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Como trabalhar a cultura digital integrada à área de Linguagens no Novo Ensino Médio

Uma das dez competências gerais da BNCC, a cultura digital se refere às mudanças provocadas pela tecnologia na forma como produzimos e consumimos cultura

PorCamila Cecílio

08/03/2022

O professor Luiz Fernando Lopes em frente a lousa, apresentando conceitos de comunicação digital.
O professor Luiz Fernando Lopes trabalhou variação linguística ao fazer um paralelo entre a linguagem utilizada pelos alunos no WhatsApp e Instagram e aquela exigida pela redação do Enem. Crédito: Eduardo Cunha/NOVA ESCOLA

Sobre a tela iluminada, dois polegares se movimentam com agilidade ao digitar no teclado minúsculo do celular: “Oi, td bem com vc? A gnt pode se ver no fds? Flw :)”. Abreviações de “tudo”, “você” e “final de semana”, gírias e emojis – pequenas imagens ou ícones que substituem palavras na comunicação virtual – são algumas características da linguagem das redes sociais e de aplicativos de troca de mensagens instantâneas. 

Tais formas de comunicação são cada vez mais comuns no dia a dia de jovens e adolescentes, tão antenados à cultura digital, uma das dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que pauta o currículo do Novo Ensino Médio, que começa a ser implementado este ano. 

A partir dessa afinidade, o professor de Língua Portuguesa Luiz Fernando Lopes encontrou o gancho ideal para trabalhar variação linguística com seus alunos do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Cônego Jonas Taurino, localizada na periferia de Olinda (PE), e ajudá-los a ter um bom desempenho na redação do último Enem. 

Após explicar o conceito de que a língua é um organismo vivo e mutável, que se adapta às situações comunicativas, o docente apresentou exemplos de variações linguísticas e traçou um paralelo entre a linguagem formal e a informal. Em seguida, pediu aos alunos que abrissem um diálogo qualquer no WhatsApp ou no Instagram, os aplicativos mais utilizados pela turma, e transcrevessem no caderno a conversa exatamente como estava no celular. 

A próxima etapa foi pegar um modelo de redação do Enem. Ao abordar cada uma das cinco competências avaliadas na prova, Luiz Fernando mostrou aos alunos que, na produção de texto para aquele contexto, a linguagem é completamente diferente daquela utilizada no universo da internet. “Quis chamar a atenção deles para o fato de que era preciso estarem atentos à redação, pois, se trouxessem para o texto recursos como abreviaturas, gírias e afins, iriam se prejudicar em relação à primeira competência da redação, que avalia o domínio da norma padrão da língua portuguesa”, explica. 

Linguagem e suas Tecnologias no universo digital

A atividade desenvolvida pelo professor Luiz Fernando Lopes é apenas um exemplo de como é possível trabalhar em sala de aula a cultura digital que, de acordo com a BNCC, refere-se, principalmente, “às mudanças provocadas pela tecnologia na forma como produzimos, consumimos e transformamos a cultura”. Mas como abordar esse conceito integrado à área de Linguagens e suas Tecnologias, uma das quatro áreas do conhecimento da Base e que abarca Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Educação Física e Arte? 

Durante a aula, o professor Luiz Fernando Lopes utiliza como exemplo um celular para apresentar os conceitos a um aluno.
A afinidade dos jovens com o ambiente digital pode ser um bom gancho para refletir sobre novas formas de produzir sentidos. Crédito: Eduardo Cunha/NOVA ESCOLA

A sétima competência específica dessa área aponta a necessidade de “mobilizar práticas de linguagem no universo digital, considerando as dimensões técnicas, críticas, criativas, éticas e estéticas, para expandir as formas de produzir sentidos, de engajar-se em práticas autorais e coletivas, e de aprender a aprender nos campos da ciência, cultura, trabalho, informação e vida pessoal e coletiva”.

De acordo com o documento, essa competência específica diz respeito às práticas de linguagem em ambiente digital. Neste cenário, no Novo Ensino Médio os jovens precisam ter uma visão crítica, ética e estética, e não somente técnica das TDIC (Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação) e de seus usos.

Patrícia Oliveira, professora de Língua Portuguesa na Escola Técnica Estadual Cícero Dias – NAVE, em Recife (PE), afirma que há milhões de possibilidades de tratar cultura digital no componente curricular. “O que é necessário é a criatividade do professor e o incentivo ao protagonismo do aluno”, enfatiza. 

Para ela, o jovem não deve ser apenas consumidor compulsivo, mas tornar-se criativo e crítico dessas novas tecnologias, ser produtor de conteúdos, reconhecendo valores para a sua formação cidadã e atuação em uma sociedade moderna.

Dentre os projetos desenvolvidos utilizando esse princípio, ela destaca o “Memes Fabulosos”, uma proposta de intergenericidade com fábulas e memes, criando assim um novo gênero midiático, que foi veiculado nos perfis do Instagram dos estudantes e da escola. A prática está sistematizada em um guia digital, feito por e para educadores, que reúne metodologias inovadoras desenvolvidas nas escolas do NAVE no Recife e no Rio de Janeiro (RJ). “Os estudantes vivenciam a competência [cultura digital] de forma muito natural e intuitiva, uma vez que já faz parte da rotina deles, pois se comunicam por meio dela o tempo todo: recebem várias informações relacionadas à família, ao bairro e à sociedade, ao mesmo tempo que produzem diversos conteúdos, como comentários, fotos, vídeos e figurinhas”, avalia. 

