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Jornalismo

Língua Portuguesa: a importância de ser um professor leitor

Para formar alunos leitores, é preciso que os educadores também mergulhem nesse universo – e não faltam boas opções para impulsionar nossa prática pedagógica

PorAna Cláudia Santos

21/06/2022

Crédito: Getty Images

Uma ideia geral bastante comum é a crença de que o hábito de ler, e por consequência inserir crianças e adolescentes em universos encantadores, fantásticos ou simplesmente em contextos com personagens fascinantes e complexas, surge em casa. Na verdade, o que os estudos nos mostram é que a escola é a principal responsável por apresentar o sujeito ao universo das palavras, da leitura literária e por mediar a criticidade na compreensão dos textos. 

Claro que essa não é uma prática unicamente desse espaço, mas a escola é o primeiro lugar que vai apresentar aos leitores as exigências próprias da literatura e suas muitas possibilidades – dentre elas, a subjetividade, não de forma rasa como gostar ou não gostar, e sim, em um sentido amplo, com provocações e contemplações. 

Citando nosso patrono Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.” Ou seja: o ato de ler extrapola a compreensão das palavras – quando aprendemos por meio da leitura, compreendemos melhor o mundo que nos rodeia.  Lendo, é possível estabelecer confluência de conhecimentos, construir impressões sobre as narrativas, externar sentimentos e ideias, e mesmo olhar e se aproximar de diferentes realidades. 

Assim, um professor que lê funciona como uma abertura de horizontes para seus alunos – eles também leem o que nós, professores, traduzimos em nosso cotidiano e espelhamos em nossas vivências. Quando lemos, estamos livres das amarras do preconceito e das limitações; não nos permitimos ser cidadãos presos a convenções sociais; estamos abertos à universalidade; e transitamos em tempos e espaços que não são os nossos, mas aqueles que nos permitimos. 

Benefícios da experiência leitora para educadores e estudantes 

Todos devem conhecer a inusitada história de Sherazade, que com sensibilidade, aguçou a curiosidade do rei Shariar com os seus contos das Mil e Uma Noites. Ali, ela verdadeiramente, mediou a importância da leitura literária e ampliou a visão do seu interlocutor. Essa é uma analogia interessante de como a leitura nos leva a questionar, ampliar, revolucionar e aperfeiçoar o olhar para o mundo. A partir da prática leitora, podemos então criar conexões e ser inspiração para os nossos alunos, fazendo-os saborear a relação com o conhecimento e despertando sua curiosidade e interesse. 

Com a leitura, podemos ver os fenômenos do mundo pelas lentes alheias, além de potencializar o desenvolvimento de valores e crenças – e esse encontro com diferentes temas amplia nosso diálogo. As crianças e adolescentes precisam de bons professores e boas orientações porque, como diria Guimarães Rosa, “existem os analfabetos para as entrelinhas”. 

Dessa forma, a reinvenção do professor leitor deve passar pelo equilíbrio entre o letramento literário e sua prática docente, enquanto reflexo de suas leituras. Isso vai fazer com que o aluno leitor exercite o seu contato com o texto, suas subjetivações e contextos, e também vai preservar a ideia de que a escrita traz consequências sociais, culturais e políticas, tanto para o grupo social em que é utilizada, quanto para o indivíduo que aprenda a usá-la. 

Para o professor Ezequiel Theodoro da Silva, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a formação de professores e alunos leitores configura um passo relevante para a construção da cidadania. A leitura não somente é uma estratégia para a tomada de consciência, como também um modo de existir socialmente – já que, por meio dela, o sujeito interpreta e compreende as múltiplas expressões. 

As leituras que tecem um professor 

Enquanto educadores leitores, nós firmamos um verdadeiro pacto com a leitura para além de nós mesmos – consolidando uma partilha com os estudantes e suas famílias. Se você ainda não tem o costume de ler, aceite o convite de Mário Quintana: “E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida. Esse enigma, eu passo a ti, pobre leitor. E agora?” 

E agora? Comece a revisitar os clássicos e mitologias que fazem parte do senso comum, como as histórias de Eco e Narciso, Pandora, Eros e Psiquê. Se preferir, escolha uma leitura mais atual e descontraída, mas carregada de significações e críticas ao nosso tempo, como as crônicas de Millôr Fernandes e Luís Fernando Veríssimo. 

Conheça as regiões e costumes do Brasil, em prosa e verso, com Patativa do Assaré, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Cora Coralina e Guimarães Rosa. Aprofunde a leitura no intimismo de Clarice Lispector e Cecília Meireles, e aprecie os romances cômico-policiais de Jô Soares e a dramaturgia de Domingos Pellegrini. Então,  persevere, e escolha autores que refletem sobre os resquícios do período da escravidão, como Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, e Becos da Memória, de Conceição Evaristo. 

Tornar-se leitor é entender que os moinhos de vento, tão comuns em Dom Quixote, refletem os gigantes que existem em nós, a vivacidade com que nos reconhecemos nas mais diversas realidades. Desejo a vocês, então, leituras – sim, no plural, pois somos múltiplos, assim como os narradores ávidos para nos compartilhar novos saberes. 

Um abraço e até a próxima, 

Ana Cláudia 

Ana Cláudia Santos é professora de Língua Portuguesa na educação básica da rede estadual de ensino há 20 anos e mestranda em Educação Profissional e Tecnológica. Foi vencedora do Prêmio Educador Nota 10, promovido pela Fundação Victor Civita, nas edições de 2014 e 2018, com os trabalhos O Povo Conta e O (Ser)tão de Cada Um. Recebeu a medalha Ordem do Mérito Educacional (MEC) – Grau de Cavaleiro e o troféu Capitão-Médico João Guimarães Rosa, da Academia de Letras da PMMG.

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