Entrevista com o educador português António Nóvoa

Para o reitor da Universidade de Lisboa, as instituições de hoje carregam a carga de caminhões sobre rodas de bicicleta. Ele destaca a necessidade de criar um tempo probatório para os professores após a graduação

POR:
Gabriela Portilho, Beatriz Vichessi

António Nóvoa

 

Ele questiona os modelos que temos hoje no mundo escolar e julga boa parte deles ultrapassada. Propõe repensar os cursos de formação inicial e continuada dizendo que, realizados fora da escola e abordando conteúdos distantes da prática, eles não têm muita utilidade. Chama a atenção para um esquema que proporcione aos docentes uma experiência semelhante à residência médica a fim de que eles tenham um tempo supervisionado para aprender a ensinar.

Dono de um pensamento crítico apurado e atento aos problemas contemporâneos que incomodam o mundo da Educação - e resvalam na sociedade como um todo -, António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa e doutor em Educação pela Universidade de Genebra, reconhece que, atualmente, a escola é uma instituição frágil e sobrecarregada.

Ainda assim, ele pede fôlego, comprometimento e empenho de todos os educadores para elaborar uma nova revolução na área, já que as últimas grandes mudanças ocorreram há 100 anos e estão desatualizadas. Dentre muitas fontes para a tarefa, indica as novidades apresentadas pela Neurociência.

Em visita ao Brasil, Nóvoa palestrou para a equipe de NOVA ESCOLA e respondeu a várias questões. As principais delas, você confere na entrevista a seguir.

 

Há algum tempo, diz-se que a Educação tem a missão de salvar o mundo. Os educadores reclamam dessa responsabilidade. Eles têm razão?
Sim. Há uma espécie de valorização retórica dos professores. Pede-se de tudo a eles. Quem vai salvar o mundo? Quem vai assegurar o desenvolvimento de todos? Quem vai garantir o progresso? Para todas essas questões, a resposta é sempre a mesma, a Educação. Algumas instituições parecem caminhões enormes carregando toneladas, mas eles têm rodinhas de bicicleta no lugar de pneus grandes. A Educação assumiu muitas tarefas. É o fenômeno da escola transbordante. Alguém necessita fazer essas tarefas enquanto ninguém as quer e a escola tem de dar conta delas. Mas uma coisa é dizer que todas são missão da escola e outra é compreender que a instituição precisa cumpri-las enquanto outras esferas da sociedade não estiverem fortes. Quando isso ocorrer, teremos um compartilhamento que chamo de espaço público da Educação.

Como construir esse lugar?
No espaço público da Educação, a escola não está sozinha. Há outras instituições. Elas também têm responsabilidades educativas, culturais e científicas, entre outras. Temos de traçar um caminho de responsabilização visando essas esferas. Para isso, a sociedade precisa se arrumar de outra maneira, sem fazer de conta que crianças e adolescentes não são um problema, já que entre 8 da manhã e 6 da tarde estão quietos em um lugar, sob a supervisão de adultos.

No Brasil, o estágio docente é obrigatório, mas o modelo é falho, não contribui com a melhora da prática. Como resolver esse problema?
Jovens professores são deixados sem acompanhamento, sem apoio e sem controle. O adequado seria que ganhassem autonomia profissional aos poucos. Os mais experientes, desde que capazes, competentes e inovadores, deveriam ter um papel maior na formação dos novatos. Conheço um modelo que gostaria de ver replicado: o Centro Acadêmico de Medicina, da Universidade de Lisboa. Ele é formado por três instituições que estavam articuladas: a faculdade de Medicina, o centro de pesquisa e o hospital. As tarefas que competem a ele são ligadas à formação médica, à pesquisa e aos cuidados de saúde. Lá existem perfis variados de profissionais, uma maneira de assegurar que a ligação entre pesquisa, formação e profissão seja coerente. Vejo alguns problemas para isso se tornar realidade entre os professores. Um deles é o desprestígio da carreira e o outro o distanciamento salarial entre o educador que lida com crianças e jovens e o que leciona na universidade.

Para tentar resolver falhas da formação inicial, projetos de formação continuada têm crescido muito nos últimos tempos. Esse tipo de investimento vale a pena?
Cursos, seminários e outras coisas do gênero nem sempre melhoram o desenvolvimento profissional no que diz respeito à prática nas escolas. Não estou dizendo que eles sejam inúteis, mas é como fazer um mestrado: é positivo, dá prestígio, mas não faz um professor ser melhor. Nada indica, por si só, que o mestre em Educação seja melhor que o colega que não tem o título. O lugar da formação continuada é a escola. É um momento reflexivo, centrado em casos reais, para a construção de práticas pedagógicas.

