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01 de Abril de 2013 Imprimir
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Bons leitores, bons escritores

Conheça as situações didáticas essenciais para os alunos lidarem bem com textos cada vez mais difíceis até o fim do 9º ano

Por: Elisângela Fernandes
Nathalya e um trecho do texto premiado na Olimpíada de Língua Portuguesa. Foto: Rafael Silva. Ilustração Melissa Lagôa
Nathalya e um trecho do texto premiado na Olimpíada de Língua Portuguesa

A produção da página seguinte é um trecho de Cores, Aromas e Sabores de Infância, de Nathalya Cristina Trevisanutto, 13 anos. Aluna do 8º ano do CEEFM Doutor Duílio T. Beltrão, em Tamboara, a 503 quilômetros de Curitiba, ela foi uma das vencedoras, em 2012, da Olimpíada de Língua Portuguesa, na categoria memórias literárias, ao contar lembranças de sua professora. Todos podem ter um desempenho como o de Nathalya. Para isso, o professor de Língua Portuguesa deve garantir que entendam e produzam textos cada vez mais complexos desde a alfabetização inicial até o 9º ano.

Isso implica uma série de competências. Na hora da leitura, os alunos precisam ser capazes de tomar uma posição frente ao que leem, perceber não só o que está explícito, mas o que está subentendido, e compreender as intenções do autor e suas motivações para apresentar a informação de determinado modo. Na hora de redigir, têm de saber definir quem será o destinatário, qual o propósito da escrita e como fazer isso de um jeito eficiente. Aí está incluído definir o gênero mais adequado e seguir as normas e os padrões socialmente aceitos. Infelizmente, poucos conseguem.

Avaliações que medem as habilidades de leitura, como a Prova Brasil, revelam que há muito a ser feito. Em 2011, 70% dos jovens do 9º ano não alcançaram a nota mínima esperada para essa etapa, segundo o corte estabelecido por organizações ligadas à Educação. O indicador é um sinal de que dificilmente eles são escritores competentes, pois ler bem é condição para uma boa escrita. É preciso "gerar um conjunto de condições didáticas que autorizem e habilitem o aluno a assumir sua responsabilidade como leitor", defende a pesquisadora argentina Delia Lerner no artigo A Autonomia do Leitor - Uma Análise Didática.

Como propor os quatro desafios

Não basta ler só para responder às questões explícitas. Do mesmo modo, não adianta escrever apenas para o professor corrigir. Para inverter essa lógica, ainda presente na escola, uma saída é propor situações didáticas desafiadoras, como ler textos informativos que não têm os alunos como público-alvo e obras literárias de peso, reescrever uma história conhecida e produzir algo autoral. Nesta reportagem, mostramos como elas foram propostas por quatro professoras.

Desenvolver os comportamentos leitores e escritores leva tempo. Por isso, as quatro atividades devem ser propostas ao longo do Ensino Fundamental por meio de atividades permanentes, sequências e projetos didáticos. Cabe a você sempre adequar o nível de dificuldade delas aos conhecimentos da turma e considerar o que é preciso ensinar naquele momento.

Ajuda nesse processo manter até o 9º ano práticas como a leitura pelo professor e produções coletivas no quadro ao tratar novos conteúdos curriculares. "Quando isso ocorre, o docente atua como mediador, centrando a atenção da garotada num aspecto discursivo - relacionado à linguagem em uso - ou notacional - como questões ortográficas e gramaticais", diz Cristiane Tavares, mestre em Literatura e formadora de professores da Associação Crescer Sempre. "Os objetivos da produção individual e da coletiva são diferentes. Elas se complementam." Por isso, os jovens do 6º ano em diante devem redigir individualmente. "O bom desempenho deles está relacionado à familiaridade com os textos e ao tempo de experiência como leitor e escritor", enfatiza Helena Weisz, professora de Literatura e Redação e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada. Então, que tal incluir mais experiências de leitura e escrita nas suas aulas?

Leitura de textos informativos difíceis

O que é Ler textos que não têm como público-alvo alunos da Educação Básica e que podem ser encontrados em diferentes situações cotidianas. Reportagens e artigos de divulgação científica são exemplos.

Por que propor Para ensinar a fazer inferências em relação a aspectos não explicados pelo autor, relacionar ideias citadas em diferentes pontos e levantar chaves de interpretação, antecipando, verificando e descartando dados irrelevantes.

