir assertivamente

Elisa cita como exemplo uma situação hipotética em que estudantes do Ensino Fundamental não tiveram bom desempenho nas avaliações mensais. “Começamos a pensar porque eles não foram bem. Ao observar a prática do professor em sala de aula, é possível detectar que os alunos não estavam compreendendo bem o que estava sendo trabalhado, pois o professor só explica e não passa atividades práticas”, aponta. “Ou o contrário: só há atividade prática, e nenhuma teoria. Então, quando o coordenador observa as aulas, ele consegue detectar esses pontos que podem ser comuns a outros professores e trazidos para conversas semanais ou para a formação em grupo.” 

A tematização da prática pode ser utilizada em vários momentos, a partir de uma necessidade que o coordenador pedagógico identifica, seja por meio de resultados de avaliações, de conversas com os próprios docentes, de temas pertinentes com a prática de sala de aula ou no dia a dia da escola. 

A especialista conta que alguns professores trouxeram para ela a necessidade de aprofundar o conhecimento em uma determinada trilha de aprendizagem que estavam trabalhando. “Como eu sei até que ponto eles sabem? Entro na sala de aula e assisto a como estão aplicando essa trilha de aprendizagem para, depois, pensarmos no que está dando certo ou não, que visão equivocada sobre o tema pode [eventualmente] estar sendo utilizada. Então, eu vejo como posso ajudá-los a compreender o que são trilhas de aprendizagem e a utilizar a metodologia de forma mais assertiva, para que gere resultados para os alunos”, complementa.  

7 dicas para utilizar a tematização da prática e evitar erros comuns
A formadora Elisa Vilalta orienta como levar a metodologia para uma formação de professores 

  1. Sem julgamentos. O erro mais frequente — e também o que parece mais assustar os professores quando o assunto é tematização da prática — é o julgamento. Isso ocorre quando o coordenador pedagógico deixa claro que está ali para assistir à aula e depois, na devolutiva, diz o que estava certo ou errado, foca principalmente no que não estava bom e, pior ainda, não traz sugestões de como melhorar. Isso é muito grave porque o coordenador perde totalmente a possibilidade de parceria com o professor nesse momento. A intenção ao fazer uma tematização da prática não deve ser julgar, mas ajudar.
  2. Evite tematização aleatória. Para fazer uma tematização da prática, o coordenador precisa ter um objetivo específico, isto é, saber por que está ali. Portanto, é um equívoco entrar na sala de aula do professor de forma aleatória. “Não podemos entrar na aula só para ficar anotando e depois não dar nenhuma devolutiva. O professor precisa ter um feedback do que foi observado, pois trata-se de uma construção conjunta de planos de ação a partir da observação do gestor”, reforça Elisa.
  3. Seja parceiro dos professores. O coordenador pedagógico precisa ser uma pessoa confiável, com quem o professor sabe que poderá contar e encontrar apoio. Sem essa porta aberta, pode ser que os problemas e dificuldades não cheguem à coordenação. “Essa confiança que o professor precisa ter na figura do coordenador é muito importante. Só conseguimos isso sendo claros, objetivos, mostrando o que estamos fazendo na sala de aula e explicando o porquê da observação. Isso fortalece a parceria e desconstrói a ideia de que o gestor está ali para julgar”, diz a especialista.
  4. Conheça o planejamento do professor. Antes de partir para a observação em sala, é sempre bom estar a par do planejamento do professor para saber quais são os objetivos daquela aula, como ele trabalhou com os alunos, quais recursos foram utilizados e se foram adequados ou não. Com isso, é possível fazer uma análise mais apurada daquilo que será observado.
  5. Convide o professor a fazer uma autoanálise. É interesse que o professor também possa fazer uma autoanálise da sua prática, refletindo se considera que os objetivos da atividade foram alcançados. Assim, ele consegue ter consciência do seu trabalho, inclusive das dificuldades com determinados temas.
  6. Coordenador pedagógico não precisa saber tudo. “Quando observamos uma prática, precisamos falar sobre ela com conhecimento teórico. A partir daí, buscamos referências bibliográficas, estudamos sobre o assunto para selecionar materiais que possam ser compartilhados com os professores e assim por diante”, explica a especialista. “Mas é sempre bom lembrar que não adianta a gente achar que sabe tudo e inventar soluções mirabolantes.”
  7. Só a tematização não é suficiente. É indispensável que a escola ofereça formações continuadas com diferentes estratégias formativas, afinal, só a tematização não dá conta de tudo. É recomendável promover momentos em que os professores possam, coletivamente, trocar experiências, estudar e se aprofundar em determinados temas, colocando a mão na massa e voltando ao lugar de aluno.