Avaliar os profissionais que estão em sala de aula com provas contribui para o aprimoramento da EducaçãSou a favor de dispositivos de acompanhamento e de melhoria do ensino. Insisto que deveria haver um período probatório para avaliar se a pessoa tem condições de lecionar. Mas, para que haja avaliações, os professores precisam estar disponíveis para o processo.

Existem outros mecanismos de regulação que ajudam a alavancar a qualidade da profissão?
Sim. Na Medicina, todos os profissionais sabem quem são os bons e os maus médicos. No caso dos professores, isso não é verdade. Todos parecemos iguais. E mais: lidamos demasiadamente bem com o colega que está na sala ao lado mesmo que ele faça barbaridades com a garotada há 20, 30 anos. Ninguém se intromete num caso desses porque pensa: "Não vou arranjar incômodo e mais trabalho para mim. É melhor fechar os olhos e os ouvidos e fazer de conta que não sei que bem próximo há um educador que tem comportamentos péssimos". Será muito difícil instaurar mecanismos de regulação enquanto cada um julgar que o único patrão é o ministro da Educação ou o governador, que fica a 300 quilômetros de distância da escola. E ainda que não precisa prestar contas a ninguém e muito menos a quem leciona na classe ao lado, à família dos estudantes e ao diretor.

Como o docente extrai legitimidade perante os estudantes na atualidade, com informações disponíveis em vários lugares, como as redes sociais e as iniciativas de Educação não formal?
Minha resposta tende a ser brutal. O professor tem legitimidade e ponto final. Os alunos não têm de dizer o que querem aprender, do que gostam e do que não gostam. O pior a fazer é imaginar que são eles que decidem tudo. No livro Emílio (229 págs., Ed. Publicações Europa-América, europa-america.pt, 7 euros), o suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1778) escreve que "as crianças só devem fazer o que querem". Essa frase tem servido para denegrir os pedagogos porque é mal interpretada. Li a versão original da obra para entendê-la por completo. O trecho continua assim: "Mas só devem querer aquilo que vocês professores querem que elas queiram. A criança não deve dar um passo sem que vocês o tenham previsto, a criança não deve abrir a boca sem que vocês saibam o que ela vai dizer". Ou seja, não é uma citação libertária. O docente tem de colocar sua autoridade a serviço da liberdade do aluno. Usá-la para transformá-lo em um indivíduo autônomo. É o paradoxo da Educação: colocar nossa autoridade a serviço da liberdade do outro.

A internet e a TV, por exemplo, são fontes de informação poderosas. A escola está tentando se reinventar, ou pelo menos, se adaptar aos tempos modernos. Porém, aos olhos da sociedade, parece um processo lento. Onde está o erro?
Não estamos levando para a Pedagogia as coisas mais importantes que aconteceram nos últimos 20 anos na Ciência e na sociedade. Há pessoas que trabalham com didática e com currículo, mas tenho a sensação de déjà vu. Parece que elas estão chovendo no molhado. Falta ir à procura de conhecimentos novos. A Neurociência, por exemplo, apresenta muitas informações que podem impactar a organização do espaço, do currículo e do tempo na escola. Todos esses elementos são iguais ainda, tal como eram no fim do século 19, que foi uma época bastante rica. A Sociologia da Educação, a Psicologia da Infância e a piagetiana têm seu lugar, mas não ajudam a pensar de uma maneira inovadora a realidade pedagógica atual.

Isso significa inventar uma maneira para ensinar?
Sim. Há 100 anos, as sociedades davam pouca atenção à infância, ao movimento, ao jogo, à comunicação. Eram essencialmente rurais e tinham um índice de analfabetismo imenso. Isso mudou, mas continuamos pensando a Pedagogia como antes. Temos de fazer outra revolução. Cabe à escola caminhar para tornar mais complexas as dimensões do conhecimento e da comunicação. Necessitamos inventar a ciência da aprendizagem - enriquecida com a Neurociência -, da comunicação e da gestão da aprendizagem.

Mesmo com tantas mudanças na sociedade, a escola continua sendo uma instituição imprescindível para a formação do ser humano?
Sim. Ela é o lugar onde é possível falar com toda gente e sobre todas as culturas. As crianças precisam conhecer mundos diferentes. Quando perguntaram ao filósofo francês Olivier Reboul (1925-1992) o que deve ser ensinado nas escolas, ele respondeu citando o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903): "Tudo que une e tudo que liberta". O que une são as raízes. O que liberta é o mundo. O que une são as culturas a que pertencemos. O que liberta são as ciências e as outras culturas. O que une são as tradições. O que liberta é o conhecimento sobre outras realidades. Sempre que perdemos a segunda dimensão ou a deixamos de lado propositalmente, confinamos as crianças em espaços coerentes, porém muito mais pobres.

 

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