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Jornalismo

Boas práticas de avaliação: por que e como diversificar os formatos?

Diferentes instrumentos favorecem o olhar integral para os alunos e a consolidação dos conhecimentos

PorCarol Firmino

09/06/2022

Foto: Getty Images

Desde que as aulas presenciais recomeçaram no Brasil, no início de 2022, Guilherme Falcão Porto, professor de Ciências e Tecnologia do 6º e do 9º ano na EE Bento de Abreu, em Santa Lúcia (SP), identificou que suas avaliações precisavam ser ainda mais variadas. A ideia era acompanhar as necessidades de cada um dos estudantes, que voltavam de um longo período de ensino remoto.  

“Até 2020, os índices de aprendizagem estavam crescendo, mas os resultados das avaliações diagnósticas mostraram um retrocesso, uma defasagem estrutural enorme que estamos tentando recompor”, diz. Nesse cenário, a diversidade de avaliações contribui para olhar o aluno na sua completude e singularidade, sem reduzir todas as etapas e experiências que ele vive na escola ao resultado de uma prova.

Professora de História dos Anos Finais do Ensino Fundamental na EM Professor Silvio Romero Vieira, em Jaboatão dos Guararapes (PE), Roberta Duarte da Silva acrescenta que, atualmente, as provas tradicionais não conseguem dar conta da complexidade do ensino e da aprendizagem nem dialogar com a realidade dos alunos. “Precisamos buscar novas estratégias e ferramentas para avaliar nossos estudantes, principalmente porque dentro de uma sala de aula encontramos um universo de diferenças. Cada um deles tem gostos, histórias e características diferentes, e isso precisa ser levado em conta também nas avaliações.”

Diagnóstica, formativa e somativa
Alessandra Novak, bióloga e professora do Programa de Especialização Docente (PED Brasil), do Lemann Center for Educational Entrepreneurship and Innovation in Brazil, localizado na Stanford Graduate School of Education e desenvolvido em parceria com o Instituto Canoa, explica que são três as modalidades básicas de avaliação (sem considerar a externa): a diagnóstica, a formativa e a somativa. “Mais do que dizer quando cada uma deve ser aplicada – no início, durante ou no fim do ciclo –, nós as classificamos pelo uso que se pode fazer dos resultados. Por exemplo: na avaliação diagnóstica, o professor quer levantar os conhecimentos prévios [dos alunos]. Mas qual o objetivo disso e o que fazer com o resultado? Ela vem com esse propósito de fazer o diagnóstico, no entanto, pode acontecer no início do ano ou de um novo bimestre.” 

A avaliação formativa, por sua vez, prevê um acompanhamento da trajetória do estudante durante a aprendizagem, mesmo que não seja de maneira formal. “É possível fazer anotações a partir de um bate-papo ou de um trabalho em grupo e coletar várias pequenas evidências de que o aluno está ou não aprendendo, o que permite a ele próprio compreender sua evolução e planejar os próximos passos. Essa avaliação também não é necessariamente para compor nota, mesmo que resulte em uma quantificação”, detalha Alessandra. Os instrumentos podem ser variados e envolver produções orais, coletivas e individuais, trabalhos e pesquisas, seminários, estudos de caso, autoavaliação e questionários. 

Já a avaliação somativa é a mais tradicional, que determina o grau de domínio dos conteúdos pré-estabelecidos. Ela costuma ser aplicada em atividades de múltipla escolha, resposta construída, exames escritos ao final de um período escolar etc.

De acordo com Aline Soares, especialista na formação de professores para aplicação de metodologias ativas e ferramentas de tecnologia digital, quando se trata de pensar em boas práticas de avaliação, o senso comum as entende apenas como provas somativas que extrapolam o conhecimento formal. Entretanto, por mais que essas sejam formas interessantes de avaliar, ela acredita que é necessário recorrer a formatos diferentes. Aline descreve um exemplo de avaliação formativa: “No componente de Língua Portuguesa, como o professor pode avaliar a expressão oral? É possível observar como esse aluno se expõe para o grupo, como articula suas falas, seja avaliando a discussão de um texto trabalhado com a turma ou em uma exposição”. 

Feedbacks e avaliação comparativa
Outra possibilidade de avaliação formativa é a comparativa, que não tem o objetivo de quantificar o ensino, mas qualificá-lo com uma reflexão sobre o que foi aprendido. É uma forma de comparar o que o aluno sabia antes com o que ele construiu durante ou ao final da aula, e não necessariamente é realizada no início do ano ou de um ciclo, como a diagnóstica. 

Segundo o professor Guilherme, é possível aproveitar o conhecimento empírico do aluno, já que normalmente trabalha-se um tema com o qual o estudante já teve o mínimo de contato. “No 9º ano, quando vou abordar genética, sei que essa é uma habilidade difícil conceitualmente, mas da qual eles já ouviram falar alguma coisa. Então, logo na primeira aula, costumo escrever a palavra genética na lousa e pergunto o que eles entendem sobre o termo. Deixo fluir bastante a conversa e depois entro com o conteúdo de fato, explicando os conceitos e fazendo atividades.”