Cidadania digital e suas interações

Doutora em Tecnologia Aplicada à Educação, Walquiria Castelo Branco Lins avalia que “é preciso, sobretudo, compreender o significado da cultura digital e a complexidade das interações, que não acontecem apenas entre humanos, mas entre algoritmos inteligentes, sensores e outros atores técnicos que induzem nossas ações, pensamentos e comportamentos”. 

A pesquisadora explica que, ao falar da cultura digital no contexto social dos dias atuais, é necessário destacar dois pontos primordiais. O primeiro é que essas interações impactam diretamente o conceito de cidadania, não mais restrito ao espaço público e físico da cidade. O segundo é a “caixa de Pandora” aberta pela pandemia, em termos de emergência climática e desafios sociopolíticos. “Cada nação reagiu aos danos de forma diferenciada e relacionada à estruturação da infraestrutura tecnológica, de saúde, educação etc. A cultura digital é geral, diversa e local, e precisamos compreendê-la de maneira contextualizada”, diz. 

A BNCC dá sustento a esse posicionamento. Entre os fundamentos básicos da área de Linguagens e suas Tecnologias aparece, por exemplo, a necessidade de ofertar uma formação voltada a possibilitar uma participação mais plena dos jovens nas diferentes práticas socioculturais que envolvem o uso das linguagens, mas não só. 

A Base pontua que não se trata de substituição ou de simples convivência de mídias, mas de levar em conta como a coexistência dessas mídias transformam as próprias mídias e seus usos e potencializam novas possibilidades de construção de sentidos. Ao alterar o fluxo de comunicação de “um para muitos” – como na TV, rádio etc. – para “de muitos para muitos”, as possibilidades advindas das TDIC permitem que todos sejam produtores em potencial. 

“As habilidades centrais do universo digital são de linguagem, como compreensão, produção e recepção de um texto, ou até discernimento de fato ou fake. O que quero dizer é que, majoritariamente, estar conectado é estar interagindo via linguagens”, diz Marcella Abboud, professora do Ensino Médio e coordenadora de Língua Portuguesa na Sant’Anna International School, em Vinhedo (SP). 

Junto a um grupo de alunas, o professor Luiz Fernando Lopes apresenta no computador, elementos importantes para a comunicação digital.
No Novo Ensino Médio, os jovens precisam ter uma visão crítica, ética e estética, e não somente técnica das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação. Crédito: Eduardo Cunha/NOVA ESCOLA

Em 2020, durante o isolamento social, Marcella convidou a turma do 2º ano a criar um livro digital para ajudar alunos de uma escola pública a desenvolver a leitura de A Falência, de Júlia Lopes de Almeida, obrigatória para o vestibular da Unicamp. O e-book nasceu de uma proposta guiada de resenha, com diversos aspectos da obra – tema, gênero e estrutura –, de modo que cada aluno resenhou um aspecto a partir de fragmentos selecionados pela professora. 

Todas as etapas foram feitas de forma colaborativa via Google Documentos. “Trabalhamos ainda letramento digital, responsabilidade social, no sentido de apoiar quem não teve acesso à escola, empatia e colaboração”, completa. O resultado ficou tão bom que virou um e-book gratuito. 

Cultura digital no ensino da Língua Inglesa

A cultura digital também não poderia estar mais presente no ensino da Língua Inglesa, afinal, é por meio dela que, na maioria dos casos, a tecnologia se manifesta. “O inglês é a língua da tecnologia e, sendo assim, os alunos já são inseridos no idioma antes mesmo de chegarem à sala de aula para estudar”, defende Patrícia Vergara, professora de Língua Inglesa do Ensino Médio da Escola Estadual João Ramalho, em São Bernardo do Campo (SP). 

Essa ideia, de acordo com a educadora, pode ser o primeiro passo para o professor deste componente curricular tornar significativo o aprendizado do idioma, uma vez que pode iniciar o planejamento considerando o interesse dos jovens por redes sociais, aplicativos e videogames, dentre outros elementos.  

“O que se observa, muitas vezes, são alunos que entendem alguns gêneros [textuais] e trabalham com eles com maestria, lendo ou escrevendo, mesmo antes de isso acontecer na escola. Memes, posts e tweets são coisas que eles já fazem normalmente, mesmo que não reflitam sobre isso. Assim, o papel do professor muitas vezes não é o de ensinar como faz, mas o de promover análise, reflexão e debate sobre as consequências advindas desses gêneros”, diz. 

Patrícia viu isso na prática quando propôs uma atividade cujo objetivo era abordar o gênero mensagem de texto. Para isso, primeiro fez uma análise entre as diferenças de mandar uma carta, algo que os adolescentes quase não conhecem, e um e-mail. Em seguida, tratou das diferenças entre enviar um e-mail e uma mensagem via WhatsApp. 

Depois de levantar uma série de discussões sobre as diversas formas de escrever uma mesma mensagem para diferentes canais e as transformações nas maneiras de se comunicar até chegar aos dias de hoje, a professora entregou uma tabela de abreviações comuns, em inglês, para que os alunos “traduzissem” para a linguagem formal um texto que haviam escrito antes. Em grupos, eles tiveram que decodificar, por exemplo, “u” (“you” ou “você”, em português). 

A última etapa da atividade consistiu em apresentar à turma uma situação-problema em que os estudantes tiveram de enviar entre si a mesma mensagem por e-mail e por WhatsApp, de formas diferentes e em inglês. “O ideal é sempre trazer para a prática, colocar a mão na massa, sair da teoria, ir além dos materiais didáticos. Os jovens gostam de se sentir desafiados na medida certa. Assim, é importante que os professores sempre planejem suas aulas de acordo com a realidade de sua escola e de cada turma”, defende Patrícia.

Consultoria pedagógica: Raph Gomes, professor, formador de educadores e consultor educacional.