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Jornalismo

Brincadeiras musicais e cantadas: possibilidades e sugestões para a Educação Infantil

Propostas que exploram a musicalidade propiciam experiências ricas em aprendizagem para as crianças. Educadoras contam como estruturá-las na rotina escolar

PorVictor Santos

19/05/2022

Foto: Getty Images

“Certas músicas são como o nosso ‘colo’, o jeito de narrarmos o mundo para uma criança. Quando o filho naslce, qualquer pai ou mãe, por mais desafinado que seja, canta algumas cantigas para o bebê dormir, como Serra, Serra, Serrador – é um jeito de enfrentar nossos medos enquanto pais e de apresentar a língua-mãe naquilo que há de mais genuíno”, sintetiza a educadora e escritora Lucila Silva de Almeida. Com um vasto currículo, que inclui experiências como professora, coordenadora pedagógica e atualmente formadora, Lucila também é autora de três livros sobre brincadeiras: Parlendas para Brincar, Adivinhas para Brincar e Receitas para Brincar, todos pela editora Panda Books. 

Com toda essa bagagem, a especialista aponta que, além de servirem justamente para brincar, canções como essa possuem um papel muito importante na perpetuação da nossa cultura e mesmo das nossas raízes. “No Brasil, temos uma diversidade cultural que aprendemos com os povos indígenas e africanos, por exemplo, além de variações de um estado para outro nessas brincadeiras tradicionais.” 

Ainda em relação à tradição, a formadora lembra que, usualmente, as escolas costumam apresentar uma música que é quase um padrão: Corre, Cotia, conhecida em alguns lugares como Lencinho Branco. “Por um lado, é complicado quando só essa brincadeira está no chão da escola. Mas, por outro, é importante que ao menos ela esteja ali”, comenta. “Nosso desafio enquanto educadores é ir além e ampliar o repertório cultural das crianças por meio de diferentes brincadeiras.” 

Para apoiar os professores nessa missão, a NOVA ESCOLA conversou com Lucila e outras três experientes educadoras com atuação em redes municipais de diferentes estados do país: Mirtes Ramos dos Santos Melo, de Recife (PE); Jacqueline Elise Koch, de Joinville (SC), e Elisiane Andreia Lippi, de Frederico Westphalen (RS). 

Musicalidades e brincadeiras

Pouco antes do início da pandemia, em fevereiro de 2020, a professora Jacqueline dava início às atividades no Centro de Educação Infantil (CEI) Adolfo Artmann com seu projeto Um Brinquedo Chamado Música. O foco era promover experiências com sonorização de histórias, construção de instrumentos musicais com aproveitamento de sucata e trabalhos vocais e corporais envolvendo brincos, canções e parlendas. 

Com o fechamento das escolas em março do mesmo ano, devido à Covid-19, a educadora correu para se reinventar, e o projeto seguiu durante o ensino remoto emergencial, demonstrando a potência das brincadeiras musicais no processo de manutenção do vínculo dos pequenos com a escola. “Nos vídeos que produzimos, resgatamos músicas folclóricas daqui do estado, como o folguedo do Boi-de-mamão, e contamos histórias. Proporcionamos experiências musicais simples, que podiam ser replicadas com recursos e materiais que todos possuíam, promovendo a interação das crianças com os familiares que estavam em casa”, relembra. 

Além das próprias vivências, todo esse trabalho rendeu premiações. A professora foi uma das contempladas pelo 22º Prêmio Arte na Escola Cidadã, promovido pelo Instituto Arte na Escola, organização que tem como objetivo valorizar os professores de Arte ou educadores generalistas que atuam com esse componente e iniciativas que inspiram a comunidade escolar. Nesse caso, o impacto foi tão grande que agora, de volta ao modelo presencial, o projeto segue acontecendo e de forma ampliada. Jacqueline está conduzindo as propostas em mais uma escola, o CEI Professora Debora Cristina Neves da Silva Ruiz Paloma. 

Aprendizagem e apoio para o desenvolvimento integral

Premiação é algo que também não falta nos 39 anos de carreira na Educação Infantil da professora Mirtes, que atua na Creche Municipal João Eugênio, em Recife, e no time de formadores da NOVA ESCOLA. Nessas décadas trabalhando com brincadeiras musicais, ela destaca alguns aspectos. “Lidamos na escola com algumas músicas cantadas que eles já trazem de casa, auxiliando na adaptação à creche. Trabalhamos a alegria e o pertencimento e estimulamos a lateralidade (direito e esquerdo), o equilíbrio, o ritmo (‘duas palmas para cá, duas palmas para lá’), enfim, tudo girando em torno do questionamento: ‘Como eu mexo o meu corpo?’.” 