A prática docente em tempos de pós-pandemia

Após dois anos de pandemia, nos quais estudantes e professores enfrentaram desafios diversos durante o isolamento social e o ensino remoto, a tematização da prática pode ser uma grande aliada para toda a equipe docente. Ainda mais porque, com o retorno das aulas presenciais, ficou evidente que os impactos foram muitos e tendem a continuar reverberando tanto para os alunos quanto para os educadores, especialmente no que diz respeito à aprendizagem. 

Por isso, é crucial que, neste momento de tantas adaptações, o coordenador pedagógico atue em parceria com os professores. “Mais do que nunca, é bom a gente entrar na sala de aula, deixando claro o nosso objetivo ali, e trabalhar com o professor, trazendo teorias que podem dar suporte ao seu trabalho. Está sendo um momento de muitas dificuldades, e percebo no dia a dia que eles mesmos [os professores] têm pedido ajuda”, destaca Elisa Vilalta. 

Juliana Fattori, coordenadora pedagógica da EMEB Philomena Salvia Zupardo, em Itatiba (SP), compartilha das mesmas percepções. Há cinco anos atuando com professores dos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental, ela diz que esse é o momento em que a tematização da prática se faz mais necessária, frente às lacunas deixadas pela pandemia. Tanto que essa estratégia formativa entrou em pauta assim que as aulas presenciais foram retomadas, e não demorou para que o primeiro problema fosse identificado. 

“Percebemos que tanto os alunos dos Anos Iniciais do Fundamental quanto os dos Anos Finais voltaram para a escola de forma muito individualizada, em decorrência do isolamento. Eles estavam com dificuldades de trabalhar em grupo e de compartilhar ideias e estratégias dentro da sala”, lembra. Juliana constatou a situação a partir das informações dos semanários (documento com o planejamento das atividades específicas para a semana) enviados pelos professores para a coordenação. 

Após identificar a questão, a coordenadora partiu para a observação em sala, o que não foi um problema, já que tem uma relação de parceria e bastante diálogo com todo o grupo. Geralmente, na tematização da prática, as aulas podem ser gravadas, mas não foi o caso de Juliana. Com um bloco de anotações, ela acompanhou atentamente as aulas de alguns professores para verificar como as atividades em grupo estavam sendo realizadas e quais estratégias eles usavam.

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Levantamento das necessidades dos professores
Com as anotações e informações levantadas, Juliana viu que levar o assunto para a formação era, de fato, uma necessidade e que a “mão na massa” poderia ajudar os professores. Daí a escolha pela tematização. “Eu queria propor algo mais prático e dinâmico para que todos pudessem refletir sobre uma questão presente nos dois segmentos. Assim, pensei justamente em realizar com eles uma atividade em grupo”, relata. 

Os professores receberam fichas recortadas em diferentes formatos e depois foram divididos em pequenos grupos, de modo que cada um tinha de formar um quadrado a partir dessas peças. Para isso, eles teriam de trocar figuras entre si. A coordenadora comenta que a experiência foi interessante porque pôde ver os comportamentos e práticas docentes que se refletem em sala de aula, no sentido de que alguns professores estavam mais abertos a dialogar, enquanto outros estavam mais fechados e receosos. 

