Cinco perguntas e respostas sobre os conflitos na Líbia e Muamar Kadafi

A morte do ditador pode ser debatida nas aulas de História. Relembre os principais fatos da trajetória de Kadafi e discuta com a turma o futuro do país do norte da África.

POR:
Carlos Eduardo Matos
Veja na Sala de Aula

Seus alunos sabem quem foi Muamar Kadafi? E por que os acontecimentos recentes na Líbia envolveram países importantes, como França, Inglaterra e Estados Unidos? A morte do ditador, oito meses após o início de uma mobilização popular contra o seu regime, traz à tona a discussão sobre os conflitos da chamada "Primavera Árabe" e sobre o futuro do país africano.

Além de analisar as questões políticas e econômicas envolvendo a Líbia - o país é um dos principais produtores mundiais de petróleo - o tema deve ser abordado em muitos vestibulares.

Aproveite os materiais disponíveis no site de Veja (http://veja.abril.com.br/tema/libia) e debata os acontecimentos recentes com a turma nas aulas de História. Respondemos a cinco perguntas sobre os confrontos na Líbia e a ditadura de Muamar Kadafi que ajudam a contextualizar o assunto:

Foto de Muamar Kadafi é queimada por rebeldes. Foto: Veja
Foto do ditador Muamar Kadafi sendo queimada por rebeldes durante protestos contra o regime na Líbia.
1. Quem foi Muamar Kadafi e como ele chegou ao poder na Líbia?
O coronel Muamar Kadafi (1942-2011) nasceu no deserto da Tripolitânia, região oeste da Líbia, próximo à cidade de Sirte. Era filho de um agricultor nômade e pertencia à pequena tribo Kadafi - para se ter ideia, existem mais de 140 tribos diferentes convivendo em território líbio.

Kadafi graduou-se na Universidade da Líbia em 1963 e na Academia Militar da Líbia em 1965. Desde essa época, já conspirava para derrubar a monarquia encabeçada pelo Rei Ídris I, que subiu ao trono em 1951. Dirigente da irmandade político-religiosa Sanusiah (fundada em 1837 na região da Cirenaica, no leste da Líbia), Ídris apoiava-se nas tribos da região leste do país. Com o golpe militar de 1969, que derrubou a monarquia, o coronel Kadafi despontou como o principal dirigente do Conselho do Comando Revolucionário e, mais tarde, da República Líbia. Foram as tribos do oeste, da região da Tripolitânia, que forneceram a base de sustentação para o regime de Kadafi, que com o tempo tornou-se cada vez mais ditatorial.

2. Quais as principais fases da ditadura de Kadafi?
Em 42 anos de poder, Kadafi impulsionou diferentes políticas, marcadas por grandes reviravoltas. Assim que assumiu o governo da Líbia, em 1969, instituiu a fase do "nacionalismo árabe". Inspirado pelo exemplo do líder egípcio Gamal Abdel Nasser (1918-1970), que nacionalizou o Canal de Suez, Kadafi nacionalizou, em 1973, todos os ativos das companhias petrolíferas estrangeiras no país (a Líbia é um dos principais produtores mundiais de petróleo, membro da OPEP - Organização dos Países Produtores de Petróleo), bem como os ativos das companhias de seguros e dos bancos. O ditador também buscou, desde 1970, a integração política da Líbia com outros países árabes como o Egito, o Sudão, a Síria e a Tunísia. Fracassou. A última tentativa de união, com o reino do Marrocos, realizada em 1984, durou apenas duas semanas.

A segunda fase do regime, que começou por volta de 1975, foi marcada pelo projeto de Kadafi de despontar como um anunciador de novos caminhos para os povos árabes. Nesse ano foi lançado o Livro Verde, uma espécie de compêndio que serviu como "Constituição" para a Líbia, onde o ditador afirmava sua rejeição ao capitalismo e ao socialismo ortodoxos e propunha uma espécie de "socialismo islâmico" para a Líbia. Paralelamente, Kadafi passou a flertar com grupos terroristas internacionais, como os Panteras Negras (grupo norte-americano radical que lutava contra a opressão aos negros), a Nação do Islã nos Estados Unidos e o Exército Republicano Irlandês (IRA), na Irlanda do Norte.