Ela ressalta que essas práticas estão totalmente relacionadas com os seis direitos de aprendizagem (conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se) propostos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “O próprio brincar aparece explicitamente como direito. Já o conhecer-se ocorre a partir do momento em que a gente começa a se mexer, conhecer o próprio corpo e conhecer também o outro, como ao dar a mãozinha em uma brincadeira de roda. O conviver surge no próprio contexto, em que aprendemos a lidar uns com os outros e compartilhar objetos”, cita alguns exemplos. 

A também formadora da NOVA ESCOLA Elisiane, que trabalha nessa área há 14 anos e até o ano passado atuava como docente na EMEI Professora Ceci Capuani, em Frederico Westphalen, segue esse mesmo raciocínio sobre os direitos de aprendizagem e a BNCC. “Quando falamos de brincadeiras musicais, estamos intimamente falando da Base, seja quando refletimos sobre os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento que ela propõe ou quando pensamos no desenvolvimento dos campos de experiência. Um desses campos se refere justamente a ‘corpo, gestos e movimentos’.” 

Elisiane reforça o papel dessas brincadeiras para o desenvolvimento global das crianças, enfatizando pontos como consciência corporal e contato com regionalidades e tradições, e frisa outro elemento apoiado por essas práticas: o letramento. “Nesse contexto do primeiro contato das crianças com as letras que circundam seu mundo, vemos que o ritmo ajuda muito na alfabetização. As rimas e o próprio ato de cantar separando as palavras com pausas auxiliam no aprendizado futuro da divisão de sílabas.” Ela acrescenta que, além do aprendizado da música e das melodias, é possível levar a letra de algumas cantigas em cartazes, familiarizando as crianças com esses escritos. 

Sugestões de brincadeiras musicais e cantadas

As quatro educadoras entrevistadas nesta reportagem dão dicas de propostas que se desdobram de músicas e parlendas cantadas. Elas não requerem nenhum outro material, apenas a voz. Confira: 

  • Incremente brincadeiras tradicionais. “Brincadeiras usuais como Corre, Cotia podem ser enriquecidas, principalmente com as crianças maiores, ao incentivá-las a acelerar a cantiga”, sugere a educadora e escritora Lucila. 
  • Estimule as palmas. “A tradicional ‘Palma, palma, palma/ Pé, pé, pé/ Roda, roda, roda/ Caranguejo peixe é’ é muito rica, porque trabalha com ritmo – ao bater e contar as palmas  e também com a cadência, além de que o corpo todo se movimenta”, diz a professora Mirtes. 
  • Conte histórias. Canções que envolvem narrativas também são uma ótima opção para a construção de propostas. Segundo a professora Elisiane, a música Macaquinho, de Bia Bedran, que tem o refrão “Macaquinho sai daí”, traz uma história bem bacana, que o professor pode levar para a turma e interpretar do seu jeito. As produções dessa cantora e educadora musical foram indicadas por todas as demais entrevistadas. 
  • Use fantoches e objetos. Ainda na linha de músicas que contam histórias, a professora Jacqueline indica A Linda Rosa Juvenil. “Dá para trabalhar com fantoches, principalmente com os bem pequenos, porque temos a Rosa, o rei, a bruxa e o cavalo”, conta a educadora. “Depois, é bacana deixar que as crianças representem a história do jeito delas. Para isso, é importante distribuir materiais como chapéu de bruxa, coroas e até um despertador, para o trecho ‘O tempo passou’. Nesse processo, elas vão explorando o espaço da sala, desenvolvendo a expressividade e cantando a música.” 
  • Invente brincadeiras com as crianças. Mirtes diz que teve uma experiência recente muito interessante ao trabalhar a música A Morte do Vaqueiro, de Luiz Gonzaga, clássico em Pernambuco. “Ela tem uma letra que começa com ‘Ei, gado oi’ e, mais adiante, fala ‘Tengo, lengo, tengo, lengo/ Tengo, lengo, tengo’, uma alusão ao chocalho que o boi carrega na caatinga.” Inicialmente, as crianças escutaram a música, dançaram e se apropriaram do ritmo. Em seguida, ela e a turma pegaram um chocalho e inventaram a brincadeira do vaqueiro. “O ajudante do dia ficou com o chocalho e representou um boi que se perdeu na caatinga. Já as demais crianças e eu éramos os vaqueiros e tínhamos a missão de encontrá-lo pelo som do instrumento. Então, primeiro o boi correu, e, em seguida, nós cantamos o ‘Ei, gado oi’ como na música e saímos pela escola em busca do ‘boi perdido’.” 
  • Valorize ritmos regionais e a cultura brasileira. “Aqui no Rio Grande do Sul temos a gaita, instrumento tradicional que é chamado de sanfona ou acordeão em outras partes do país. Gosto de pensar em brincadeiras musicais que levem em conta esse som, inclusive estimulando o contato com os instrumentos”, exemplifica Elisiane. 
  • Use instrumentos musicais – e crie outros. Jacqueline comenta que leva para a turma vários instrumentos de cordas. “Trago violão, ukulele, contrabaixo… Na época do [ensino] remoto, fiz vídeos mostrando a diferença da espessura das cordas. Agora, eles conseguem tocar nesses instrumentos – e, claro, fico atenta e próxima das partes que podem danificar.” Ela também diz que gosta de conciliar materiais estruturados como esses com outros não estruturados. “Desde os vídeos do projeto, e agora na sala de aula, produzimos o que chamo de ‘bichinho musical’, um boneco composto por pedaços de papelão e tampinhas que emite um som próximo ao de uma castanhola.” 
  • Desperte a curiosidade das crianças. Elisiane conta que o Grupo Triii tem um repertório de músicas que envolvem o corpo todo e utilizam materiais diversos, como colheres e objetos de metal. Mirtes gosta de provocar a curiosidade das crianças, levando alguns objetos e propondo que encontrem outra utilidade para eles. “Um dos pilares das experiências na Educação Infantil é justamente trazer o cotidiano para dentro da sala de aula. Então, gosto de trabalhar sons e musicalidade com elementos como caixas e panelas. Até com um bloco de papel é possível fazer uma batucada”. 
  • Impulsione (muitos) gestos e movimentos: Todas as professoras entrevistadas recomendam brincadeiras musicais como Lava, Lava, Lavadeira, na qual a criança realiza movimentações de lavar, esfregar, dobrar e estender um pano ou tecido, e O Jacaré Foi Passear lá na Lagoa, que inclui um gestual de abrir e fechar os braços simulando um jacaré no trecho “Viu um peixinho/ Abriu a boca e/ ‘Nhac’. “Esse ‘nhac’ sai muito sincronizado, você nem imagina”, diverte-se a professora Mirtes. “Esses dias, estávamos almoçando na escola, e um dos pequenos estava resistente a comer. Então, uma das crianças falou para fazer igual ao jacaré, abrir a boca e ‘nhac’. Agora, na hora de comer, eles ficam abrindo o bocão do jacaré. É muito legal ver que trouxeram a brincadeira para uma experiência de vida”, observa. 

