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Jornalismo

4 passos para tornar a diversidade e a equidade social protagonistas no processo de aprendizagem nas escolas

É nosso papel enquanto gestores dar suporte para que professores e equipes tenham as condições necessárias para abordar essas temáticas no dia a dia escolar

PorJosé Marcos Couto Júnior

30/05/2022

Foto: Getty Images

Na metade do século 17, o filósofo e matemático René Descartes (1596-1650) revolucionou o pensamento ocidental ao propor um método de racionalização das ideias, contestando tudo o que se conhecia até então em busca de uma “verdade primeira” – e viabilizando, assim, alguns fundamentos da ciência moderna. Esse modelo cartesiano encontrou abrigo na Educação e nos colocou diante de uma nova concepção de ensino: racional e científico, em substituição à escolástica medieval. 

Após séculos de (re)afirmação dessas ideias cartesianas, nos acostumamos com a noção de escola como um lugar de transmissão de teorias e conceitos que receberam o crivo científico, em conteúdos como Matemática, Biologia ou História. Afinal, todos esses conhecimentos têm origem justamente em pesquisas científicas.  

A questão, amiga leitora e amigo leitor, é que a função da escola é histórica e sempre definida e modificada a partir de disputas e embates. Então, a quem caberia definir o que se ensina nas escolas? Que tipo de escola queremos construir junto à nossa comunidade escolar, especialmente no pós-pandemia? E faz sentido uma escola que não tenha como foco a diversidade e a equidade social? 

Indo além do conhecimento científico 

Essa lógica da razão cartesiana descrita anteriormente gera um dilema delicado: o “oferecimento de conhecimento científico” teria se consolidado em um “topo hierárquico”, tornando-se assim o grande sentido da existência da escola. O problema é que, durante o primeiro ano e meio de pandemia, diversos questionamentos a respeito dessa hierarquização foram realizados.

Lembro que todos nós, educadores, nos perguntamos em algum momento: será que faz sentido trabalhar teoremas matemáticos, análises sintáticas ou conceitos históricos enquanto milhares de pessoas morrem por dia devido à Covid-19? Seria viável abstrair de tanto luto em nome de conteúdos programáticos? E que tipo de aprendizagem a escola deveria promover em um cenário de tanta tragédia? A partir desse momento, vimos que ganharam força debates sobre questões socioemocionais e sobre a própria função da escola. 

Não se trata de propor o fim da razão científica nas escolas – é evidente que o saber científico tem muito espaço no dia a dia das instituições de ensino –, mas que haja lugar nas escolas para elementos tão importantes como esse. Inclusive, já que estamos falando em razão, penso que é importante refletir até que ponto é razoável construir escolas onde a saúde mental, o conhecimento socioemocional, a segurança alimentar, a vulnerabilidade social, a diversidade e a equidade social não possuem protagonismo em seus currículos. 

Além disso, com a ampliação do número de unidades escolares em tempo integral nas últimas três décadas, torna-se ainda mais urgente a compreensão de que o ambiente escolar não pode ser resumido à instrução de fórmulas e conceitos para crianças e adolescentes que passarão quase um terço do seu dia na escola. É essencial que esses estudantes concluam a educação básica compreendendo também que a diversidade existe, é benéfica e deve ser respeitada e defendida; e que se tornem adultos escolarizados conscientes das injustiças sociais, aptos a se inquietar e mesmo a realizar ações visando o fim dessas desigualdades. 

Como tornar a diversidade e a equidade social protagonistas no dia a dia escolar? 

Dessa forma, a questão essencial a ser analisada aqui é como nós, gestores escolares, podemos auxiliar nesse processo de deslocamento da função atual da escola. Penso que o ponto de partida está na compreensão de que, sem o compromisso e o apoio de nossas comunidades escolares, isso é inviável. Haverá pressão de alguns pais e das próprias redes, já que não é nada simples mensurar resultados dessas ações a curto prazo, mas alguns passos podem auxiliar nesse trabalho: 

1. A viabilização da formação da nossa equipe, em especial dos professores. Mesmo que consigamos desenvolver um ambiente onde questões como a diversidade e a equidade sejam protagonistas do processo de aprendizagem, é o docente quem está na ponta no dia a dia. Sem que ele compreenda e acredite nessa mudança de eixo da função social da escola, dificilmente as ações serão realizadas;

2. O desenvolvimento de projetos transdisciplinares, que tenham como foco a educação socioemocional. O trabalho de questões pautadas na empatia e na valorização dos sentimentos consolidam a ideia de que o espaço escolar é o local onde se educa em sentido amplo;

3. A compreensão e a exploração da escola em sua potencialidade intersetorial. Ao desenvolvermos parcerias com equipes de saúde, com parceiros da comunidade e com os diversos segmentos da escola, reafirmamos que o objetivo dela vai muito além da simples instrução. 

4. A construção com a comunidade escolar, e não para a comunidade escolar. Uma das principais formas de valorizar questões que extrapolem a instrução de conhecimentos científicos está no reconhecimento de saberes presentes entre alunos, funcionários, responsáveis e parceiros da instituição de ensino. 

Compreender a escola como um lugar de aprendizagem integral, e não só de tempo integral, é entendê-la como um espaço que, mais que “formar cidadãos”, apresenta e ajuda a lapidar as ferramentas que permitirão o exercício da plena cidadania. Então, mãos à obra, porque o trabalho é longo, mas o resultado tem potencial para impactar toda a nossa sociedade. 

Abraços e até mês que vem! 

José Couto Júnior é licenciado em História, tem mestrado em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e é doutorando em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em 2018, foi eleito Educador do Ano pelo Prêmio Educador Nota 10. Servidor da Prefeitura do Rio de Janeiro há 13 anos, atua desde 2019 como diretor na EM Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro (RJ).

 

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