Como e por que os homens trabalham

Ensinar como eram as relações sociais em diversas épocas ajuda a entender em quais aspectos a concepção de trabalho mudou

POR:
Daniele Pachi
Trabalho contemporâneo. Foto: Joedson Alves/AE
O trabalho contemporâneo é marcado por direitos garantidos aos empregados, como segurança, carga horária e registro em carteira

Acordar cedo, tomar café da manhã e sair apressado para trabalhar. Provavelmente, essa cena faz parte do cotidiano de familiares de grande parte dos estudantes.

Será que a garotada imagina que a dinâmica do trabalho nem sempre funcionou da forma como conhecemos e vivenciamos nos dias de hoje? Essa é uma reflexão importante para ser proposta nas aulas de História. Para fazer isso, é possível aproveitar conteúdos considerados clássicos da disciplina que fazem parte do currículo de 6º e 7º anos: Roma e Grécia antiga e Idade Medieval.

"Estudar com a turma as sociedades desses períodos sob a perspectiva do trabalho é interessante porque ajuda os alunos a conhecer esse aspecto e a relação dele com as transformações que ocorreram - e ainda ocorrem - na sociedade ao longo da História", diz Juliano Custódio Sobrinho, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Para uma base sólida e uma exploração crítica, o professor precisa auxiliar os jovens a comparar o ontem e o hoje. Dessa maneira, eles vão poder relacionar os conteúdos estudados e a realidade em que vivem e fazer conjecturas.

Inicialmente, para apresentar o tema que será foco das aulas, é fundamental falar, ainda que brevemente, sobre as origens do Dia Internacional do Trabalho, (1º de maio) e seu significado social e histórico (veja o quadro abaixo). Em seguida, proponha aos estudantes, como objetivo final do estudo, a elaboração de um quadro comparativo entre as relações trabalhistas nos dias atuais, na Antiguidade e na Idade Média.

Esclareça que, para conhecer o contexto atual, eles devem ir a campo e entrevistar pessoas conhecidas (como familiares, amigos e funcionários da escola). A organização da lista de perguntas deve ser coletiva e você, professor, tem de supervisionar a seleção e fazer os ajustes necessários. Não podem faltar questões como "você trabalha quantas vezes por semana?", "tem mais de um emprego? Por quê?", "recebe algum tipo de bonificação?", "tem direito a férias remuneradas?" e "é registrado em carteira ou autônomo?". Outras perguntas, sobre valor salarial, por exemplo, não são interessantes para esse tipo de exploração.

Feitas as entrevistas, é hora de socializar as respostas e o grupo, ainda reunido, deve identificar características que marcam o mundo trabalhista atual. É possível, dentre outros cenários, que as pessoas entrevistadas ganhem salário, trabalhem em mais de um emprego e realizem uma jornada definida, com direito a receber benefícios e bonificações (essas últimas, de acordo com o cumprimento de metas estabelecidas previamente e comunicadas pelo empregador).

Antes de mergulhar com a turma nas sociedades do passado, pergunte por que as pessoas, hoje em dia, trabalham durante quase toda a vida. É provável que as respostas tenham a ver com a necessidade de ganhar dinheiro para arcar com as necessidades da família (comprar comida, roupas e remédios e viver em boas condições). Esse é um momento importante para contar que a subsistência sempre foi um dos principais motivos pelo qual os homens trabalham. Mas a relação entre empregadores e trabalhadores já sofreu grandes mudanças, bem como a forma da atividade: antes, escrava ou devida a alguma obrigação para com o patrão, e agora, livre. "Fazer um resgate histórico sobre essa atividade em vários aspectos (social e econômico, por exemplo) ajuda a entender por que as relações trabalhistas ganharam a configuração atual e se tornaram cada vez mais dinâmicas", afirma Sobrinho.