Planejamento: como colocar tudo isso em prática? 

Para fazer com que essas brincadeiras se tornem propostas efetivas na Educação Infantil, as educadoras afirmam que dois pontos são indissociáveis: intencionalidade pedagógica e protagonismo das crianças. “Ao iniciar o planejamento, o professor precisa se organizar para apresentar uma diversidade de brincadeiras novas e, ao mesmo tempo, acolher o que as crianças trazem”, explica Lucila. “Vale se questionar: quais brincadeiras cantadas o meu grupo conhece? Tenho uma lista delas? Será que sabem apenas a música ou conhecem também as regras? E o que é adequado para cada faixa etária?”. 

Outro ponto crucial, aponta Elisiane, é o planejamento dessa etapa estar sempre vinculado a toda a rotina das crianças, incluindo os momentos de alimentação e higiene e a organização de materiais. “Ao entender a importância da musicalidade, o educador deve inseri-la em momentos dessa rotina e do cotidiano”, destaca. “Ao elaborar uma playlist, por exemplo, é preciso pensar: o que essas músicas trazem? Sobre o que falam? O que eu, professora, sinto ao ouvi-las? Sempre prestando atenção também na qualidade sonora e das letras.” 

Segundo Jacqueline, é importante que o planejamento tenha um foco bem definido. “Costumo colocar nele aquilo que quero observar. No dia a dia, busco analisar as interações entre as crianças, principalmente com aquelas com deficiência, que costumam gostar muito das propostas musicais”, comenta. “Procuro também deixar algumas perguntas para eu mesma responder ao final, na hora do registro reflexivo: o que foi importante? O que chamou mais a atenção delas? O que posso explorar mais, dentro do que já ofereci?”. 

A professora Mirtes também traz algumas dicas de como estruturar essas vivências. “Sempre fico focada nas crianças: o objetivo de aprendizagem é o carro-chefe, e olho também para os campos de experiência. Um deles sempre se destaca, mas sabemos que eles dialogam entre si”, salienta. “A partir disso, vou dando continuidade e coloco [a vivência] em prática, pensando e fazendo as adaptações necessárias de acordo com a resposta das crianças àquelas atividades.” 

Por fim, Lucila frisa que o ideal é que essas práticas tenham continuidade em casa, podendo enviar as cantigas escritas em um caderno ou compartilhar as músicas e propostas em grupos de WhatsApp com os pais. “Por meio de todas essas iniciativas, vamos contribuir para desemparedar as crianças nesse [momento] pós-pandemia e apresentar o Brasil para elas por meio das brincadeiras, eternizando, assim, a nossa cultura.”
 

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