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Jornalismo

Mentalidades Matemáticas: reflexões e sugestões para mudar o nosso olhar para o componente

Com base no livro de Jo Boaler, entenda como podemos planejar e desenvolver aprendizagens mais significativas

PorSelene Coletti

11/07/2022

Foto: Getty Images

Aproveitando que um novo semestre está começando, trouxe algumas reflexões interessantes com base no livro Mentalidades Matemáticas: estimulando o potencial dos estudantes por meio da matemática criativa, das mensagens inspiradoras e do ensino inovador, de Jo Boaler. Já o citei quando conversamos sobre argumentação como inspiração para mudar nosso olhar para o ensino e a aprendizagem da Matemática.

A autora do livro possui um extenso currículo. Ela é professora de Educação Matemática na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, analista do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), autora de outros nove livros e uma das idealizadoras do site youcubed, disponível também em língua portuguesa (a plataforma oferece sugestões e materiais para professores e famílias estimularem o desenvolvimento das aprendizagens matemáticas).

O que são “Mentalidades Matemáticas”

O conceito está ligado às pesquisas de Carol Dweck, psicóloga estadunidense, e sua equipe sobre mentalidades. Eles identificaram que “todas as pessoas têm uma mentalidade, uma crença essencial sobre o seu modo de aprender. As pessoas com mentalidade de crescimento acreditam que a inteligência aumenta com trabalho árduo, ao passo que aquelas com mentalidade fixa acreditam que você pode aprender coisas, mas não pode mudar seu nível básico de inteligência” (p. 12 de Mentalidades Matemáticas, de Jo Boaler).

Isso reflete na forma de aprender e ensinar Matemática. Ou seja, se eu acredito que é algo complexo e sem conexão com a realidade, baseado em respostas certas e erradas, terei imensa dificuldade de aprender. Essa constatação foi comprovada por Jo Boaler. Aliás, neste espaço já conversamos sobre como a forma que vemos e nos relacionamos com a Matemática influencia diretamente a forma como a ensinamos.

No entanto, pesquisas mostram que é possível mudar nossa mentalidade e redirecionar as rotas de aprendizagens. Nós, professores, temos um papel importante para que essa mudança ocorra. Somos responsáveis por criar, ou não, ambientes que estimulem a Matemática e despertem o interesse e as curiosidades de nossos alunos.

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Considerações

O primeiro ponto que destaco são os estudos relativos à plasticidade cerebral, que mostram que o cérebro pode crescer e mudar em um curto período de tempo. Quando aprendemos algo novo, nosso cérebro dispara uma espécie de corrente elétrica que interliga diferentes áreas. Se a aprendizagem é significativa, as conexões criadas são duradouras. Se é superficial, as conexões podem ser apagadas.

Um dos resultados obtidos em pesquisas na área da neurociência mostra que o cérebro dos participantes foi reprogramado a partir da realização de uma tarefa mental de dez minutos durante 15 dias. Imagine quanto podemos fazer em um ano letivo!

Essa descoberta nos leva a refletir sobre os tipos de proposta que levamos para nossos alunos e se elas permitem que avancem e aprofundem suas aprendizagens.

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E quais atividades são essas?

As tarefas precisam ser desafiadoras, mas possíveis para o nível de conhecimento da turma. É possível pensar em propostas com diferentes graus de dificuldade para contemplar a heterogeneidade da turma. O trabalho em grupos, com a organização de agrupamentos produtivos, também é interessante para estimular as trocas entre os alunos e a aprendizagem colaborativa.

Nessa dinâmica, uma orientação é sempre pedir que o aluno explique “por que a solução encontrada faz sentido”. Eles podem responder por meio de um desenho ou escrevendo. Boaler propõe no livro a criação de um jornal informativo no qual eles poderão descrever como entenderam as ideias matemáticas e por que elas são importantes.

Os questionamentos devem estar presentes em sua rotina, seja com perguntas dos alunos ou intervenções suas. A especialista estadunidense propõe: “Sempre faça perguntas, sempre responda às perguntas. Pergunte a si mesmo: por que isso faz sentido?” (p. 247).

Outro ponto que ela ressalta é o papel do dever de casa. Para ela, devemos mudar a natureza das tarefas e oferecer exercícios que “os incentive a pensar na Matemática da aula e focar as ideias fundamentais, que sabemos serem uma orientação importante para a aprendizagem” (p. 94). Trago um exemplo que se encontra no livro Mentalidades Matemáticas, na página 203, e que certamente será uma fonte de inspiração: 

MEU DEVER DE CASA, MINHAS REFLEXÕES

- Qual foi a principal ideia que você aprendeu hoje?

- Em que você teve dificuldades ou dúvidas?

- Como as ideias da aula de hoje poderiam ser aplicadas na vida?


Um quarto ponto de destaque é o olhar para o ambiente da sala de aula. Ele deve estar pautado no respeito entre professor e alunos e ser um espaço de constante diálogo, onde todos podem expor suas ideias e opiniões sem medo de serem criticados, de forma explícita ou implicitamente. Para nós, professores, é um exercício aprender a ouvir e entender o raciocínio trazido pelo estudante.

Por último, ela destaca o olhar para o erro como parte do processo de aprendizagem: os estudantes não podem ter medo de errar. Uma estratégia para facilitar essa compreensão é que os equívocos possam ser compartilhados e discutidos para que todos entendam por que algo não é de determinada forma. É uma oportunidade para aprender e promover o crescimento cerebral.

Tudo isso mostra que é possível mudar o olhar para nossos estudantes. Todos podem aprender Matemática, ninguém é mais ou menos inteligente que o outro, mais esperto ou mais lento. Assim, coloca-se a Matemática em um lugar especial, em que ela é “ensinada como uma disciplina aberta e criativa, relacionada a conexões, aprendizagens e crescimento” (p. 19).

E então, aceita o desafio de mudar sua concepção e de seus alunos sobre a Matemática?

Um abraço e até a próxima!

Selene

Selene Coletti é professora na rede pública há 40 anos. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por dez anos, lecionando do 1º ao 5º ano. Em 2016, foi uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio Gestão para o Sucesso Escolar, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil na Prefeitura de Itatiba (SP). Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.

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