Informações que vão além do livro didático

Marcelo Henrique Dias Martins Marques, 8 anos. Arquivo pessoal/Susan Carolina Amorim
Marcelo Henrique Dias Martins Marques, 8 anos

Para que o 3º ano da EMEF Cecília Meireles, em São Paulo, aprendesse a distinguir os animais invertebrados dos vertebrados e conhecesse características dos mamíferos, Susan Carolina Amorim propôs uma sequência didática. Algumas atividades eram baseadas em textos informativos.

A professora leu com as crianças O Maior Peixe da Terra. Depois, pediu que relessem e sublinhassem o tamanho do tubarão-baleia, o lugar onde vive, do que se alimenta e suas características. Algumas grifaram frases inteiras e outras apenas umas poucas palavras. Durante a discussão, elas concluíram que no segundo caso retomava-se a informação de forma mais rápida e precisa. Susan também colocou em debate respostas que não atendiam ao enunciado. "Assim, ficou clara a necessidade de selecionar a informação de acordo com o que foi solicitado."

Mais adiante, a aula teve como base o texto informativo Quando os Animais Mentem, trecho de reportagem publicada na revista SUPERINTERESSANTE de abril de 1988, que aborda a capacidade de alguns animais se camuflarem. Susan fez a leitura compartilhada e pediu que, em duplas, os alunos respondessem a questões. As respostas foram transformadas em curiosidades, utilizando marcas linguísticas, como "Fique ligado!" e "Você sabia?". Para que dessem conta da tarefa, a professora indicou livros e revistas que continham material semelhante. Os estudantes produziram as curiosidades com textos de autoria, baseados no que aprenderam sem recorrer ao texto fonte.

Por fim, todos leram em duplas Nem Cobra Nem Minhoca, de Oscar Rocha Barbosa, que integra a obra Textos Informativos, Textos Instrucionais e Biografias, do Ministério da Educação (MEC). O desafio estava em inferir informações e preencher uma ficha técnica. Para evitar que a turma apenas procurasse uma palavra presente na pergunta e copiasse mecanicamente um trecho, Susan usou outras, que não apareciam no texto, como hábitat, cujo significado estava implícito. Por fim, cada um escreveu um texto informativo a respeito do que aprendeu nas aulas sobre os animais.

Como demonstra a sequência realizada por Susan, é fundamental diversificar as atividades, com momentos de leitura individual, coletiva e pelo professor. Além disso, a professora dá oportunidade de as crianças lerem textos não dirigidos especificamente a elas, como defende Delia Lerner em Ler e Escrever na Escola - O Real, o Possível e o Necessário (128 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 44 reais): "Os textos fáceis só habilitam para se continuar lendo textos fáceis. Se pretendemos que os alunos construam por si mesmos (...) o comportamento de se atrever a ler textos que são difíceis para eles (...), é imprescindível enfrentar o desafio de incorporar esses textos em nosso trabalho".

Leitura de textos literários difíceis

O que é Conhecer, analisar e investigar a linguagem literária em variados gêneros, como romances, contos, crônicas e poemas para ter condições de formar um gosto literário.

Por que propor Para que o aluno ganhe familiaridade com o texto literário e identifique seu caráter ficcional e poético. Assim, além de entender o sentido do que foi escrito, ele se torna capaz de reconhecer a engenhosidade e os recursos utilizados pelo autor.

Poesias divertem e emocionam

João Vitor de Souza Santos, 12 anos. Arquivo pessoal/Ligia Maria Benelli Rosa
João Vitor de Souza Santos, 12 anos

No ano passado, as aulas do 6º ano da EE Professor Celso Müller do Amaral, em Dourados, a 235 quilômetros de Campo Grande, foram embaladas por poemas. Para que os estudantes desenvolvessem competências para ler o gênero de forma eficiente, Ligia Maria Benelli Rosa organizou uma sequência didática. Como diagnóstico, pediu que investigassem os poemas preferidos de amigos e familiares. Na aula seguinte, cada aluno leu um dos que trouxe. Durante as discussões, ela verificou que eles sabiam identificar versos, estrofes e rimas, mas achavam que a temática girava sempre em torno do amor.

