Compartilhe:

Jornalismo

Como o ensino híbrido pode ajudar a superar os desafios pós-pandemia na Educação

Descubra mais sobre o que caracteriza essa abordagem, como ela ajuda a engajar os estudantes e como pode colaborar na recomposição de aprendizagens

PorIngrid Yurie

28/03/2022

Ilustração abstrata de aluno em frente ao computador.
Ilustração: Nathalia Takeyama/NOVA ESCOLA

Se antes da covid-19 muito já se falava sobre a importância e a necessidade de promover o protagonismo da garotada, seu desenvolvimento integral e o uso significativo de tecnologias digitais no mundo da sala de aula, agora isso se faz ainda mais relevante. A exclusão escolar alcança níveis alarmantes e é preciso recompor as aprendizagens e reconquistar o vínculo dos alunos com a escola e entre colegas. Nesse sentido, o ensino híbrido pode ajudar bastante. Não se trata, contudo, de uma solução mágica. 

O ensino híbrido é uma abordagem que pode ser implementada aos poucos, conforme for fazendo sentido para os professores e os estudantes. E para funcionar, tem de acontecer acompanhado por formação docente, apoio da gestão aos professores e acesso aos recursos tecnológicos. 

"Este ano, tenho usado o ensino híbrido com muita frequência para diagnosticar os estudantes que estão chegando à turma e para personalizar o ensino a fim de nivelar as aprendizagens. Estou surpresa com o ganho de tempo que tenho tido", relata Taís Lino, professora do Colégio Uirapuru, em Sorocaba (SP).

Mas, afinal, o que é ensino híbrido?

Vamos começar pelo que não é: não se trata de alternar, simplesmente, aulas presenciais e remotas.

"O ensino híbrido é uma abordagem composta de estratégias diversas, que mesclam momentos presenciais na escola com atividades que usam recursos digitais, em qualquer espaço", explica Fernando Trevisani, professor, doutorando em Metodologias Ativas e organizador do livro Ensino Híbrido: Personalização e tecnologia na Educação (ed. Penso).

Com essa abordagem, a intenção é que as aulas sejam planejadas de maneira integrada para que as tecnologias permitam ao professor coletar dados sobre a aprendizagem dos alunos rapidamente. Com esses dados em mãos, o docente pode avaliar cada um dos estudantes e planejar as próximas aulas, personalizando o ensino. E aí está a chave: a personalização do ensino é o grande objetivo do ensino híbrido.

"É fundamental que as atividades permitam que o estudante tenha um trabalho ativo. Ele tem de construir, criar e investigar, tanto em momentos individuais quanto coletivos", diz Leandro Holanda, coautor de Ensino Híbrido: Personalização e tecnologia na Educação, diretor da Tríade Educacional e professor na pós-graduação do Instituto Singularidades. Assim, as crianças podem mobilizar seus conhecimentos prévios e contar com a mediação do professor para ir em busca dos recursos necessários até chegar onde o docente deseja, construindo os saberes de forma concreta, significativa e integrada.

Modalidades híbridas, na prática

Existem diversas formas de trabalhar com a abordagem do ensino híbrido. Confira três delas, mais interessantes para investir na recomposição das aprendizagens e as mais adequadas para a nossa realidade:

divisória de fechamento

1. Sala de aula invertida 

O que é. Basicamente, tem a ver com o envio prévio de um material para os alunos explorarem antes da aula presencial em qualquer espaço (em casa, na biblioteca da cidade ou da escola, etc).

Como funciona. Antes da aula presencial, os estudantes realizam alguma tarefa planejada pelo professor, de forma que consigam aprender parte do conteúdo que seria ensinado tradicionalmente em sala de aula. Essa tarefa pode envolver diferentes recursos, como vídeos, textos, podcasts, pesquisas online, leitura de materiais, dentre outros. Ao realizar essa tarefa, os alunos devem produzir algum material que pode ser enviado digitalmente para o professor ou levado para a escola (como um mapa mental feito em papel sulfite). Na aula presencial, o docente usa os materiais produzidos pelos alunos para realizar a aula. É nesse ponto que fica clara a inversão do processo: a lição de casa, que seria dada depois da aula foi dada antes, de modo orientado pelo professor para que a turma conseguisse executá-la. Em classe, espaço onde o docente explicaria os conceitos, os estudantes podem vivenciar outras experiências de aprendizagem com base no que foi produzido antes da aula.

