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Jornalismo

Educação Física: os desafios e as possibilidades no retorno ao ensino presencial

Ao trabalhar práticas corporais e aspectos socioemocionais, componente curricular deve contribuir para o desenvolvimento integral dos estudantes e ser um meio para o desenvolvimento de habilidades e competências

PorCamila Cecílio

25/05/2022

Foto: Mattheus Santos/NOVA ESCOLA

O componente curricular de Educação Física, que envolve práticas corporais e movimento por meio de brincadeiras, jogos, esportes e outras atividades, foi um dos mais impactados pela pandemia de Covid-19, já que qualquer tipo de proposta presencial ou em grupo ficou inviabilizada por quase dois anos. 

“Logo nas primeiras semanas de isolamento social, ganhei 12 grupos de WhatsApp. No começo foi uma loucura, mas depois fui me adaptando. Mas, mesmo com os esforços de todos para fazer dar certo o ensino remoto, tivemos atividades que nunca foram acessadas pelos alunos, tampouco colocadas em prática”, conta Luciane Cardoso, professora de Educação Física de turmas do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental na EM Professor Roque Ayres de Oliveira, em Iperó (SP). 

Embora já tivesse facilidade em trabalhar com plataformas e ferramentas digitais, a educadora se viu diante de diversos desafios. Entre eles, preparar propostas que instigassem os estudantes a se movimentarem em casa, ao mesmo tempo que percebia que eles não estavam acompanhando as atividades online ou mesmo as impressas disponibilizadas pela escola.

“A grande dificuldade dos professores de Educação Física durante a pandemia foi colocar em prática algumas propostas a distância. Com isso, os alunos vivenciaram pouca interação e exploração dos próprios movimentos, um prejuízo que estamos vendo agora no presencial”, afirma Luis Vasquinho, autor de livros didáticos, formador de professores de Educação Física e especialista responsável pela orientação e revisão dos planos de aula da NOVA ESCOLA. 

Ele ressalta que as perdas não foram apenas na Educação Física escolar, mas na falta de movimentação das pessoas como um todo durante o período de isolamento em suas casas. Por isso, segundo ele, trabalhar habilidades motoras básicas, principalmente com os estudantes dos Anos Iniciais do Fundamental, é importante para recuperar aprendizagens relacionadas aos movimentos corporais. No entanto, o foco principal deste momento deve ser as habilidades socioemocionais, principalmente porque muitos os alunos vêm apresentando ansiedade e medo do contato com outros estudantes em decorrência do isolamento social. 

Educação Física e BNCC

O que a Base diz sobre o componente curricular

Um dos quatro componentes curriculares que integram a área de Linguagens na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Educação Física “tematiza as práticas corporais em suas diversas formas de codificação e significação social, entendidas como manifestações das possibilidades expressivas dos sujeitos, produzidas por diversos grupos sociais no decorrer da história. Nessa concepção, o movimento humano está sempre inserido no âmbito da cultura e não se limita a um deslocamento espaço-temporal de um segmento corporal ou de um corpo todo”. 

Ainda de acordo com a BNCC, “nas aulas, as práticas corporais devem ser abordadas como fenômeno cultural dinâmico, diversificado, pluridimensional, singular e contraditório. Desse modo, é possível assegurar aos alunos a (re)construção de um conjunto de conhecimentos que permitam ampliar sua consciência a respeito de seus movimentos e dos recursos para o cuidado de si e dos outros e desenvolver autonomia para apropriação e utilização da cultura corporal de movimento em diversas finalidades humanas, favorecendo sua participação de forma confiante e autoral na sociedade”. 

Ricardo Yoshio, professor de Educação Física e pedagogo, com especialização em Educação Física Escolar e Docência Universitária, mestrado em Ciências e doutorado em Educação, destaca que as aprendizagens devem contribuir para o desenvolvimento integral dos estudantes. Assim, os objetos de conhecimento e unidades temáticas relacionados à Educação Física devem ser entendidos como meio para o desenvolvimento de habilidades e competências. “O ensino do componente não deve apenas priorizar práticas corporais, muitas vezes com o fim nelas mesmas, sem contextualizá-las. É importante ler e interpretar cada habilidade ‘nas entrelinhas’ para compreender que o sentido proposto por elas deve mobilizar o estudante à compreensão do ‘para quê’, indo além da aprendizagem de uma prática corporal.”


