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Escuta dos alunos e atividades interdisciplinares são opções para recompor a aprendizagem

Confira exemplos de professores que estão trabalhando para recriar o vínculo dos estudantes com a escola e encorajar seu protagonismo para desenvolver competências essenciais

PorCarol Firmino

12/04/2022

Fotografia do Jonathan Zotti da Silva, vice-diretor e professor de Língua Portuguesa do 6º ao 9º ano, em momento de sala de aula.
Em atividades de produção de texto, Jonathan avaliou dificuldades em relação a coesão, coerência e gramática. Crédito: Daniel Sasso/NOVA ESCOLA

Na EMEF Assis Brasil, em Canoas, cidade vizinha a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (RS), os desafios no retorno às aulas presenciais já eram esperados pelos professores. O processo aconteceu de forma parcial em junho de 2021, mas só agora foi concluído totalmente. A maioria dos 400 alunos da escola, localizada na periferia do município, reside em conjuntos habitacionais populares e terrenos de ocupação. “Muitos estudantes saíram e voltaram, temos os que chegaram este ano e aqueles que vi apenas online. Por isso, como primeira atividade após o retorno, pedi um relato em 1ª pessoa no qual eles me contassem nome, idade, gostos pessoais, qualidades, defeitos e sonhos”, explica Jonathan Zotti da Silva, vice-diretor e professor de Língua Portuguesa do 6º ao 9º ano. Ele tem colocado em prática iniciativas que não apenas contribuem para um diagnóstico inicial das dificuldades nesse componente curricular, a fim de organizar o trabalho do primeiro trimestre, mas também favorecem a reintegração dos estudantes à rotina da escola.

“Além de ministrar as aulas de Português, sou responsável pelas atividades de Projeto de Vida, e resolvi trabalhar de forma interdisciplinar nessas duas frentes. Então, aproveitei para avaliar o desenvolvimento do texto, quanto à coesão, coerência e gramática, e também identificar qual ideia os alunos têm de si mesmos, se é generosa e de autoestima”, descreve Jonathan. Na atividade realizada com os estudantes do 6º ano, por exemplo, o professor percebeu dificuldades em saberes simples, como a separação de sílabas tônicas, por isso, retomou esse conteúdo. Além disso, Jonathan explica que todos os professores estão realizando, regularmente, pequenas avaliações – sempre com habilidades do ano anterior – a fim de olhar para as lacunas que resultaram das limitações impostas pelo período pandêmico. É importante destacar que, já em 2020, a Prefeitura de Canoas adaptou a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e instituiu alguns marcos de aprendizagem com habilidades prioritárias a serem trabalhadas na rede municipal até o final de 2022. 

Pais, professores e direção da escola alinhados

No retorno 100% presencial na Assis Brasil, que ocorreu em março, a equipe pedagógica alinhou os objetivos em comum “em uma reunião com os pais do 6º ao 9º ano, para que pudéssemos rever algumas demandas do ano anterior e reatar os acordos”, conta Jonathan. O professor e vice-diretor planeja formações com as famílias sobre como organizar o que a escola tem chamado de “hora do estudo”, momento no qual os alunos devem resgatar em casa alguns conteúdos trabalhados em sala ou ter um contato prévio com o tema que será abordado na aula seguinte. Jonathan conta que, em 2021, os professores da instituição lançaram o podcast Tagarelando do Assis, no intuito de se aproximarem dos estudantes, instruírem sobre o período de ensino remoto e discutirem temáticas interdisciplinares. A ideia, agora, é voltar com o programa e manter esse canal de diálogo para estimular pais e filhos a incluírem a “hora do estudo” em suas rotinas. 

Por outro lado, ele destaca que limitações estruturais e pedagógicas têm sido obstáculos para que a escola coloque em prática ainda mais metodologias essenciais à recomposição de aprendizagens. “Além de faltarem professores de Ciências e Geografia, há uma promessa de reforma do prédio que já dura 11 anos. O 8º e o 9º ano, por exemplo, precisam revezar a sala de aula. Sem espaço físico, não é possível fazer uma turma de aceleração no contraturno, para trabalhar de forma multisseriada”, lamenta Jonathan. 

Retrato do professor e vice-diretor, Jonathan Zotti da Silva.
Jonathan Zotti da Silva é vice-diretor e professor de Língua Portuguesa do 6º ao 9º ano na EMEF Assis Brasil, em Canoas (RS). Crédito: Daniel Sasso/NOVA ESCOLA

Uma alternativa é considerar o diagnóstico do nível de aprendizado para fazer essa divisão nas classes durante as aulas no tempo regular. Segundo Carolina Campos, fundadora do Vozes da Educação e Pesquisadora Associada do CPRE/Teachers College, da Columbia University, “o professor pode trabalhar versões diferentes do mesmo conteúdo: uns ficam com livro, outros com quadrinhos ou podcast. E aí ele pode questionar os alunos e conduzir a atividade a partir da percepção de cada grupo sobre as diferentes abordagens”.

Boas práticas para a recomposição de aprendizagens
Luciana Hubner, coordenadora pedagógica do Prêmio Educador Nota 10 e consultora desta série de reportagens, orientou sobre boas práticas aplicáveis a qualquer componente curricular nesse contexto:

- É importante propor atividades didáticas que promovam a capacidade de pensar, analisar, investigar e aplicar o que foi aprendido em situações mais próximas da realidade do aluno;

- Uma sugestão é fazer um levantamento dos equipamentos de apoio à população do entorno da escola – quais são, que recursos oferecem, horário de atendimento, importância local e necessidade de melhoria. Nesse processo, os alunos preparam roteiros de entrevistas, entrevistam pessoas, transcrevem áudios e discutem propostas para apresentar aos órgãos competentes. Esse material coletado pode resultar em folders, página na internet e mais;

- Unir professores de diferentes componentes curriculares em um mesmo projeto também é uma alternativa interessante. No caso de Geografia, pode-se trabalhar com conhecimentos relacionados às formas de representação e pensamento espacial (mapas), mundo do trabalho, natureza, ambientes e qualidade de vida. No mesmo projeto, o professor de Língua Portuguesa propõe atividades para desenvolver habilidades fundamentais de produção de texto, como leitura e/ou oralidade, por exemplo.