A terceira fase do regime de Kadafi, na década de 1980, foi denominada pelo presidente americano Ronald Reagan como a fase do "cachorro louco do Oriente Médio". O apoio aberto de Muamar Kadafi a grupos terroristas teve como resposta um ataque de aviões dos EUA à Líbia em 1986, que feriu e matou familiares do ditador. Anos depois, em 1988, agentes líbios participaram de um atentado ao voo 103 da Pan Am, que partiu de Londres com 259 passageiros a bordo e caiu sobre a Escócia. Em represália pelos mortos no atentado, a ONU impôs sanções à Líbia.

No final dos anos 1990, Kadafi encaminhou os participantes do atentado às autoridades internacionais para julgamento e assim deu início à quarta fase de seu regime, a "guinada internacional". Em 2003, a Líbia admitiu sua responsabilidade na operação e indenizou as famílias das vítimas. Também anunciou a suspensão de seu programa de armamentos. Com isso, foram suspensas as sanções econômicas e militares da ONU e dos EUA ao país. Líderes ocidentais passaram a visitar a Líbia, enquanto seu presidente perseguia militantes do grupo terrorista Al-Qaeda, então comandado por Osama Bin Laden. Por seu apoio ás iniciativas norte-americanas, em 2009, Muamar Kadafi chegou a ser eleito presidente do conselho da União Africana.

Reintegrado à comunidade internacional, Kadafi foi surpreendido pela rebelião das tribos da Cirenaica contra seu regime, em fevereiro de 2011. Na quinta e última fase de sua ditadura, as tentativas de suprimir a revolta não tiveram êxito, e os insurretos passaram a ser apoiados por aviões da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Em agosto de 2011, o regime de Kadafi não existia mais, mas ele permanecia foragido até sua captura e morte, na cidade de Sirte, dia 20 de outubro.

3. Quais as principais marcas do regime de Kadafi?
Muamar Kadafi implantou na Líbia uma ?ditadura personalista?, baseada em práticas populistas e no apoio das tribos da Tripolitânia, região da atual capital, Trípoli. Contudo, eu personalismo resultou, com o passar dos anos, em conflitos com as tribos dessa área e de outras regiões do país. Os benefícios de cunho populista concedidos a alguns setores da sociedade líbia eram pagos pelas exportações de petróleo e pelos investimentos estrangeiros no país, sobretudo italianos.

4. Como começaram as revoltas e por que países como França e Inglaterra apoiaram sanções à Líbia?
A rebelião foi estimulada pelos acontecimentos da chamada Primavera Árabe, onda de revoltas populares iniciadas na Tunísia e no Egito, países vizinhos à Líbia. A queda dos presidentes de ambos os países mostrou que a mobilização popular contra governantes despóticos podia ter êxito. A rebelião na Líbia teve início em 15 de fevereiro de 2011, na região leste do país, com manifestações antigovernamentais que logo se estenderam para todo o território.

Quanto aos fatores que levaram países como França e Inglaterra a apoiarem sanções à Líbia, cabe lembrar uma afirmação feita na reportagem "Vai-se um tirano...", publicada em Veja (Ed. 2232, 31 de agosto de 2011): "a França e a Inglaterra, em especial, aparentemente viram na troca de regime [de Kadafi por outro, instaurado pelos rebeldes da Cirenaica] uma oportunidade de desbancar a Itália como a maior investidora na Líbia". A Itália mantinha forte presença no país africano desde 1912, quando o território tornou-se colônia italiana após a Guerra Ítalo-Turca; e manteve sua influência mesmo depois de o território cair em poder dos britânicos em 1942-1943, no decorrer na Segunda Guerra Mundial.

5. Qual o destino da Líbia após a queda de Kadafi? Ela poderá se tornar um "novo Iraque"?
Em primeiro lugar, o novo Estado líbio, hoje comandado pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), terá fortes laços políticos e econômicos com o Ocidente. Na Europa, os investimentos líbios são da ordem de 340 bilhões de dólares. A Líbia investe grandes quantias em empresas como a francesa Electricité, a Siemens da Alemanha, a Shell e a British Petroleum da Inglaterra e o Unicred, segundo maior banco da Itália.

Em segundo lugar, a Líbia não tem, e dificilmente terá em um futuro próximo, unidade nacional. Resta saber se será equilibrada a divisão do poder entre as tribos da Cirenaica - hegemônicas de 1951 a 1969, e novamente agora - e as da Tripolitânia, próximas à capital do país. Se as tribos da Cirenaica, que comandaram o início das revoltas, dominarem amplamente o cenário político-social, a instabilidade poderá permanecer. Ainda assim, a ausência de grandes conflitos religiosos - em sua enorme maioria, os líbios são muçulmanos sunitas - torna menos previsível a transformação da Líbia em um "novo Iraque".

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