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Inflação, desemprego e pandemia: como trazer a macroeconomia para a sala de aula?

Ao abordar o contexto brasileiro, é possível direcionar os estudantes a um olhar mais crítico e social da Educação Financeira

PorDimítria Coutinho

22/02/2022

Ilustração de personagem fazendo doação de alimentos para morador de rua.
Ilustração: Thiago Lopes (Estúdio Kiwi)/NOVA ESCOLA

Por que é tão difícil conseguir um emprego? Será que a baixa escolaridade é uma barreira? E a raça, o gênero? A conversa era informal, mas os questionamentos, muito sérios. O papo aconteceu entre os estudantes de uma classe multisseriada da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Municipal de Educação Básica Adamastor Baptista, em Franco da Rocha (SP). O professor de matemática George Henrique da Conceição escutou o que diziam e teve a ideia de desenvolver um projeto relacionado ao desemprego.

Colocou sua turma de 26 alunos com, em média, entre 55 e 65 anos, para pesquisar como esses fatores poderiam prejudicá-los na hora de tentar se encaixar em uma vaga. Eles criaram hipóteses e foram em busca de dados, como os do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para encontrar respostas. Tratando de um tema macroeconômico, George inseriu nas aulas a leitura de gráficos e tabelas e a estatística. Mas o mais importante é que os estudantes conseguiram analisar a situação em que se encontravam. “Eles se apropriaram do discurso matemático dentro de um tema importante para a vida deles”, relata George. Durante as pesquisas, discutiram políticas públicas, sazonalidade dos empregos, as crises econômicas pelas quais o Brasil já passou e quais grupos são mais afetados pelo desemprego nesses momentos. 

O sucesso do projeto, que durou um bimestre, está atrelado à escuta e à aposta no protagonismo dos estudantes. “Eu dei liberdade para pesquisarem e somente no final, depois que constituíram os saberes, reforcei as linguagens matemáticas aprendidas. Então, é uma inversão: a atividade começa com o aluno entrando em ação com um assunto sugerido por ele. Dessa forma, ele tem mais interesse, sente-se valorizado e ouvido e desenvolve a autoestima”, afirma o professor, que tem 10 anos de experiência na EJA.

O tema proposto pelos alunos de George é um dos mais recorrentes na mídia, já que, atualmente, o desemprego atinge quase 13 milhões de brasileiros. Além disso, com a inflação acima de 10% e a crise agravada pela pandemia de Covid-19, notícias sobre macroeconomia chegam diariamente aos jovens estudantes de todo o país. Em um primeiro momento, pode não parecer, mas a área está diretamente relacionada com a Educação Financeira. Auxiliar os alunos no entendimento daquilo que afeta economicamente o país todo é muito importante para eles compreenderem também as próprias finanças, tornando-se mais conscientes e éticos. 

Do macro ao micro, e vice-versa

“Uma grande questão no estudo da Educação Financeira é o que fazer com as informações macroeconômicas que chegam pela mídia. Aí entra a perspectiva de desenvolver um olhar crítico, político, social, que vai além dos números, da matemática e da estatística”, afirma Cristiane Pessoa, professora e pesquisadora da Pós-Graduação em Educação Matemática e Tecnológica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Para a pesquisadora, docentes de qualquer componente curricular podem se apropriar da macroeconomia. “Por exemplo, o que gera a inflação? Tanto as causas quanto as consequências não estão relacionadas meramente a aspectos econômicos e numéricos, mas também a questões políticas. E isso pode – e deve – ser discutido com os estudantes do ponto de vista de Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Matemática e outros componentes curriculares”, acrescenta.

O principal componente curricular que explora a macroeconomia em sala de aula é a Geografia, em especial a partir dos anos finais do Ensino Fundamental. Apesar dos temas serem frequentemente expostos aos estudantes, muitos professores não os relacionam com o contexto local, justamente no qual a Educação Financeira pode ser abordada. “Um dos grandes temas da Geografia é o mundo atual e as transformações econômicas que aconteceram por consequência da Guerra Fria”, aponta Marina Lisboa, professora de Geografia do Ensino Médio em uma escola privada em Santo André (SP) e formadora na Nova Escola. Ela diz que o caminho para trabalhar a Educação Financeira a partir de assuntos macroeconômicos passa por entender como eles impactam o dia a dia das famílias. “Não faz sentido trabalhar só o macro, sem esse viés de como ele afeta minha vida. Quando você traz para a realidade do aluno e mostra como a desvalorização do Real prejudica o bolso dele, ele começa a entender melhor”, afirma.

