Como trabalhar "A Metamorfose", de Franz Kafka, em sala de aula

Explore o realismo fantástico do autor alemão com a leitura de uma de suas obras mais famosas

POR:
Beatriz Vichessi
Explore o realismo fantástico do autor alemão com a leitura de uma de suas obras mais famosas. Ilustração: Olavo Costa

Walleska Bernardino Silva, professora da Escola de Educação Básica (Eseba) da Universidade de Uberlândia (UFU), a 555 quilômetros de Belo Horizonte, conta que, no início, a turma não digeriu bem a leitura indicada por ela. Pudera. O livro em questão, sobre a vida de um trabalhador que um dia acorda e se vê transformado em um animal, não é mesmo muito agradável. O mal-estar era tanto que, certo dia, um aluno entrou na sala exclamando em alto e bom som o título desta reportagem. Mas logo a atividade se transformou em um desafio interessante para a turma, que se viu às voltas com o desenrolar da história de Gregor Samsa.

A sequência didática baseada em A Metamorfose, do alemão Franz Kafka (1883-1924) (104 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. 11/ 3707-3500, 23 reais), foi feita em parceria com Giuliana Ribeiro, que também leciona Língua Portuguesa para o 9º ano na Eseba. Foram realizadas discussões e análises, produção de texto e o estudo do realismo fantástico, escola artística e literária que mistura a realidade com o mágico, o impossível.

De acordo com João Luís Ceccantini, especialista em leitura e literatura infantojuvenil e docente da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), é louvável explorar textos como esse com os jovens, que geralmente têm resistência a histórias fantásticas. "Eles acham que é coisa de criança, que livros para gente mais velha têm de ser ligados ao mundo real." A ideia é interessante também porque se trata de um texto introspectivo, diferente dos de ação, com os quais a moçada se identifica hoje.

Quando indicaram a leitura da novela, as educadoras avisaram que haveria um mês para se dedicar a ela. Walleska explica que não foi preciso acompanhar a leitura. Na Eseba todos leem bastante desde cedo, inclusive originais de clássicos. Caso sua turma ainda não tenha um comportamento leitor bem desenvolvido, não faça disso um empecilho! Promova conversas semanais para comentar a história e tirar dúvidas.

Encerrado o tempo da leitura, as educadoras discutiram com os jovens a escola do realismo fantástico, para fazer ligação com a obra. Apresentaram imagens representativas, como um castelo com um lago à frente e pessoas caminhando sobre ele como se estivessem sobre uma superfície sólida. Ou seja, a combinação do irreal com o real. E citaram Kafka como um dos maiores expoentes com A Metamorfose.

O passo seguinte foi pedir que os alunos comentassem as primeiras impressões deles sobre o livro. Alguns falaram que sentiram angústia e justificaram com trechos da história.

Para dar continuidade às aulas, foi apresentada uma sequência de três vídeos (bit.ly/metamorfose1, bit.ly/metamorfose2 e bit.ly/metamorfose3) com a trama em quadrinhos. "É uma releitura. Os estudantes puderam conhecer uma nova forma de contar a história. Pelo fato de ser outro gênero que se vale de recursos além do verbal, são criados mais sentidos. A trilha sonora, por exemplo, evoca tristeza e angústia", diz Walleska.

No momento seguinte, os alunos pesquisaram a vida de Kafka e os pontos que ela teria em comum com A Metamorfose. "A relação de Gregor Samsa com o pai tem muito a ver com o que viveu Kafka. Outro ponto interessante é que a rotina de trabalho do protagonista é bem conhecida pelo autor porque ele lidava com seguros e fiscalização de fábricas", diz Renato Oliveira de Faria, doutor em literatura alemã.

Depois, os estudantes responderam a questões oralmente e por escrito, em duplas. "Não se tratava de conferir dados objetivos. Queríamos aprofundar a compreensão e discutir novos aspectos", diz Walleska. Estava liberado recorrer ao texto. Ceccantini fala que esse movimento de voltar ao material em busca de informações é valioso. Revisitando a obra, o leitor passa a estabelecer relações, pensar com base em outros pontos de vista, encontrar coisas que tinham passado despercebidas. No rol de indagações estavam questões como: "Comente a fala do filósofo e sociólogo Theodor Adorno (1903-1969) em relação à obra: ‘A origem social do indivíduo (a família) revela-se no final como a força que o aniquila.’".

Na etapa seguinte, os estudantes tinham de escolher uma dentre várias palavras apresentadas (como dominação, isolamento, aprisionamento e indiferença) e relacioná-la à obra, além de fazer uma conexão com a realidade atual. Eles podiam optar por criar um mapa conceitual ou uma apresentação virtual no site prezi.com. O resultado surpreendeu. A aluna Maria Clara Silveira, 13 anos, escolheu "aprisionamento" e falou, por exemplo, do encarceramento físico e psicológico de Samsa e das formas de cárcere contemporâneo. "Ninguém tem tempo para nada porque trabalha muito. Também acho que somos prisioneiros da internet", ela diz. Note que mais uma vez foi possibilitado aos alunos fazer uma leitura emocional do livro e revelar o que a obra significa para cada um.


