Compartilhe:

Jornalismo

Anos Iniciais: o que levar em conta ao avaliar a aprendizagem dos alunos

Professores e especialistas falam sobre a importância desse processo ser multidimensional para garantir o desenvolvimento integral dos estudantes do 1º ao 5º ano

PorCamila Cecílio

22/06/2022

Crédito: Getty Images

Nos dicionários, avaliar tem diversas definições: “fazer análise de (algo), pesando suas vantagens e desvantagens; estimar, calcular; atribuir valor ou preço a; examinar conhecimento adquirido por (para conferir peso ou nota); e reconhecer a grandeza, a intensidade, a força de” são alguns exemplos. Já na escola, avaliar deve ter um significado comum a todos os educadores: buscar melhorias no processo de ensino e aprendizagem. Em termos mais pedagógicos, trata-se de evidenciar aprendizagens para a tomada de decisões em relação aos processos de ensino e aprendizagem. 

É o que defende Kátia Chiaradia, pesquisadora nas áreas de Literatura e Educação e consultora de materiais de NOVA ESCOLA. “Não importa qual seja a avaliação ou o tipo de contexto, avaliar sempre significa analisar dados para pensar em intervenções, ou seja, em melhorias para o desenvolvimento integral dos estudantes.” 

Mas  avaliar não é uma missão fácil para os professores, ainda mais nos Anos Iniciais (1º ao 5º ano). É quando ocorre a transição da Educação Infantil e depois para os Anos Finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano), e o que está em jogo é a ampliação de repertório das aprendizagens cognitivas, além da compreensão básica dos conhecimentos. 

“Quando colocamos na mesa tudo que se trabalha nos Anos Iniciais, percebemos que, quando bem feito e embasado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estamos falando de um trabalho multidimensional. Se ele tem muitas dimensões, isso significa que precisa ser avaliado de diferentes maneiras”, enfatiza a especialista. 

Kátia explica que quando o professor apresenta um plano ou uma sequência didática e propõe avaliações, seja de aspectos socioemocionais, de aplicação do conhecimento, de oralidade, de produção escrita ou de pesquisa, são diferentes competências e habilidades que os alunos desenvolvem ao longo do caminho, o que faz esse processo ser multidimensional. 

No dia a dia, alguns estudantes vão se sair melhor na pesquisa escrita na biblioteca, enquanto outros, na pesquisa na internet, no desenho, na comunicação oral e assim por diante. “Propor diferentes avaliações e fazer com que sejam multidimensionais é respeitar a integralidade dos alunos e, principalmente, as várias infâncias e as várias juventudes que encontramos nas nossas salas de aula”, reforça a consultora. 

Diagnosticar para planejar e critérios de avaliação 

Vencedora do Prêmio Educador Nota 10 de 2020, Rita Marta Mozetti Silva sempre levou esses aspectos em consideração na hora de avaliar a aprendizagem dos seus alunos, mas não foi um caminho simples. A professora polivalente esteve em sala de aula até o ano passado com uma turma de 5º ano e hoje atua como coordenadora pedagógica na Secretaria de Educação de Franca (SP). Para ela, antes de qualquer coisa, o professor deve entender que a avaliação é um ciclo e que está a serviço do conhecimento. 

“Tudo começa e termina na avaliação. O professor precisa, primeiro, diagnosticar, interpretar e compreender os dados e não guardá-los para si, afinal, tais informações estão a favor do trabalho que será desenvolvido. Com esses dados, é possível traçar um perfil da turma, de modo que tanto os saberes quanto os não saberes passam a ter nomes, e a partir disso elaborar um plano de trabalho”, afirma. Ela diz que os maiores desafios são entender o que esses dados querem dizer e o que eles mostram e planejar para os alunos partirem dos saberes que já têm. “Se o professor não souber o que os alunos já sabem, não consegue planejar.” 

A professora observa que hoje o foco é a aprendizagem, mas que não se pode perder de vista a “ensinagem” (como o professor vai ensinar e mediar o ensino para que o aluno avance nos conhecimento que já tem), o que só é possível se a avaliação estiver de acordo com a turma em questão. O grande ‘x’ da questão é  ter claro qual concepção de avaliação se segue em determinadas situações e, claro, definir os critérios. 

“Eu sempre tive a necessidade de querer mostrar para meus alunos aonde nós vamos chegar. Eu estabelecia com eles, por exemplo: ‘vou avaliar vocês por meio de uma produção de texto’. Daí perguntavam: ‘mas, professora, o que você vai me cobrar? Então, eu falava quais eram os critérios, ou seja, o que eles não poderiam deixar de contemplar nessa produção de texto. É como se tivesse um roteiro para eles seguirem: nessa produção de texto serão avaliados a criatividade, se colocou título e se está de acordo com o que escreveu, se os parágrafos estão interligados, se tem coerência e coesão”, conta.

Luciane Palma, coordenadora pedagógica da Secretaria de Educação de Campinas (SP) e pesquisadora doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pontua que, para elaborar uma boa avaliação, é importante que o professor tenha em mente o que ele pretende avaliar e como os resultados que ele obterá vão contribuir para o planejamento (ou replanejamento) de situações de aprendizagem com os estudantes.