Por que é interessante. Esse modelo de aula possibilita que o professor desenvolva a autonomia dos estudantes a partir de atividades orientadas antes dos momentos presenciais de aprendizagem, de modo que a turma consiga entrar em contato com alguns conceitos que seriam ensinados em sala de aula previamente. Isso estimula e fortalece o momento presencial em sala de aula com o professor, quando podem ser realizadas outras propostas, como trabalhos em grupo e produções coletivas (confira sugestão de atividade aqui). 

2. Rotação por estações

O que é. Como indica o nome, os estudantes percorrem estações para realizar pequenas tarefas em grupo.

Como funciona. Os grupos de alunos têm de visitar as estações sem uma ordem predefinida, seja na sala de aula, seja em diversos espaços da escola. O ideal é que as estações demandem diferentes habilidades e competências, a fim de atender às diversas formas pelas quais os estudantes aprendem. Ao menos em uma delas a turma precisa realizar alguma atividade no ambiente digital, de forma que o professor consiga coletar dados para analisar posteriormente e realizar a personalização do ensino. Todos os estudantes devem visitar todas as estações e o tempo de duração de todas elas deve ser o mesmo para cada grupo. Leia uma sugestão de trabalho com essa modalidade aqui

Por que é interessante. "A possibilidade da observação docente enquanto a turma realiza as atividades é fundamental e valiosa como forma de acompanhamento e avaliação. Para diagnóstico e recomposição das aprendizagens, esse modelo é especialmente útil, porque em uma das estações o professor pode propor o trabalho com um conceito anterior, para avaliar o que os estudantes sabem e, em outra estação, pode abordar algo que ele já identificou que precisa ser revisto pela turma para garantir a progressão das aprendizagens”, fala Fernando.


3. Laboratório rotacional

O que é. Semelhante ao modelo anterior, divide a turma em dois grupos que trabalham simultaneamente realizando tarefas diferentes. Um grupo fica com o professor enquanto o outro utiliza recursos digitais para realizar alguma atividade planejada pelo professor. 

Como funciona. O primeiro grupo fica em sala de aula com o professor para tirar dúvidas, dialogar sobre o conteúdo que está sendo explorado e trabalhar conceitos. Já o segundo grupo, trabalha de maneira autônoma em outra parte da escola, seguindo uma lista de atividades, preferencialmente a serem realizadas com o apoio de algum recurso digital e que permita a criação de algo próprio pelos estudantes. Tanto no diálogo direto com os estudantes quanto na análise da produção da turma, o professor pode avaliar como eles estão aprendendo e suas principais dúvidas. Por fim, com os dados coletados, o professor pode agrupar os estudantes para propor atividades que atendam às demandas específicas. Confira uma sugestão de trabalho com essa modalidade aqui.

Por que é interessante. Permite dividir a turma em dois grupos e trabalhar focado nas maiores dificuldades, mapeadas anteriormente.

divisória de fechamento

Na hora de implementar o ensino híbrido e escolher os modelos, conhecer as estratégias disponíveis é propício, mas não é necessário ficar preso a moldes. "Mais importante é ter clareza dos objetivos da aula, do que a turma vai produzir e os elementos que serão utilizados para fazer a avaliação", reforça Leandro. Confira outras modalidades de ensino híbrido na reportagem Ensino híbrido: Quais são os modelos possíveis?

Leandro também indica que incorporar uma rotação por estações, uma sala de aula invertida ou um laboratório rotacional a uma sequência didática pode ser um bom caminho para quem está começando a trabalhar com ensino híbrido. Essa estratégia permite compreender os aspectos estruturantes da prática, como organização do espaço, do tempo e do conteúdo e as formas de avaliação. "Depois o docente pode criar modelos mais autorais", reflete.

continuar lendo