“Ao final, abrimos para a discussão a fim de mostrar a importância da parceria, das trocas, das estratégias, de como encontraram formas de trocar as peças para fazer essa montagem. A partir dessa atividade e das discussões teóricas, os professores começaram a ter um olhar diferenciado, pensando nas atividades em grupo ou em duplas, pois vivenciaram isso na prática”, frisa Juliana. 

Elisa enfatiza a importância de, ao planejar a formação com a tematização da prática, realizar um levantamento das necessidades dos professores, assim como a coordenadora Juliana fez. “É interessante entrar na sala de aula, observar, analisar o que está sendo feito pelo professor em determinada atividade e identificar tais necessidades.” 

Contrato didático e reflexão constante
A coordenadora pedagógica Ana Cristina Gazotto tem quase 30 anos de experiência como educadora e usa a tematização da prática desde 2006, quando fez parte de um grupo de estudos com Telma Weisz, uma das maiores especialistas em Educação no país e pesquisadora da metodologia. Atualmente, a gestora atua com professores do Ensino Fundamental na EMEB Professora Regina Maria Tucci de Campos, em Mogi Mirim (SP), e utiliza a estratégia a partir da identificação do que está sendo recorrente em mais de uma sala de aula. 

Neste ano, a tematização foi usada com os professores durante o horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC), depois que ela constatou que os alunos do 1º ao 5º ano não estavam avançando na produção textual. Ana Cristina identificou que os educadores não tinham o hábito de trabalhar a revisão de texto enquanto produziam a reescrita com as turmas. “A revisão faz parte da reescrita, e há muitos aspectos para serem revisados, como ortografia, pontuação, coerência e recursos coesivos, repetições, marcas de oralidade etc. Revisar texto é um conteúdo procedimental que o professor precisa ensinar e, para isso, precisa ter situações didáticas.” 

A coordenadora foi então para a sala de aula observar e filmar a prática dos professores. Ela conta que, para fazer isso, é sempre interessante firmar um “contrato didático” em que todos estão cientes de que não é o professor que será analisado, mas sim a atividade. “Precisamos sempre lembrar que o coordenador deve ser parceiro do professor e que ele não está ali para criticar. Por isso, também não deve chegar ‘no flagra’. É fundamental conversar sobre o que será observado naquela aula”, sugere. 

Feito isso, Ana Cristina combinou com uma professora que ela faria a revisão de um dos textos produzidos pelas crianças, em parceria com toda a turma, enquanto a prática era gravada. Depois, a coordenadora selecionou algumas partes para levar para o momento de HTPC e fazer apontamentos, exemplificar quais intervenções poderiam ter sido feitas etc. Antes de apresentar os trechos da aula, ela já tinha algumas questões disparadoras prontas para todo o grupo. “Preparar essas perguntas é como dar óculos para os professores enxergarem o que eu quero que eles vejam”, compara. 

Depois da vivência, as propostas de reescrita passaram a ser mais elaboradas, mas Ana Cristina destaca que é preciso manter a chama acesa, do contrário as novas aprendizagens podem se perder. “É por isso que chamamos de formação continuada. Não é porque eu tematizei a prática que eles se apropriaram, é um processo, afinal, ninguém aprende tudo de um dia para o outro”, ressalta. Mesmo assim, a tematização é uma de suas estratégias preferidas, pois dá sentido à teoria. “Prática sem teoria é achismo, e teoria sem prática não funciona. A tematização da prática faz a teoria ir para o chão da escola”, completa. 

Para Juliana, a tematização da prática como estratégia de formação é algo que traz benefícios para todos. “É muito importante porque começa com os professores refletindo sobre suas práticas e estratégias. Uma vez que levamos o professor a refletir sobre determinado assunto, sua prática pedagógica melhora, e isso se traduz na aprendizagem [dos alunos].” 

Para ajudar no planejamento de uma formação utilizando a tematização da prática, preparamos um roteiro formativo elaborado pela consultora Aline Soares. Confira: 

Consultoria pedagógica: Aline Soares, educadora e formadora de professores.

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