Para mostrar que muitos assuntos podem servir de inspiração para os poetas, Ligia propôs a leitura individual de Tem Tudo a Ver, de Elias José (1936-2008) (disponível em escrevendo.cenpec.org.br, assim como os demais textos usados pela professora). "Depois, recitei o poema para entenderem que a entonação e o respeito à pontuação ajudam na interpretação." Em seguida, a sala discutiu a musicalidade e a cadência dos versos e a ideia de unidade conferida com a conexão entre as estrofes. Mas o debate maior foi sobre a diversidade de situações cotidianas que podem ser fonte de inspiração e provocar diferentes sensações.

A meninada escolheu, então, um livro de poesia na biblioteca. No dia seguinte, no pátio, todos leram um poema para os colegas, professores e funcionários, explicando o motivo da escolha. Na próxima etapa, Ligia organizou a leitura compartilhada de Quadras ao Gosto Popular, de Fernando Pessoa (1888-1935). Os alunos interpretaram o texto, discutiram a função das rimas e as compararam com as de Duas Dúzias de Coisinhas à Toa que Deixam a Gente Feliz, de Otávio Roth (1952-1993). Outros poemas foram trabalhados para o estudo da linguagem conotativa e da denotativa e das figuras de linguagem. "Fomos examinando verso por verso", diz a professora.

Como instrumento avaliativo, Ligia pediu que lessem Meus Oito Anos, de Casimiro de Abreu (1839-1860). Eles responderam a algumas questões sobre os aspectos estruturais do gênero, vistos ao longo da sequência. A turma passou a ler poemas com mais desenvoltura e autonomia, além de reconhecer características que dão a esse tipo de texto um caráter poético.

Propor a leitura de diferentes obras literárias, como faz Ligia, é uma prática que não pode ser negligenciada. Ela pode ser feita pelo professor ou pelo aluno de forma individual, em grupo ou mesmo de forma coletiva, de acordo com os objetivos a serem alcançados. "A mediação entre leitores com diferentes níveis de experiência é crucial para a formação ao longo de toda a escolaridade", defende Cristiane Tavares.

Produção de texto com transformação

O que é Reescrever um texto e modificá-lo segundo os objetivos de aprendizagem, como produzir um novo desfecho de forma coerente com o restante da história, mudar o foco narrativo e converter um gênero em outro.

Por que propor Para ensinar a produzir textos de diferentes gêneros. Mesmo com a limitação do que pode ou não ser recriado, há espaço para a autoria.

Quando o narrador é o personagem

Lucas Yan Leite Araujo, 10 anos. Arquivo pessoal/Katia Xavier Barros da Silva
Lucas Yan Leite Araujo, 10 anos

Surpresa. Assim ficou a turma do 5º ano da EM Professora Maira Marcolina Xavier, em Ibitiara, a 532 quilômetros da capital baiana, quando Kátia Xavier Barros da Silva leu A Verdadeira História dos Três Porquinhos, de Jon Sciezka (32 págs., Cia. das Letrinhas, tel. 11/3707-3500, 31 reais). O motivo: a narrativa é contada pela perspectiva do lobo. As crianças comentaram as diferenças e semelhanças do texto em relação a outros já lidos e citaram algumas falas do lobo que não faziam parte dos que conheciam. Usando trechos de várias versões, a professora explicou a função do narrador. Em seguida, propôs escreverem histórias tradicionais tendo um dos personagens como narrador. Ficou acertado que os textos comporiam um livro para ser distribuído ao 6º ano.

A ideia do trabalho surgiu após Kátia assistir a uma palestra da pesquisadora argentina Ana Siro, que, em 2001, fez o mesmo com estudantes de Buenos Aires. No livro Narrar por Escrito do Ponto de Vista de um Personagem (168 págs., Ed. Ática, tel. 4003-3061, 39,50 reais), Ana e Emilia Ferreiro demonstram que eles aprenderam não só a dar voz aos personagens de histórias conhecidas mas também desenvolveram competências referentes à produção de autoria ao trazer em seus textos elementos de ironia e humor.

O primeiro passo do trabalho foi a reescrita individual de Chapeuzinho Vermelho sob o ponto de vista de um dos personagens. A atividade funcionou como diagnóstico. "Muitos tinham dificuldade em ordenar os fatos e outros não conseguiam separar o discurso direto do indireto. Havia alguns erros de ortografia e pontuação, como o uso do travessão", lembra Kátia. Em seguida, os alunos leram diferentes versões de Os Três Porquinhos e, em duplas, criaram a sua da perspectiva de um dos porcos. Quem escrevia melhor, encadeando os fatos de forma mais organizada, tinha a função de relator. O outro, que precisava se aprimorar mais em relação aos aspectos notacionais, assumia a posição de escritor. Esse agrupamento possibilitou o avanço de todos.

