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Jornalismo

Como ter um currículo literário favorece a formação de leitores

Saiba como construir trabalho sólido na escola para que os alunos dos Anos Finais sejam capazes de ler muito além do texto em si

PorIngrid Yurie

21/02/2022

Crédito: Getty Images

Ao longo do Ensino Fundamental momentos prazerosos de leitura embaixo de uma árvore, em uma cabaninha ou em roda na sala de aula vão ficando cada vez mais raros. Nos Anos Finais, os livros passam a aparecer no dia a dia escolar quase como um obstáculo que os estudantes precisam transpor para realizar, por exemplo, um fichamento e obter uma nota. Essa forma de trabalho pode afastá-los da literatura e traz prejuízos para seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 

“Nos documentos curriculares aparece a formação de um leitor crítico, competente e proficiente que consegue compreender o que leu e se posicionar a partir disso”, diz Érica de Faria Dutra, formadora de professores no Instituto Vera Cruz, no Avisa Lá e na Comunidade Educativa CEDAC, e coordenadora pedagógica do programa Taba na Escola. “Mas podemos ser mais ousados e desejar formar, junto a isso, um leitor mais humano, que possa olhar para sua vida e para a do outro de um jeito mais empático", complementa.

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A intenção deste curso é discutir estratégias didáticas que contribuam para a formação de adolescentes que sejam leitores literários, por meio da apresentação de gêneros que dialogam com a realidade deles.


É nessa perspectiva que trabalha Ana Cláudia Santos, uma das vencedoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2014 e em 2018 e professora de Língua Portuguesa na Escola Estadual Padre Paulo, em Santo Antônio do Monte (MG). Ela planeja um percurso para que, ao final do 9° ano, o perfil leitor de seus estudantes seja o de coautor das obras que leem: “Isto é, que eles tenham a capacidade de extrair a essência das obras literárias, traduzi-las para suas vivências e ampliar seus horizontes”. 

Nisso, a escola tem papel central. Ela permite o acesso, de forma mediada, à diversidade de obras, estilos e autores, e pode criar espaços e tempos consistentes para que os estudantes tenham a oportunidade de explorar o que gostam (ou não) de ler, e de criar suas próprias interpretações acerca das narrativas, bem como confrontá-las com as dos colegas. 

“O equilíbrio está em atrelar as impressões pessoais do estudante – o que sentiu, pensou, como a história se relaciona com sua vida – às respostas mais analíticas e referentes ao seu repertório literário. E quando isso é feito com a turma toda, o aluno percebe que ele interpretou uma coisa e o colega, outra, e não existe certo ou errado”, sintetiza Érica. 

É assim que a característica humanizadora da literatura se estende do individual para o coletivo, porque os estudantes compreendem que pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema são possíveis e que derivam das subjetividades, contextos e trajetórias de cada um. 

Currículo literário na escola

No cotidiano escolar os educadores esbarram em uma série de entraves para formar esse perfil leitor. “Faltam estímulos por parte do governo federal em relação a políticas de livros, o que na prática dificulta o acesso às obras”, observa Luiz Guilherme Fernandes, professor de Língua Portuguesa para os Anos Finais na Escola Municipal de Ensino Fundamental Presidente Prudente de Morais, em São Paulo (SP). 

Além disso, as obras literárias competem com a atratividade que as telas exercem sobre os adolescentes, e demandam do professor um jogo de cintura para conciliar diferentes formas de ler em meio às salas superlotadas e à falta de tempo e espaços para promover atividades de leitura.

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Há, ainda, outro obstáculo estrutural: o fato de que a literatura, diferentemente das demais áreas do conhecimento, não possui um currículo consolidado. “Isso faz com que muitas vezes o professor não se perceba no lugar de fomentar e provocar o estudantes para esse universo literário”, comenta a professora Ana Cláudia. 

A proposta de um currículo literário não é engessar o trabalho docente, tampouco resume-se a uma lista de livros que os estudantes devem completar. Ele precisa definir o tipo de leitor que se deseja formar, as habilidades a serem desenvolvidas ano a ano para alcançar esse perfil, as formas de escolher um livro, definir como será feita a mediação e as práticas de leitura, e como elas vão se articular na rotina da escola em um trabalho regular e coerente entre todos os professores. 

Na construção desse documento, também é importante definir a abordagem que se dará às obras, para que a literatura não se torne utilitária. “A ideia não é usar o livro como pretexto para ensinar outros conteúdos ou temáticas, mas é definir como debater questões sociais, por exemplo, sem esquecer a obra e os sentidos que ela causou nos estudantes”, orienta Érica. 