No final do agrupamento de aulas sobre genética, ele divide a sala em ilhas de produtividade – trios com alunos que têm baixo, médio e alto conhecimento – e aplica um questionário para eles responderem. Finalizada essa etapa e com as respostas do exercício, Guilherme volta às conversas anteriores para poder comparar e ver junto com os alunos o quanto evoluíram, além de oferecer um feedback do aprendizado.

O educador também gosta de propor avaliações lúdicas quando as habilidades são mais complexas, evitando que tudo o que foi ensinado seja avaliado em uma simples prova somativa. Para essa mesma turma, Guilherme e uma professora de Ciências propuseram o desenvolvimento de uma família de Minions – personagens do filme de animação Meu Malvado Favorito –, trabalhando fenótipos, regras de genética, probabilidades e dados. “Tiramos o caráter punitivo e aterrorizante da avaliação dessa habilidade”, relata o professor.

O trabalho com rubricas para acompanhar a aprendizagem
Critérios de avaliação devem estar baseados em objetivos de aprendizagem e em habilidades que precisam ser desenvolvidas, além de determinar níveis de desempenho

Ao trabalhar com rubricas no processo avaliativo, em que o professor lista as aprendizagens e habilidades que são esperadas que os estudantes desenvolvam, é possível descrever diferentes níveis, como performance máxima, média ou indicar que o aluno não apresentou evidências suficientes. “Primeiro, é importante ter clareza das habilidades para associá-las às rubricas, dos objetivos de aprendizagens e dos critérios levados em consideração para construir esses níveis de performance”, explica Alessandra. 

A especialista lembra que não existe uma receita para elaborar as rubricas, pois é preciso reconhecer as necessidades do componente curricular e determinar outros aspectos que serão avaliados. Em um trabalho em grupo, por exemplo, o professor pode incluir a interação, a divisão de tarefas e aspectos socioemocionais. Os próprios alunos podem participar dessa construção. 

“Isso leva a uma corresponsabilização, pois muitas vezes a responsabilidade da avaliação recai apenas sobre o docente, mas todos são responsáveis pelo resultado. A participação [dos estudantes], então, torna essa etapa mais justa, clara e corresponsável. O aluno precisa saber aonde ele pode chegar e o que tem de mostrar, sendo protagonista inclusive no processo de avaliação”, defende.

Diálogo com outros componentes e autoavaliação
A professora Roberta conta que usa instrumentos variados de avaliação, como trabalhos em grupo, leitura de imagens para trocas de ideias e discussões e exercícios de cultura maker, com cartolinas, maquetes e protótipos. “Também considero a participação, as entregas e o engajamento nas atividades, tudo de maneira leal, respeitando as individualidades”, completa. Ela reforça a importância do acordo pedagógico estabelecido no início do ano para que os estudantes saibam como vão ser avaliados e entendam que não será apenas uma prova.

Dentro da sua proposta pedagógica, as avaliações formativas são muito importantes. “Como estratégia, à medida que as aulas acontecem, faço uma coleta de evidências para aferir se o objetivo de conhecimento chegou ao estudante e como eles o entenderam.” Recentemente, no 8º ano, ela aplicou um projeto interdisciplinar sobre as culturas indígena e africana, junto às professoras de Geografia e Língua Portuguesa, com o mote Racismo não é liberdade de expressão. “Em História, conectei o tema com o Iluminismo. Baseados nas discussões, eles fizeram produções textuais e visuais, nas quais avaliamos não só o domínio do conteúdo, mas a interação com a equipe e o nível dos debates.”

Segundo a especialista Aline, também é possível realizar avaliações a partir de pequenos projetos com grupos operacionais, em que cada aluno tem o seu papel. Nesse modelo, as tarefas são distribuídas entre os integrantes, para que eles possam ser avaliados pelo professor e pelos colegas e até mesmo fazer uma autoavaliação, qualquer que seja o componente curricular. “Os alunos precisam criar o hábito de se autoavaliar. No entanto, muitas vezes os professores pedem que eles se deem uma nota, mas não é interessante que esse seja o único resultado. A autoavaliação vai trabalhar com o autoconhecimento, uma boa estratégia para que o estudante se perceba mais ativo no processo de ensino e aprendizagem”, conclui. 

Sugestões de avaliação em Língua Portuguesa e Matemática
A especialista Aline Soares indica formatos de avaliação para os dois componentes

Língua Portuguesa: Para uma avaliação em produção de texto, é interessante explorar antes os temas de conhecimento da turma, a fim de coletar bons resultados. Além disso, o mais importante é valorizar a reescrita, em vez de avaliar o texto primário. Após a primeira escrita, indicam-se as correções para uma segunda avaliação, para que o estudante veja com mais clareza em que pontos ele precisa melhorar. 

Matemática: Nos Anos Iniciais, ensinar Matemática a partir do brincar e do lúdico requer intencionalidade pedagógica. É possível pensar em jogos que podem ser construídos pelas crianças para possibilitar o levantamento de hipóteses para solucionar problemas. Uma dica importante é usar o espaço físico da sala de aula para que os alunos consigam colocar em prática o raciocínio, além de incentivar a construção de gráficos e tabelas e a realização de pequenas pesquisas.

Consultoria pedagógica: Alessandra Novak e Kátia Chiaradia

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