A Educação Física no contexto da recomposição de aprendizagens

Foto: Mattheus Santos/NOVA ESCOLA

Quando o assunto é recomposição de aprendizagens, Luis diz que existe uma variabilidade grande demais dentro do componente para apontar, com precisão, “faça isso ou faz aquilo, que vai funcionar”. O mais importante agora, segundo ele, é o acolhimento e a valorização desse momento de retorno às atividades presenciais.

Ele reforça que o professor deve ter paciência para passar isso para os alunos, reconhecendo em que ponto está e onde quer chegar, sem se preocupar tanto com resultados ou conteúdos, mas com o desenvolvimento dos estudantes. “Acredito que fazer isso na Educação Física é mais fácil, pois a movimentação, a interação, o diálogo e o compartilhamento de sensações são mais presentes do que em outros componentes curriculares. Considerando que o modelo por competências proposto pela BNCC tem foco no sujeito e não nos conteúdos, esse é um ótimo momento para exercitar isso na escola.”

Luis sugere que, ao olhar para a BNCC, o professor deve ler as habilidades específicas de Educação Física sem focar sua interpretação nos objetos de conhecimento (dança, luta etc.), pois estes devem ser apenas um meio para desenvolver as competências. “Temos uma série de aprendizagens interessantes que conduzem ao desenvolvimento do protagonismo, da autonomia, do autocuidado e do autoconhecimento. No modelo por competências, os conteúdos deixam de ser o fim da educação para ser um meio. Isso significa que os alunos não irão aprender a lutar, a jogar, a dançar ou a treinar uma modalidade esportiva – esses objetos são um meio para se chegar às competências.”

Avaliação diagnóstica, planejamento e ação

Ricardo, que também é autor de livros didáticos de Educação Física e mentor de planos de aula de Educação Física para a NOVA ESCOLA, considera que a recomposição de aprendizagens deve ser feita a partir de uma boa avaliação diagnóstica, com instrumentos diversificados, para possibilitar estratégias que garantam o desenvolvimento integral dos estudantes. 

“As aprendizagens estão sempre voltadas para o desenvolvimento das competências gerais da BNCC. Assim, o ideal é que o professor procure sempre desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes ao ensinar ‘coisas’ e analise e avalie o que tem sentido para os alunos e o que poderiam relacionar com a vida deles nos âmbitos pessoal, interpessoal e social”, aponta.

É o que o professor de Educação Física Marcelo Costa, que atua nos Anos Finais do Ensino Fundamental, tem realizado na prática. Ele conta que, com o intuito de fazer uma avaliação diagnóstica dos alunos, no começo do ano letivo de 2022, os educadores do Colégio Estadual Emílio de Menezes, em Curitiba (PR), elaboraram e aplicaram planos de nivelamento orientados pela Secretaria Estadual de Educação. 

“Com base nas informações obtidas nessas duas semanas de revisão de conteúdos do ano anterior, pudemos adequar as expectativas de aprendizagem dos alunos ao ano em curso. Em Educação Física, na conversa com os demais professores, ficou evidente que os estudantes retornaram menos ativos e que também havia muitos casos de ansiedade, provavelmente devido ao isolamento social”, completa. 

Agora, no modelo presencial, o professor tem planejado suas aulas considerando atividades que promovem reflexões críticas sobre as inúmeras possibilidades de manifestações ou práticas corporais, bingo dos nomes e o jogo cooperativo travessia dos rios, que promove a confiança no outro. Nesse contexto, foi necessário retomar atividades que oportunizam desenvolvimento psicomotor, promovendo circuitos que exigem os mais variados movimentos corporais naturais, como agachar, saltar, rolar, escalar, rastejar, equilibrar-se, arremessar, correr e caminhar. 

“Também senti a necessidade de conceituar e promover atividades explorando as capacidades físicas – resistência, força, flexibilidade, agilidade e velocidade – sempre com a intencionalidade pedagógica de explorar novas habilidades corporais. Essas habilidades, infelizmente, foram pouco praticadas nesse período, aumentando o nível de sedentarismo entre os estudantes”, avalia. 

Foco nos aspectos socioemocionais

A professora Luciane também tem apostado na avaliação diagnóstica para fazer seu planejamento e recompor as aprendizagens dos seus alunos do 1º ao 9º ano. Para isso, ela tem observado atentamente como os estudantes reagem às atividades apresentadas desde que a escola voltou ao ensino presencial. Além das habilidades motoras, ela procura sempre olhar para os aspectos socioemocionais – por exemplo, quando alguns ficam frustrados por não terem ido bem em uma determinada proposta. A partir dessas informações, ela planeja atividades que estimulam determinadas habilidades e chega ao que faz mais sentido para os alunos. 