Vale a pena, ainda, considerar nesse currículo novas formas de avaliação desse trabalho, para que a leitura não esteja atrelada à obtenção de uma nota. “Por que não permitir que os estudantes criem algo próprio com base na leitura de um livro?”, questiona o professor Luiz Guilherme. 

Dicas para ter um currículo literário na escola

As escolas podem construir seus próprios currículos literários a partir do que faz sentido para a comunidade escolar. Confira cinco orientações de como organizar esse trabalho: 

  1. Envolva todos os professores. Inclusive os que não são de Língua Portuguesa, pois eles podem contribuir com propostas de projetos interdisciplinares para favorecer a formação de leitores.
  2. Olhe para o território. No entorno da escola pode haver uma produção cultural rica, alguém interessado em ler uma história para os estudantes e escritores da comunidade que vão inspirá-los. É possível convidar essas pessoas para participar de iniciativas da escola.
  3. Promova a formação docente. A mediação da leitura requer um preparo próprio, bem como conhecer a diversidade de práticas de leitura — tais como a autônoma, em grupo, em voz alta pelo professor), a formação de um clube do livro e sessões simultâneas de leitura.
  4. Busque espaços para ler. Sair da sala de aula pode tornar a experiência mais rica e prazerosa. Procure com a turma outros espaços na escola e no território em que possam sentar, deitar e ler. Além disso, esses ambientes também favorecem a troca e a construção de vínculos entre eles, fundamental para promover uma comunidade de leitores.
  5. Defina o acervo. Estabelecidos os critérios literários e linguísticos que vão orientar a escolha das obras, defina com todos os professores os títulos que podem garantir a diversidade de experiências estéticas e culturais, a progressão das aprendizagens e a formação leitora dos estudantes..


A leitura na prática da sala de aula

O trabalho de professores que buscam cultivar o perfil leitor nos Anos Finais têm em comum o fato de que não dão aulas expositivas sobre um livro. Eles promovem a experiência de ler alternando entre momentos individuais e compartilhados; propõe obras que se aproximam do que os estudantes gostam e, depois, vão progressivamente aumentando o desafio — sempre dando espaço para o diálogo entre os estudantes acerca das narrativas. “Bons livros são aqueles que provocam a turma por não terem uma única mensagem”, diz Érica. 

Luiz Guilherme conta que, para desenvolver o gosto pela leitura, promove momentos na sala de leitura em que deixa os estudantes explorarem o acervo da escola livremente. Seu papel é observar as preferências, tirar possíveis dúvidas e indicar obras consirando o interesse dos estudantes. “Também funciona promover um clube de leitura, porque eles trocam muitas informações entre eles e gostam, especialmente, do trabalho com poemas, a comparação com músicas e outros textos que eles já conhecem. Pode dar certo com os mais novos propor que criem gestos corporais interpretando palavras-chave de um texto”, relata. 

Já na experiência da professora Ana Cláudia, as turmas do 9° ano gostaram especialmente de gravar podcasts de crônicas, e de produzir vídeos com resenhas de livros e pequenas encenações dos textos para o canal de YouTube da turma. No final, os estudantes fizeram uma autoavaliação da experiência. “Fez tanto sucesso que de repente os alunos começaram a escrever histórias baseadas nos personagens que tinham lido e nas vivências deles”, comemora a docente.

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Quando planeja o perfil leitor que deseja que seus estudantes alcancem, o professor Daniel Carvalho de Almeida, que leciona Língua Portuguesa na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Aurélio Arrobas Martins, em São Paulo (SP), inclui também a possibilidade de que eles sejam autores. 

O trabalho começa com conversas sobre os sentimentos provocados pelo texto, somado a exercícios de ver a poesia em cada instante da vida — como propõe Vygotsky. “Perguntas como 'o que o autor quis dizer?' matam essa experiência”, indica o docente. 

E para dar contorno aos diálogos, quando uma interpretação vai mais longe do que o texto permite, o professor tenta mostrar que essa análise advém de um contexto de vida ou uma lembrança pessoal. "E tudo bem. Eu só indico que ele foi um coautor do texto, escrevendo um novo sentido para ele", diz. 

Aos poucos, os estudantes vão percebendo que os livros estão ao alcance deles, seja como leitores ou como escritores. “A literatura, como diz [a antropóloga] Michèle Petit, é uma forma de resistência ao caos interior e à exclusão social. Nesse sentido, trago para a minha prática também o MC Renan Inquérito, quando ele fala 'se a história é nossa, deixa que nóis escreve'. Então o que eu quero para os meus estudantes é que por meio da literatura eles sejam leitores de mundo e autores, não só de textos, mas de suas próprias vidas”, afirma Daniel.

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