Como fazer análise das características do personagem

O estudo desse elemento central do texto para além do que está escrito é uma boa atividade para compreender o enredo

POR:
Beatriz Santomauro
Ao ler <i>Tentação</i>, conto de Clarice Lispector, os jovens da EE São João Batista discutiram se o personagem chorava ou só estava soluçando. Foto: Alexandre Rezende
Ao ler Tentação, conto de Clarice Lispector, os jovens da EE São João Batista discutiram se o personagem chorava ou só estava soluçando

Um escritor pode apresentar o personagem principal de uma história escrevendo que ele é alto, pai de dois filhos, trabalha em uma fábrica, mora no subúrbio, gosta de música e tem a mania de estalar os dedos.

No entanto, por mais que muitas linhas sejam dedicadas à descrição do sujeito, cada leitor há de imaginar mais características com base nessas informações e em outras registradas no texto. Com isso, ele poderá completar o personagem da trama. No caso do trabalhador da fábrica citado acima, uma pessoa pode inferir com base no texto que é um homem barbado e rústico, enquanto outra pode pensar em um moço tímido.

Ir mais a fundo e usar o contexto em prol da imaginação é um comportamento que precisa ser ensinado na escola. Esse enfoque é constante nas atividades planejadas pela professora Eliza de Almeida para trabalhar com os alunos do 9º ano da EE São João Batista, em Oliveira, a 159 quilômetros de Belo Horizonte. Muitos deles moram na zona rural e têm pouco acesso a livros. "Procuro variar as propostas para que todos adquiram o hábito de ler, compreendam o que está escrito e tenham prazer em conhecer novas histórias e refletir sobre o que elas contam", ela explica.

Eliza sempre organiza momentos em que lê em voz alta para os jovens e outros para que eles leiam individualmente e prevê discussões coletivas sobre os personagens e os demais elementos da narrativa (tempo, espaço e foco narrativo).

Em uma aula, a turma leu e analisou Tentação, de Clarice Lispector (1920-1977), publicado em A Legião Estrangeira (104 págs., Ed. Rocco, tel. 21/3525-2000, 21 reais). Todos puderam apresentar suas ideias. Houve quem sugerisse que a menina soluçava porque tinha chorado muito. Um estudante, porém, disse que "ela apenas estava com soluço", o que também faz sentido. Sobre o trecho "Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária", a maioria, que disse não conhecer pessoas ruivas, concluiu que a intenção da escritora era mostrar como é difícil ser diferente, fora do padrão.

Como é possível notar, variadas interpretações conferem tons distintos ao personagem e ao desenrolar da trama. Por isso, a troca de ideias é valiosa: comprova que o mesmo texto pode ser lido de múltiplas maneiras. Você deve ajudar os jovens a desenvolver a habilidade de identificar as características explícitas no texto e ir além da descrição canônica.

Pensar sobre o personagem considerando outros elementos

A turma falou sobre o que cada um pensava sobre João Gostoso, do <i>Poema Tirado de uma Notícia de Jornal</i>, de Manuel Bandeira. Seria ele bonito? Foto: Alexandre Rezende
A turma falou sobre o que cada um pensava sobre João Gostoso, do Poema Tirado de uma Notícia de Jornal, de Manuel Bandeira. Seria ele bonito?

O personagem de uma história é o maior responsável por gerar imaginação no leitor, segundo o jornalista e crítico alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973) em A Personagem de Ficção (128 págs., Ed. Perspectiva, tel. 11/3885-8388, 20 reais). De acordo com ele, esse elemento não transmite só uma informação ou um "mero conteúdo significativo da oração" mas também o contexto. Rosenfeld sugere dois exemplos: "Mario estava de pijama" e "Ele batia uma carta na máquina de escrever". Com base neles, o leitor pode imaginar como é o quarto onde está Mario, a mesa e cadeira usadas por ele, a casa e a cidade da cena. Note: a figura central ajuda o leitor a entender o enredo, faz pensar sobre o espaço e o tempo e perceber o foco narrativo.

Na leitura, esses itens caminham juntos e a relação entre eles ficou mais clara para a moçada da EE São João Batista com Poema Tirado de uma Notícia de Jornal, de Manuel Bandeira (1886-1968) (publicado em Estrela da Vida Inteira, 422 págs., Ed. Nova Fronteira, edição esgotada). Depois de analisar o material, a garotada foi desafiada a pensar por que João Gostoso tem esse nome e como seria fisicamente, o que significa morar em um "barracão sem número", o que o nome do bar queria dizer e o porquê do título do poema. Na discussão, uma aluna disse ter pensado em um sujeito magro. Mas um colega, recorrendo à informação de que ele trabalhava como carregador na feira, argumentou que o personagem era forte. Eliza conta que houve até quem pensasse que o corte de cabelo de João Gostoso era semelhante ao do jogador de futebol Neymar e que ele era bonito.