“É sempre válido considerar que não há uma única forma de ter acesso aos saberes dos alunos, e o próprio cotidiano escolar é rico em demonstrar ao professor as características de cada um de seus estudantes. Uma conversa sobre algum assunto, a forma como cada um se relaciona com determinada proposta, com um jogo, com um poema, com uma situação problema, etc. Isso quer dizer que um único instrumento não dá conta da complexidade que envolve os conhecimentos e saberes dos alunos”, ressalta.

Diversidade de conhecimentos e saberes

O professor polivalente Helder Guastti da Silva também tem enfrentado muitos desafios para avaliar suas duas turmas de Anos Iniciais. O educador dá aulas para alunos do 5º ano na EMEF Pedro Nolasco, em João Neiva (ES), e do 3º ano na CMEB Mário Leal Silva, em Aracruz (ES). 

Ele conta que a maior barreira é o próprio sistema educacional que, muitas vezes, acaba impondo limitações aos professores, como a prova escrita como único instrumento avaliativo. Por isso, aposta na diversidade de suas turmas para avaliar, afinal, cada um tem suas características e peculiaridades, ainda mais nesse pós-pandemia. 

“Eu vejo que a heterogeneidade que já existia em sala ficou ainda mais gritante com a pandemia. As dificuldades se multiplicaram, e as ferramentas avaliativas deveriam ter se tornado mais amplas também, mas o sistema parece não entender isso. Na rede em que eu trabalho com o 5º ano, só voltamos ao presencial neste ano, sem considerar os dois anos de pandemia, pois praticamente não tivemos ensino remoto aqui. Então, eu fico pensando em como avaliar uma criança que nem está alfabetizada no 5º ano”, desabafa o professor, que foi um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2022. 

Não existe uma resposta pronta para a dúvida de Helder, mas ele segue o que recomendam os especialistas e tem avaliado de acordo com o que cada aluno consegue alcançar, com critérios estabelecidos. “A rede pede para avaliar por escrito, mas eu considero também o dia a dia em sala, dentro das limitações de cada um e de acordo com o nível de aprendizagem. Levo em consideração produções em grupo em  duplas, trabalhos, registros e compartilhamento de opiniões sobre os mais diversos assuntos, expressão oral, leitura em voz alta e estudo de caso. Debates, diálogos e rodas de conversa sempre rendem muito, principalmente em Ciências, Geografia e História”, explica. 

No começo do ano, Helder tinha planejado desenvolver em Língua Portuguesa um projeto baseado em leitura literária mas, ao se deparar com as dificuldades da turma, mudou o planejamento e optou por repertoriar as crianças com narrativas de diversos gêneros e em suportes diferentes, com interpretações mais robustas em sala. Somente no segundo trimestre, ao perceber o avanço dos alunos, ele começou a colocar em prática o projeto, que consiste em se aprofundar na obra do escritor Ricardo Azevedo. 

“Começamos o projeto de leitura, e eles estão amando mais do que eu imaginava. A ideia é realizar as leituras em sala, trazer pessoas da comunidade e familiares para participar, fazer produções escritas e autorais e, ao final, criar um livro de contos da turma”, relata. “O que tem me pegado muito ainda é a Matemática. Estou tendo que retomar conteúdos de 1º e 2º ano e experimentando o que dá certo com a turma, mas tem sido um eterno replanejamento.” 

O que ter em mente ao elaborar uma avaliação nos Anos Iniciais 

1. Avaliar o cumprimento da tarefa com objetivos e critérios bem definidos;

2. Verificar se a forma como o estudante desenvolve a atividade, na resolução de um problema de Matemática ou o gênero usado pelo aluno em uma atividade de Língua Portuguesa, são condizentes com o que o professor espera;

3. Considerar o engajamento do estudante a partir de critérios pré-estabelecidos;

4. Avaliar a clareza e a coerência na expressão (escrita, oral, visual, multissemiótica) de sua produção

5. Avaliar a postura científica do aluno frente ao erro – por exemplo, se ele percebe o erro como uma nova oportunidade.

Aprendizagens socioemocionais 

O professor Helder salienta que, mais do que pensar em qualquer lista de conteúdos, a questão socioemocional dos alunos é crucial no processo avaliativo. “Vejo que algumas crianças estão mais retraídas e muito mais dependentes. Então, é fundamental ter um olhar sensível, enxergar os estudantes como seres humanos, olhar nos olhos, se abaixar. Se não conhecermos a nossa turma, como vamos avaliar? Para mim, o que faz sentido enquanto professor é saber que no dia a dia a criança está sentindo prazer em aprender.” 

Para a professora Rita, as competências socioemocionais sempre foram importantes, mas nunca tão evidentes e necessárias quanto agora. “Estamos preocupados com a recomposição de aprendizagens, que é sim essencial, mas não existe aprender Matemática e ir bem em uma prova de Língua Portuguesa, por exemplo, se o socioemocional não estiver em dia. Se não pensarmos agora na saúde mental das crianças, a recomposição de aprendizagem não vai durar três ou quatro anos, vai levar muito mais”, alerta a educadora. 