Atividades criativas e interdisciplinares

Em Mogeiro, cidade da zona rural da Paraíba (PB), a EMEIEF João Vicente de Brito voltou às suas atividades presenciais em novembro de 2021. Desde então, as aulas acontecem durante a semana. A escola, localizada na Serra do Cabral, recebe 80 crianças e adolescentes de regiões próximas, como Serra do Gaspar, Serra do Tamanduá e Serra Amarela. 

Pedro Henrique Bento da Silva, professor de Matemática do 6º ao 9º ano, conta que, nos últimos dois anos, os materiais foram entregues impressos ou enviados pelo WhatsApp, já que muitos alunos não tinham acesso a um computador com internet. Por isso, na retomada, a ação imediata foi oferecer aulas, em horário regular, resgatando as habilidades necessárias para começar 2022 com menos atraso nas aprendizagens. “A revisão foi geral, apesar de sucinta e direta, para que eles pudessem atingir pelo menos parte do que é esperado na turma em que estão começando”, diz Pedro.  

Um dos focos tem sido em atividades dinâmicas, que promovam mais interação entre os alunos, explica. “A ideia é correr atrás do prejuízo de uma forma rápida e interessante. Se a gente for direto para o quadro, o interesse vai ser bem menor.” Para exemplificar, Pedro enfatiza sua atuação junto com a professora de Ciências. “No 6º ano, ela discutiu temas relacionados à pandemia, como vacinas e óbitos, e eu trabalhei gráficos com esses dados. Dividi a turma em dois grupos, e eles mesmos fizeram o gráfico de linhas, que expusemos em cartolina. Mas por que o de linhas? Deixei claro que, antes da eleição, eles vão ver muito esse formato e, de repente, podem até explicá-lo para os pais que não têm estudo”, afirma. 

Protagonismo e ocupação do ambiente escolar

O conceito de aluno protagonista coloca a criança ou o adolescente como centro do processo de aprendizagem, desenvolvendo um papel ativo, no qual ele é incentivado a expor suas ideias, debater e pesquisar. É essencial que o professor tenha clareza das competências que pretende desenvolver e trace indicadores para acompanhar o avanço das aprendizagens. Luciana afirma que “trabalhar em grupo ou usar a monitoria dos estudantes que apresentam mais conhecimento sobre determinado conteúdo podem ser formas de organização dessas atividades”.

O professor e vice-diretor, Jonathan Zotti da Silva, em mesa redonda com alunos.
As reuniões de pauta do projeto AssistaEm1Minuto são guiadas pelo professor com o objetivo de desenvolver a imprensa escolar e a cultura digital. Crédito: Daniel Sasso/NOVA ESCOLA

Na Assis Brasil, existe uma proposta para tornar a prática de monitoria, já feita em sala de aula, algo institucional. “A ideia é atrair alunos que conseguem fazer as atividades mais rapidamente e motivá-los a ajudar os colegas”, explica Jonathan. Segundo Luciana, ao implementar ações de recomposição de aprendizagens, é essencial colocar os estudantes como protagonistas e favorecer que o saber circule de maneira colaborativa entre alunos e professores.

Tanto em Canoas quanto na João Vicente de Brito, em Mogeiro, há uma preocupação em recriar o vínculo dos estudantes com o espaço escolar. “Nossa escola sempre foi muito querida pela comunidade, então, estamos tentando reproduzir isso simbolicamente. Antes da pandemia, fizemos um trabalho bacana nas aulas de Música, em que os alunos criaram o hino do colégio. Com a volta presencial, estamos sempre nos reunindo para cantar”, destaca. Um novo brasão também foi desenhado e replicado em uma bandeira para ser compartilhado nas redes sociais. “Queremos devolver a sensação de pertencimento e o gosto de estar na escola”, defende Jonathan, da Assis Brasil. 

O uso das mídias como recurso de aprendizagem é uma prática que continua presente mesmo após o fim do isolamento. No perfil do Instagram AssistaEm1Minuto, os alunos divulgam vídeos informativos com roteiros produzidos e gravados por eles mesmos. As reuniões de pauta são guiadas pelo professor Jonathan, e o objetivo é desenvolver a imprensa escolar e a cultura digital. Temas como o incentivo ao autocuidado e ao combate à pobreza menstrual, a I Semana Municipal da Água de Canoas e o aniversário da escola foram abordados nas produções. 

Pedro Henrique, por sua vez, lembra da gincana realizada com as turmas do 6º ao 9º ano, em que foi possível desenvolver as operações básicas de Matemática enquanto se divertiam. “Brincamos com sinos, chute a gol e outras dinâmicas para chegar à resposta certa. Tivemos de nos reinventar.” Por fim, o professor reforça que colocar o aluno como protagonista da aprendizagem dá a ele o que é seu por direito. “Eles estão aqui para aprender, e nosso papel é auxiliar”, conclui.

Consultoria pedagógica: Luciana Hubner

Esta reportagem faz parte do projeto Recomposição de Aprendizagens nos Anos Finais do Fundamental. Confira os demais conteúdos realizados em parceria com o Instituto CSHG e Fundação Telefônica

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