Mirella Cleto, autora de livros didáticos e professora de Língua Portuguesa, fala que os itens narrativos podem ser trabalhados um a um para direcionar as discussões, mas não devem ser ensinados de forma isolada. "Uma análise sobre o tempo da narrativa pode ajudar a compreender as características do personagem - uma prova que os elementos estão interligados", diz. Isso acontece, por exemplo, quando uma história é contada em um intervalo de muitos anos: o texto retrata várias fases da vida das pessoas.

Ler um texto individualmente e trocar ideias com os colegas

Em quartetos, os alunos elegeram um conto para apresentar para os colegas. Assim, todos puderam conhecer diversos textos e comentá-los. Foto: Alexandre Rezende
Em quartetos, os alunos elegeram um conto para apresentar para os colegas. Assim, todos puderam conhecer diversos textos e comentá-los

A preocupação de Eliza em proporcionar momentos para que os alunos explorassem os textos sozinhos se justifica por diversas razões. Ela queria que eles tivessem tempo para se dedicar a livros maiores (em sala, isso nem sempre é possível), se envolver, se emocionar, ler e reler trechos sem pressa e refletir a respeito. Para isso, ela organizou uma atividade de leitura de coletâneas de contos.

Primeiramente, consultou o acervo da biblioteca escolar, selecionou títulos interessantes e cada estudante levou um para casa. Dias depois, eles se organizaram em quartetos e trocaram informações. Cada grupo escolheu um texto, já lido por um dos integrantes, a fim de ser explorado mais a fundo por todos.

O Menino e o Burrinho, de Luis da Câmara Cascudo (1898-1986), publicado em Conto com Você (64 págs., Ed. Global, tel. 11/3277-7999, 27 reais), por exemplo, foi escolhido por um dos grupos. Ao se deparar com falas como "Eu vou comprá um animá" e "Empunhava um bodoque e trazia um embornal", os alunos concluíram que o modo de falar e o vocabulário indicavam algo importante sobre os personagens: eles eram moradores do campo. Note que, além de encaminhar os jovens a prestar atenção nas características descritas pelo autor, ensiná-los a refletir sobre os termos usados é relevante para saber mais sobre os atores da história.

Com a leitura de A Moça Tecelã (Marina Colasanti, 16 págs., Ed. Global, tel. 11/3277-7999, 32 reais), outro quarteto observou que a personagem principal não tem nome: ela é simplesmente a moça que tece. Ao longo da história, isso é reforçado com as atitudes dela. Ela trabalha o tempo todo e, embora depois de casada, sonhe em viver uma vida feliz, abdica da vontade. Pressionada pelo marido, passa a dedicar ainda mais tempo ao ofício, pois ele quer enriquecer. Como você vê, é fundamental estudar o comportamento dos personagens, pois ele pode ter muito a revelar sobre eles.

Analisados os materiais, a moçada da EE São João Batista socializou as conclusões. "Expliquei que o objetivo da exposição oral era que, mesmo sem ter lido todos contos, a classe pudesse ter acesso a mais histórias, desenvolver vontade de lê- las e conhecer vários personagens", diz Eliza. Cuidadosa, ela orientou o desenvolvimento de todo o processo, ajudando os alunos a preparar a apresentação oral e elaborar cartazes com tópicos para guiar as falas. Desse modo, a professora pôde avaliar o que cada um tinha aprendido e quais os pontos que ainda precisavam ser explorados.

Durante as apresentações, o debate foi acalorado. "Ao ouvir a exposição, os jovens criavam expectativas sobre os personagens e pediam que as análises fossem justificadas", fala Eliza.

Perceba que se foi o tempo em que as atividades de leitura consistiam em só reconhecer o personagem principal, o secundário e o antagonista. Isso pode ser feito, mas não isoladamente. Da mesma forma, a classificação de personagem em plano (que mantém o comportamento) ou esférico (que surpreende) é interessante, mas não deve ser realizada separadamente dos outros elementos nem desconsiderando a opinião da turma. No mundo da literatura, não existe certo ou errado, e sim o que parece ser possível e coerente de acordo com cada contexto.

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