O Dia do Trabalho

Em 1º de maio de 1886, norte-americanos saíram às ruas de Chicago por melhores condições de trabalho. Eles reivindicavam a redução da jornada de 13 para oito horas, salários mais altos, descanso semanal remunerado e férias anuais. No mesmo dia, aconteceu uma greve geral no país. Os conflitos entre os manifestantes e a polícia se intensificaram: oito operários morreram e vários foram presos. Alguns, acusados de liderar as manifestações, foram julgados e sentenciados à morte. Três anos depois, a data foi oficializada internacionalmente como o dia que representa as conquistas dos direitos dos trabalhadores. No Brasil, é comemorada desde 1925.

Atividade remunerada surge só na Idade Média

Mosaico. Leemage/Getty Images
O mosaico romano mostra a grande atividade braçal, característica do trabalho na Grécia e na Roma antigas, e muito desvalorizada na época

Prepare boas aulas expositivas para contar aos estudantes que na Grécia e na Roma antigas (século 6 a.C. e 4 a.C., respectivamente), a atividade braçal era malvista e feita por escravos - pessoas capturadas em guerra ou compradas. Em ambas as sociedades, elas não eram consideradas cidadãs, ou seja, não possuíam direitos, muito menos uma legislação que as protegesse. "Na Grécia, inclusive, não havia possibilidade de ascensão social. A atividade braçal era culturalmente marginalizada e destinada a quem não podia se dedicar a questões intelectuais", diz Pedro Funari, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Já em território romano, era um pouco diferente: um escravo liberto poderia se tornar cidadão e ser incorporado à família de seus senhores.

Também é importante organizar momentos para que os jovens busquem, em sites de museus e livros de história, dados e imagens da época que retratem o tema do estudo, como o mosaico romano acima, que apresenta trabalhadores braçais em atividade. Oriente a garotada a fazer anotações para o quadro comparativo.

Planeje um momento para problematizar a questão da escravidão nessas civilizações e da escravidão dos africanos. Os alunos podem colocar tudo no mesmo balaio. Na Antiguidade, não havia a ideia de diferença racial e qualquer pessoa poderia ser escravizada. "Só na modernidade foi inventado o conceito de raça e, no século 18, os negros foram associados à escravidão", conta Funari.

Ilustração do século 15. Italian School/Getty Images
A ilustração do século 15 revela a forte relação entre o senhor feudal e os trabalhadores rurais, que podiam ficar com parte da produção agrícola

Siga a exposição, agora com foco na Idade Média (período que compreende, aproximadamente, os séculos 14 e 15), quando as relações de trabalho ganham outra configuração e passam a ser baseadas na lealdade entre empregados (chamados vassalos) e empregadores (os suseranos). Proponha que os jovens investiguem como se dava a relação entre eles. Em troca de abrigo e de parte da produção agrícola, os vassalos se dedicavam às plantações dos senhores feudais. "Destaque que a noção de trabalho recompensado ganha força nesse período e permanece até hoje, conforme mostram as entrevistas feitas pela turma", explica Geraldo Alves, professor de História Medieval e História do Brasil da Universidade Nove de Julho (Uninove). Mais uma vez, ir em busca de bons materiais (e tomar notas) é imprescindível. A imagem acima e à direita, parte da obra Les Très Riches Heures du Duc de Berry, elaborada por diversos autores, mostra trabalhadores rurais num cenário feudal.

Por fim, retome os dados atuais e finalize o quadro comparativo. Existem muitas conclusões possíveis, como a constatação de que a atividade sofreu alterações em sua essência. Hoje, trabalhar é uma decisão individual, que possibilita a ascensão social. Essa noção implica o fato de as pessoas possuem uma relação livre com seu empregador, na qual podem buscar melhores condições quando considerar interessante. Durante a análise, cuidado. É um equívoco concluir que a realidade atual é melhor que as anteriores. Elas ocorreram em épocas e contextos diferentes e devem ser entendidas e respeitadas de acordo com a cultura de cada local e de cada tempo histórico.

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