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Educação Financeira e Alimentar de mãos dadas: como relacionar os assuntos?

Juntos, os dois Temas Contemporâneos Transversais rendem discussões que trazem todos os componentes curriculares para a conversa

PorDimítria Coutinho

22/03/2022

Ilustração de aluno e sua mãe fazendo compras no mercado.
Crédito: Thiago Lopes (Estúdio Kiwi)/NOVA ESCOLA

Desde 2014, os professores da EMEF Professor Milton Dias Porto, em Naviraí (MS), organizam quase todos os anos uma simulação de mercado que envolve todos os estudantes, do 1º ao 9º ano. O que surgiu como uma forma de ajudar os alunos a aprender Matemática se tornou um ambiente para exploração de diversos outros temas.

O mercado, que fica no pátio da escola, conta com embalagens de alimentos precificadas com valores reais, gôndolas, caixas, dinheiro próprio e até um banco para trocar as cédulas. “Os alunos participam tanto como clientes quanto como funcionários do mercado e do banco”, relata a professora de Matemática Ivonete Dezinho.

Com o passar dos anos, Ivonete conta que o projeto passou a ser utilizado por educadores de vários componentes curriculares para abordar diversos temas, como reciclagem, consumo consciente, desperdício alimentar e reutilização de materiais, por exemplo. “A partir das experiências, surge uma infinidade de assuntos”, conta.

São experiências como essa que revelam a relação direta entre Educação Financeira e alimentação. Cíntia Diógenes, formadora de professores e autora do Time de Autores da NOVA ESCOLA, afirma que ambas as temáticas devem ser trabalhadas, assim como na escola de Ivonete, de forma interdisciplinar. “Todos os componentes curriculares podem se apropriar desses assuntos, a ideia é essa quando a gente fala em transversalidade. Os temas da alimentação saudável e da Educação Financeira vão, como redes, fazendo ligações entre os componentes”, afirma.

O que diz a BNCC?

Quando Cíntia toca em transversalidade, ela está falando da forma como esses dois assuntos aparecem na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação Financeira e Educação Alimentar e Nutricional são dois dos 15 Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) que aparecem no documento.

De acordo com a BNCC, esses TCTs devem ser incorporados ao currículo de forma transversal, integradora e contextualizada. Isso significa que devem aparecer em diversos componentes curriculares, sempre se relacionando com o contexto específico dos alunos. Educação Financeira e Educação Alimentar e Nutricional também podem ser trabalhadas juntas. “Tradicionalmente, a Educação Financeira é abordada em Matemática e a alimentação saudável é tratada apenas no componente curricular de Ciências. Mas, como a ideia que a BNCC traz é essa integração, essa transversalidade, é preciso contextualizar o aluno sobre como esses dois assuntos repercutem em seu cotidiano”, afirma Cíntia.

A doutora Arethuza Helena Zero, especialista em Educação Financeira e autora de livros didáticos sobre o tema, afirma que “a Educação Financeira está em tudo” e que, embora a BNCC não traga a temática de maneira explícita em outros componentes curriculares, ela vai muito além da Matemática, sobretudo quando relacionada à alimentação.

Na sala de aula, é possível abordar o caminho dos alimentos do plantio até a mesa, passando por aspectos econômicos e alimentares e pela relação entre valor nutricional e preço dos alimentos, por exemplo. Indo além, muitas outras temáticas podem surgir em diversos componentes curriculares, como desperdício alimentar, produção de lixo, sustentabilidade, consumo consciente e distúrbios alimentares.

Alimentação, dinheiro e muito mais

Juliana de Queiroz, professora de Química e coordenadora de área na EE Manoel Gomes da Cunha, em Araguaína (TO), conta que durante a semana da alimentação o desperdício alimentar acabou se tornando uma conversa sobre empreendedorismo. “Falando sobre os alimentos que a gente consome e os que são desperdiçados, pensamos em coisas que poderiam ser utilizadas tanto para adubo como reaproveitadas dentro da alimentação, como na preparação de sucos e doces. No caso da produção de doces, debatemos como eles poderiam ser vendidos, abordando o empreendedorismo”, relata. Na escola, que tem turmas de Ensino Fundamental e Ensino Médio, a Educação Financeira é apresentada a todos os alunos desde 2017. “A cada ano, a gente consegue olhar a Educação Financeira sob uma óptica diferente, atraindo desde os pequenininhos até os maiores”, comenta Juliana.

Cíntia aconselha que, com alunos mais novos, dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, uma prática interessante é fazer uma pesquisa sobre valores nutricionais e preço dos alimentos, que podem ser encontrados em rótulos e encartes de supermercados, respectivamente. “Por exemplo, a carne está muito cara, mas a gente pode trocá-la por outro tipo de proteína animal. É muito interessante fazer esse tipo de pesquisa para eles produzirem um cardápio equilibrado, saudável e nutritivo, mas ao mesmo tempo tendo essa ênfase em como é possível economizar. Esse exemplo é bom tanto para os estudantes se colocarem no papel de protagonistas como também para lançar novas discussões”, afirma.