Charleson Campos, professor de Geografia dos anos finais do Ensino Fundamental na Escola Municipal Amador Aguiar, em Joinville (SC), procura incentivar os alunos a refletir sobre o impacto de diferentes aspectos da macroeconomia em suas vidas. Ela lança para a turma diversas perguntas: como a alta nos preços de produtos ou o não consumo de certos serviços se relaciona com a alta inflação? Como a pandemia influencia ou influenciou a renda familiar? Quais estratégias foram desenvolvidas para superar as dificuldades do período? “Abordar essas questões torna-se uma responsabilidade social. Afinal, não é difícil que esses problemas surjam dentro da casa dos estudantes. E eles podem auxiliar familiares com exemplos tratados ou discutidos em sala de aula”, acredita. 

Este ano, Charleson decidiu desenvolver projetos de Educação Financeira em parceria com Anderson dos Santos, que é professor de Matemática na mesma escola e trabalha com o tema desde 2015. “Na grande maioria das vezes, quem se compromete a falar de Educação Financeira é apenas o professor de Matemática. Essa é a dura realidade. Mas quero envolver colegas de outras áreas”, comenta. Em suas aulas, ele discute diversas temáticas com as turmas. Depois, os jovens produzem materiais para compartilhar com a comunidade escolar. O que há alguns anos eram palestras, atualmente são vídeos no YouTube – e o professor planeja uma interação maior com as redes sociais e em novos formatos, como os podcasts. Tudo isso para levar o conhecimento até as famílias.

Cristiane ressalta que os exemplos domésticos ajudam a compreender assuntos que afetam todo o país ou o mundo. Ela sugere que os alunos investiguem com os pais, por exemplo, quanto pagavam na feira ou no mercado pela compra do mês antes da pandemia e quanto pagam agora, ou que comparem contas de água e de luz de anos diferentes. A visualização do micro pode ser a ponte para discutir em sala de aula sobre inflação, crise econômica, política e meio ambiente. “A matemática é dinâmica e se relaciona com questões políticas, econômicas, sociais e culturais”, afirma a pesquisadora. Anderson e Marina também recorrem a notícias, charges, memes e vídeos para ensinar. “A escassez de produtos e a carestia aparecem direto nas mídias. Tem um monte de memes sobre o preço dos combustíveis nas redes sociais”, comenta Marina. “De uma única notícia relacionada à economia é possível puxar assuntos ligados a agricultura, pecuária e relação cidade-campo, por exemplo”.

Macroeconomia e Educação Financeira na BNCC 

Para George, que dá aula para turmas de EJA, basta ouvir os alunos para ter um ponto de partida nos contextos deles, buscando um novo olhar sobre as habilidades propostas na BNCC. As conversas com os estudantes no retorno presencial geraram boas oportunidades de discussão. “Eles comentaram sobre o auxílio emergencial e as experiências que viveram em casa, como o desemprego dos familiares. Dali, partimos para a economia familiar, para entender como o contexto de microprodução em casa afeta a macroeconomia”, afirma.

Além de Matemática e Geografia, quase todos os componentes curriculares podem se apropriar da Educação Financeira nos anos finais do Ensino Fundamental. Em um estudo realizado pelo grupo de pesquisa do qual Cristiane faz parte na UFPE, foram encontradas habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) relacionadas à Educação Financeira em todas as áreas de conhecimento, e muitas delas permitem a abordagem a partir da macroeconomia.

Em Língua Portuguesa, por exemplo, é possível trabalhar peças publicitárias para analisar quanto um produto custava há algum tempo e quanto custa hoje, e debater sobre a inflação. Em Arte, um caminho é entender como diferentes contextos econômicos, políticos e sociais podem valorizar mais ou menos o trabalho de artistas. Em Ciências, dá para tratar de combustíveis fósseis e da alta da gasolina em um mesmo projeto, ou relacionar o preço da conta de luz com a matriz energética nacional. Já em História, os impactos da Revolução Industrial podem levar à discussão de temas econômicos atuais.

Clique no botão e confira uma lista de habilidades da BNCC relacionadas à macroeconomia de acordo com o componente curricular.

Consultor Pedagógico: Fernando Barnabé, professor de Matemática, integrante do Time de Autores e do Time de Formadores da NOVA ESCOLA, autor e editor de materiais didáticos.

Acesse aqui a página especial do projeto Educação Financeira Transforma e conheça todos os conteúdos da parceria entre a Nova Escola e o Instituto XP.

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