Kátia Chiaradia reforça que as aprendizagens socioemocionais devem ser consideradas na hora de construir instrumentos avaliativos para os Anos Iniciais. “Professores dos Anos Iniciais, por serem pedagogos, estão muitíssimos preparados para fazer avaliação do desempenho socioemocional e socioafetivo dos alunos. Como são polivalentes, eles sabem um pouco sobre cada uma das ciências.” 

Objetos de conhecimento e objetivos de aprendizagem

Ainda que tenha um olhar para a questão socioemocional, a BNCC é bastante rígida na questão dos objetos de conhecimento. Ela  exige certa dedicação científica em todos os componentes, o que, de acordo com Kátia, é algo desafiador para a maioria dos professores de Anos Iniciais, dada a sua formação e o perfil dos currículos de Pedagogia no Brasil. “Então, se fosse possível definir apenas dois elementos que não podem faltar na avaliação seriam: a avaliação dos saberes científicos ao lado da avaliação das socioemocionais.”  

A especialista também destaca a importância de avaliar com foco nos objetivos de aprendizagem. Ela observa que, no caso de Língua Portuguesa, por exemplo, existem aprendizagens que são desenvolvidas ao longo de cerca de cinco anos e, por isso, é importante olhar para as habilidades pensando em etapas que, na verdade, são os objetivos de aprendizagem. 

“Quando a gente diz para a criança que ela precisa se mostrar interessada em leitura, isso vai acontecer no 1º ano, quando ela mal lê listas e legendas de fotos, no 3o ano, ao ler receitas e fábulas, até chegar a textos mais complexos no 5º ano. Isso significa então que não tem como a gente trabalhar certas habilidades em um ano, menos ainda em uma única aula”, diz Kátia. Ela explica que toda habilidade tem etapas que são chamadas de objetivos de aprendizagem. E que fazer uma avaliação pautada em objetivos de aprendizagem é, portanto, fazer uma avaliação com foco no caminho. “A gente consegue identificar no caminho qual ponto precisa ser mais cuidado.” 

Katia complementa que as habilidades são muito amplas, e é importante que os professores atentem se cada uma das etapas daquele caminho, ou seja, os objetivos dentro dessas habilidades, foram desenvolvidos pelos estudantes. Por que se um não foi, possivelmente a deficiência no aprendizado dessa habilidade, que tende a ser pré-requisito para outra, vai trazer dificuldades para a criança. 

“É importante avaliar por meio de objetivos de aprendizagem para que a gente possa localizar o passo a passo, o detalhe e os pequenos aprendizados do processo mais longo de desenvolvimento de aprendizagem. E também para conseguir localizar e sanar qualquer problema, qualquer lacuna, em especial aquelas que venham a gerar pré-requisitos para aprendizagens futuras. E, no caso dos Anos Iniciais, isso diz respeito, praticamente, a  todas as habilidades”, afirma. 

Como dar boas devolutivas e feedbacks formativos
Especialistas entrevistadas nesta reportagem sugerem algumas práticas 

Segundo Kátia Chiaradia, é importante que o professor tenha muito claro quais critérios ele quer avaliar. “Um exercício muito simples para mim, enquanto professora, é redigir aquilo que eu espero que o meu estudante faça. Redigir um texto, uma resposta para uma pergunta ou mesmo elaborar uma resposta oral. E dessa minha expectativa, vou elencar os elementos que considero mais importantes e criar critérios de avaliação a partir desses pontos principais”, exemplifica. “Ter clareza daquilo que eu vou buscar na avaliação é a maneira mais eficiente de dar um bom feedback formativo.” 

De acordo com a educadora, outro aspecto interessante, mas que demanda praticar muito a criação de rubricas, grades ou expectativas de respostas, é fazer uma boa distribuição em etapas, de modo que não exista apenas uma resposta ou só aquela resposta correta, pois ela também tem etapas. “Era muito comum em questões abertas ter só uma resposta certa, mas isso está mudando. Hoje, nós entendemos que precisamos graduar um pouco as respostas para conseguir ajudar o estudante a identificar o que faltou ali”, reforça. 

Para Luciane Palma, é fundamental que os professores possibilitem aos alunos momentos de reflexão sobre seus saberes e discutam com eles as potências e as fragilidades demonstradas. “[Isso deve ser feito] em uma perspectiva de processo, de refazimento, e não de algo que finaliza em uma nota ou conceito e não permite qualquer mudança de percurso.” 


Material complementar para baixar
Para apoiar o professor na construção de um planejamento de avaliação para os Anos Iniciais, disponibilizamos aqui um material complementar elaborado pelas consultoras . Ele destaca o raciocínio por trás da construção de instrumentos avaliativos, em um planejamento de Ciências para o 3º ano do Ensino Fundamental.

 

Consultoria pedagógica: Alessandra Novak e Kátia Chiaradia

continuar lendo