8 formas de misturar Educação Financeira e Educação Alimentar e Nutricional em sala de aula
Cíntia Diógenes, formadora de professores e autora da NOVA ESCOLA, e Arethuza Helena Zero, especialista em Educação Financeira e autora de livros didáticos sobre o tema, dão ideias para professores do Ensino Fundamental.

1. Por que determinado alimento está tão caro? Partir de um exemplo presente no cotidiano dos alunos, que eles ouvem os pais comentarem ou veem nos jornais, pode ajudá-los a entender o processo inflacionário e o caminho que os alimentos percorrem até chegarem à mesa.

2. Organizando um cardápio. Instigar os estudantes a organizar um cardápio saudável com uma quantia pré-determinada de dinheiro faz com que eles pesquisem tanto valores nutricionais quanto formas de economizar.

3. Desperdício no lanche. Na própria escola, é possível deixar uma cesta de lixo apenas para restos de alimentos, ajudando os alunos a perceber o quanto é desperdiçado nos recreios. Além disso, entender o que o próprio refeitório da escola faz com os restos pode ser uma boa ideia.

4. Insegurança alimentar simplificada. Realizar um projeto de doação de alimentos na comunidade escolar ou em outra comunidade faz com que os estudantes desenvolvam o senso de caridade, presente na Educação Financeira, e entendam a insegurança alimentar de uma forma mais simples.

5. Entendendo os distúrbios alimentares. Esse assunto, relacionado ao corpo humano, pode ser abordado em conjunto com a Educação Financeira quando a questão da publicidade, que estimula um padrão corporal para vender produtos e procedimentos, é levantada.

6. Uma receita diferente. Alunos podem escrever um livro de receitas apenas com versões adaptadas, que utilizam restos de alimentos. As receitas também podem ser colocadas em prática em casa ou no refeitório da escola, gerando um lanche comunitário.

7. O que tem na cesta básica? Ao pesquisar sobre o tema, os estudantes podem entender o motivo pelo qual cada alimento está na cesta básica das famílias brasileiras, tanto por conta de seu valor nutricional como por seu preço.

8. Comida produzida aqui. Ao analisar quais são os alimentos mais baratos na região onde a escola está situada, o professor pode trabalhar o tema da regionalização, abordando onde os alimentos são produzidos e como eles ficam mais caros ao chegar a outros estados. Nesse sentido, também é possível incentivar o consumo de alimentos de produtores locais.

Todos os componentes curriculares podem se apropriar desses temas de diversas formas. Confira alguns exemplos:

• Matemática: sistema monetário, tabelas, gráficos e análise de dados;

• Ciências: funcionamento do organismo e valores nutricionais;

• Língua Portuguesa: produção de textos (receitas e listas de compras) e análise de publicidade;

• Geografia: regionalização e agricultura;

• História: história dos alimentos e sua importância cultural;

• Educação Física: distúrbios alimentares;

• Arte: reutilização de alimentos e embalagens para produções artísticas;

• Língua Inglesa: apresentação de alimentos importados e seus aspectos culturais.

Aluno no centro da aprendizagem

Esses exemplos e formas de levar o assunto para a sala de aula só funcionam se o professor adaptá-los para o seu contexto. “Nós precisamos ver quais são as peculiaridades de cada escola e as necessidades locais. Não tem fórmula mágica nem um único material que vai servir para todo mundo, por isso o professor é a chave”, afirma Arethuza.

Juliana, que tem muitos alunos vindos da zona rural, afirma que sempre relaciona os assuntos abordados em sala de aula com a realidade deles. “Não tem como fugir, muitos estudantes plantam, colhem, têm algum tipo de prática agrícola. Quando a gente fala, já vai fazendo correlação com alguma fruta da estação, com alimentos que eles já conhecem e com os quais têm mais familiaridade”, comenta.

Além de entender o contexto dos alunos, também é importante colocá-los para agir, o que estimula o protagonismo. É o que acredita Ivonete, que percebe que a prática da simulação de mercado faz com que os estudantes aprendam melhor. “Em uma situação como essa, o aluno consegue ser o protagonista de sua aprendizagem, porque está ali efetivamente trabalhando com o dinheiro, construindo sua aprendizagem junto com os colegas”, afirma.

Consultor Pedagógico: Fernando Barnabé, professor de Matemática, integrante do Time de Autores e do Time de Formadores da NOVA ESCOLA, autor e editor de materiais didáticos.

Acesse aqui a página especial do projeto Educação Financeira Transforma e conheça todos os conteúdos da parceria entre a Nova Escola e o Instituto XP.

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