Para avaliar a aprendizagem da sala, Kátia deu um novo desafio: a reescrita de João e Maria. No fim de três meses, a garotada estava escrevendo com muito mais autonomia, coerência e coesão, respeitando as características do gênero, o interlocutor e os aspectos notacionais. Isso foi possível graças às revisões feitas a cada novo texto produzido. Elas tinham objetivos específicos: foco narrativo, discurso, ortografia e pontuação.

Nesses momentos, Kátia projetava no datashow trechos de textos que traziam erros recorrentes para que todos revisassem e comentassem. Essa foi a primeira vez que ela fez a correção de forma compartilhada. Antes realizava apenas as individuais. Para dar conta, pediu apoio para a coordenadora pedagógica. "Tive de negociar, trazer para a discussão os mais quietos e ao mesmo tempo não frustrar aqueles que tinham muitas sugestões. A solução foi levantar questões para que as crianças justificassem suas escolhas. Assim, juntas, elas foram encontrando o melhor caminho."

Produção de texto de autoria

O que é Criar enredos, construir personagens, defender ideias e contrapor argumentos para, assim, escrever textos coesos e coerentes, adequados ao gênero e ao suporte escolhidos e dentro dos padrões de linguagem socialmente aceitos.

Por que propor Para que o aluno se torne apto a elaborar um texto atraente e consistente, o que pressupõe a hierarquização e a seleção de informações e de argumentos relevantes, além de colocar em jogo estratégias diversas para obter determinada reação do leitor.

Sem medo de escrever

Nathalya Cristina Trevisanutto, 13 anos. Foto: Rafael Silva
Nathalya Cristina Trevisanutto, 13 anos

Assim como Nathalya, autora do texto que abre esta reportagem, os demais alunos do 8º ano B do CEEFM Doutor Duílio T. Beltrão aprimoraram sua escrita ao escrever relatos de memória, gênero que demanda uma grande preocupação com o foco narrativo. O autor conta lembranças que não são suas, e essa perspectiva precisa ser assumida pelo narrador em primeira pessoa, como explica Elizabeth Marcuschi, linguista e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no artigo Como Escrever as Memórias do Outro, Revelando Toda sua Singularidade? (os demais textos usados pela professora Vanicléia de Oliveira Sousa Rebelo também estão disponíveis no mesmo endereço).

O primeiro contato da turma com o gênero foi a leitura de um trecho de Por Parte de Pai, de Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), feita pela docente em sala. Em seguida, ela propôs que cada aluno escrevesse um texto de memória contando lembranças da infância. Nesse diagnóstico, encontrou problemas de ortografia, pontuação e repetição de palavras, além de dificuldade em selecionar os fatos e contá-los de forma linear.

Com a leitura compartilhada de diferentes textos, Vanicléia propôs uma reflexão sobre as características do gênero e suas marcas linguísticas, como "lembro que" e "hoje sei que". O passo seguinte foi a elaboração coletiva de um roteiro para que cada aluno entrevistasse um antigo morador da cidade. Após compartilharem os relatos, eles produziram a primeira versão dos textos. Alguns ainda se confundiam com o foco narrativo: ora escreviam em primeira pessoa, ora em terceira, e muitos ainda estavam descobrindo a linguagem literária. "Eles perceberam que não bastava ter o que falar. Tão importante quanto isso era a forma de dizer", explica a professora.

Além de momentos de revisão individual e coletiva, Vanicléia promoveu análises de textos de autores consagrados, como Tatiana Belinky, Fernando Sabino (1923-2004) e Manoel de Barros. Assim, trabalhou aspectos como a linguagem poética, o uso das figuras de linguagem e os sentidos conotativo e denotativo. Depois de várias reescritas, os jovens digitaram seu relato e trocaram com um colega. "Fizemos revisões ortográfica, de pontuação e concordância. Eles perceberam também que precisavam melhorar o conteúdo de alguns parágrafos."

O projeto se encerrou com a realização de uma exposição na escola. Assim, as pessoas da comunidade puderam ler os textos produzidos pelos estudantes e observar diferentes objetos que fizeram parte da vida dos que tiveram suas memórias documentadas.

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