“Trabalho diversos elementos nas nossas conversas. Sempre procuro saber o que eles conhecem sobre determinadas brincadeiras, se já brincaram em casa com a família e, às vezes, até fazemos uma lista de atividades que vamos realizando ao longo da aula”, relata. “O ponto é que todos têm espaço para participar e fazer sugestões. Por isso, deixo uma parte do meu planejamento para aquilo que eles dizem que querem aprender. É claro que quase nunca sai como o esperado, mas vou sentindo como eles estão e fazendo as modificações para que sejam realmente protagonistas.” 

No caso do professor Marcelo, ele tem realizado atividades que retomam jogos e brincadeiras com ênfase na cooperação. Assim, propicia momentos que têm o aspecto do trabalho corporal, mas também o da percepção de valores e princípios como solidariedade e autocontrole emocional.

Para trabalhar autoconhecimento e autocuidado, elementos presentes em uma das dez competências gerais da BNCC, ele planejou atividades com diferentes tipos e jogos: semicooperativos, cooperativos sem perdedores, de resultado coletivo, de inversão (rodízio, inversão do goleador, do placar e inversão total), de “quebra-gelo” e integração, de toque e confiança e de criatividade e sintonia, por exemplo. 

Antes da aplicação desses jogos, os estudantes receberam um “quadro de percepções e sensações”, no qual deveriam registrar, de forma individual, emoções como omissão, cooperação e competição, suas e dos colegas, após as aulas. Em um segundo momento, o professor propôs uma roda de conversa para que os alunos pudessem expressar suas percepções.

“O engajamento da turma e os debates foram surpreendentes. Inicialmente, alguns estudantes apresentavam dificuldade em atividades em grupo, em socializar com os colegas e em tomar iniciativa nas propostas que exigiam cooperação entre eles. Mas, no decorrer das atividades, com muito diálogo, eles foram trabalhando essas questões e, no final do conjunto de aulas, as atividades fluíram com grupos maiores”, lembra Marcelo.

Brincadeiras tradicionais e o papel social da Educação Física

Foto: Mattheus Santos/NOVA ESCOLA

Com suas turmas dos Anos Iniciais e Finais do Fundamental, Luciane também tem colocado em prática propostas que têm engajado mais os alunos. Com o 2º ano, por exemplo, brincadeiras e jogos da cultura popular presentes no contexto da comunidade local fazem sucesso entre as crianças. 

“Faço uma lista do que eles sabem e peço para perguntarem à família quais brincadeiras faziam quando crianças. Depois, compartilhamos com toda a turma e as praticamos, ao mesmo tempo que vou introduzindo brincadeiras como balança caixão, saltar o feijão, carrinho de mão, boca de forno, mãe da rua e pega rabo. Aos poucos, até os mais tímidos pedem para falar, mostrar e explicar uma brincadeira aos colegas.”

Já com o 6º ano, a professora tem trabalhado com esportes de invasão, como o handebol. Vídeos, slides e pesquisas são utilizados para que a turma conheça o esporte, sua história, seus fundamentos, as posições e funções dos jogadores e o sistema de jogo. Os alunos partem para a prática utilizando apenas um conhecimento inicial, os fundamentos (drible, arremesso, passe) e o espaço do jogo. No decorrer de cada aula, um elemento novo é apresentado e praticado e, ao final, Luciane organiza uma roda de conversa para que os estudantes reflitam, observem e reconheçam que cada um tem suas habilidades. 

Para ela, este é o papel social da Educação Física: o aluno saber seus potenciais, habilidades, talentos, dons e competências, na escola, em casa e na sociedade em geral. E, além disso, que reconheça e respeite os outros, conviva com as diferenças e use seus conhecimentos para fazer melhores escolhas, sejam elas em relação à alimentação, ao exercício físico ou à prática de um esporte ou modalidade. “Quando o aluno reconhece seu potencial durante um jogo ou uma brincadeira, ele desenvolve confiança e autoestima e fica feliz. Isto é, ele aprende melhor porque confia mais em si, algo que é levado para a vida nas mais diversas situações.”

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