Explore o realismo fantástico do autor alemão com a leitura de uma de suas obras mais famosas. Ilustração: Olavo Costa

Um inseto ou uma família parasita?

Para encerrar a sequência, foram escritos textos individuais sobre a relação parasitária existente na novela (leia o de Giovana Quites, 13 anos, na página seguinte). A turma já havia trabalhado com o gênero argumentativo e, após a produção, as educadoras fizeram recomendações sobre encadeamento, ortografia e gramática, entre outros aspectos, e encaminharam cada texto à revisão. De acordo com Ceccantini, é mais uma tarefa muito interessante porque implica em analisar a estrutura da obra. Para enriquecer o trabalho, Faria sugere que a turma leia antes o posfácio da edição citada no início da reportagem (de Modesto Carone) e o ensaio O Parasita da Família, publicado em Lição de Kafka, do mesmo autor (144 págs., Ed. Companhia das Letras, 33 reais).

Na opinião da estudante Maria Clara, todas as etapas da sequência didática foram interessantes para conhecer a história de Gregor Samsa e compreender os recursos utilizados por Kafka. "No início, foi difícil. Eu e meus colegas líamos sobre coisas que não existem e, ao mesmo tempo, tínhamos de considerar coisas por trás da história, apresentadas de modo subliminar. Mas adorei conhecer o realismo fantástico, essa forma exagerada, fantástica de transmitir uma ideia. Aprendi a pensar de outras maneiras!"

1 Momento para ler Como tarefa de casa, peça que os estudantes leiam A Metamorfose, de Franz Kafka. Se necessário, realize encontros semanais para discutir a leitura com eles.

2 Realismo ou fantasia? Apresente o realismo fantástico, recorrendo a imagens. Relacione essa escola artística e literária com a obra lida. Questione o que cada aluno sentiu ao ler o texto.

3 O autor, a trama e o hoje Encaminhe uma pesquisa sobre a biografia de Kafka e questione a turma sobre a relação entre a novela e a vida dele. Apresente questões sobre a trama, de preferência as que implique em associar a história com a época em que ela foi escrita e com a atualidade.

4 A opinião de cada um Peça que os alunos escolham um termo entre vários selecionados por você, como aprisionamento e fuga. Eles terão de organizar uma apresentação sobre como esse tema aparece na obra e nos dias de hoje.

5 Quem depende de quem? Oriente a produção individual de textos argumentativos sobre a relação parasitária em A Metamorfose. Não se esqueça de prever um tempo para a revisão.

Texto sobre a relação parasitária na obra

Os parasitas ou o parasita?

Gregório dinheiro, Gregório lucro, Gregório sustento, Gregório responsável = Família parasita.

Gregório não trabalha não ganha dinheiro, não sustenta ninguém, não é responsável, Gregório bicho, Gregório triste, Gregório repugnante = Gregório parasita.

Essas situações se dão na obra A Metamorfose, de Franz Kafka.

O livro conta a história de Gregório, o metamorfoseado, uma pessoa que sustentava toda sua família, o único que fazia algo de útil dentro de sua casa, até que em certo dia Gregório acorda em sua cama, com muitas perninhas e com uma dificuldade muito grande de locomoção. Desde então a vida de Gregório e dos que o cercam muda. A família não é mais parasita.

Gregório se tornou então uma "pessoa", coisa, bicho, totalmente dependente de sua família.
Algo que não foi muito fácil para eles, afinal os "papéis" se inverteram, agora Gregório se tornou o parasita da história. A diferença só é notada entre o tratamento em que ele recebia quando era útil para a família e agora que se tornou uma "barata", uma coisa, um ser vivo incapaz de se locomover e principalmente incapaz de trabalhar, tornando-se assim inútil e um motivo de repugnância para todos.

Essa metamorfose sofrida por Gregório pode ser notada metaforicamente na vida de algumas pessoas que querendo ou não são dependentes de alguém. De acordo com cada caso, a pessoa depende dos pais por ter um problema de nascença, e outros por terem sofrido um acidente e após este não puderam mais viver sem ajuda.

Em relação à obra é possível se comparar desta tal forma, porém a diferença é que em ambos os casos a pessoa que precisa de ajuda é ajudada por alguém que a ama, ao contrário da relação de Gregório com sua família na qual ele não é amado e sim explorado. O interesse da família de Gregório é em relação ao dinheiro que ele levava para dentro de casa antes de sua transformação. O que é apresentado na obra em diversos momentos diferentes.


  • Trecho em que o protagonista é parasita
  • Trecho em que a família é parasita
  • Trecho sobre relações parasitárias hoje

Produção de Giovana Quites, do 9º ano. Ela trata das mudanças que ocorrem na história

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