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Jornalismo

Geografia: como abordar enchentes nas aulas dos Anos Finais do Ensino Fundamental?

A temática tem aparecido nos noticiários por conta das fortes chuvas que assolam o Brasil, e possibilita discussões e atividades significativas com a turma. Confira algumas propostas e um infográfico que pode ser usado em sala de aula

PorVictor Santos

14/02/2022

Crédito: Getty Images

O final de 2021 e o início de 2022 trouxeram notícias tristes relacionadas às fortes chuvas que afetaram diferentes regiões do Brasil. Na Bahia, as enchentes atingiram mais de 170 municípios, ocasionando mortes e deixando cerca de 26 mil desabrigados. Em Minas Gerais, 410 municípios declararam situação de emergência e registraram óbitos. As cheias do Rio Tocantins também deixaram desabrigados em três estados, Pará, Tocantins e Maranhão, enquanto em São Paulo, cerca de 30 mortes já foram contabilizadas em decorrência dos estragos causados pelas fortes tempestades no fim de janeiro. 

Por conta dessa presença maciça de enchentes e chuvas nos noticiários, NOVA ESCOLA foi ouvir educadoras em busca de respostas aos seguintes questionamentos: faz sentido levar esse tópico das enchentes para as aulas de Geografia nos anos finais do Ensino Fundamental? E, principalmente, como desenvolver esse trabalho? 

“De fato, a Geografia é colada na realidade e estuda essa realidade em movimento – por isso, é fundamental trabalhar tematizando com fatos atuais”, avalia Sueli Furlan, chefe do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora na área ambiental e com décadas de atuação na área da Educação. “Além disso, essas enchentes ocorreram agora, mas infelizmente não são um fenômeno datado. Temos um país que não dá a devida importância para questões climáticas e hidrológicas, o que torna ainda mais importante que os professores abordem esses fenômenos da natureza com as suas turmas, relacionando-os com temáticas sociais.” 

A seguir, detalhamos alguns caminhos para realizar essa abordagem com os estudantes, a partir de sugestões da especialista e de duas professoras de escolas públicas. Ao final, trazemos um infográfico especial sobre o tema, que pode ser impresso e exibido em sala de aula.

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Ensinando com o apoio de notícias: caminhos e possibilidades 

De acordo com as educadoras entrevistadas, considerando que estamos falando de um tema que está constantemente na mídia neste início de ano, é interessante utilizar as próprias reportagens nas atividades sobre enchentes. É possível construir, com apoio desses conteúdos, algumas pautas investigativas para conduzir com os alunos. 

“Esse é um tema muito comum com as minhas turmas, que trago em todo começo de ano”, destaca Ana Paula Teixeira de Mello, professora de Geografia na Escola Municipal Alberto Francisco Torres e coordenadora de Geografia na Fundação Municipal de Educação, em Niterói (RJ). “Particularmente, nesses tempos em que os alunos se informam tanto por redes sociais, gosto de variar e levar um jornal impresso para a sala de aula, porque eles não têm o costume de buscar informações assim. Então, trago reportagens sobre temas ligados às enchentes e peço que desenvolvam um olhar sobre essas questões, com perguntas como: ‘você pegou uma chuva como essa da Bahia ou de Minas Gerais? O que aconteceu? Por que você acredita que houve essa chuva?’”. 

Eliane Chaves, professora de Geografia dos anos finais do Ensino Fundamental há mais de vinte anos e do Ensino Médio na Escola Estadual Professor José Monteiro, em Campo Belo (MG), também salienta como um trabalho nessa linha pode ser bastante rico para professores e estudantes. “Sou uma professora que gosta de ouvir os alunos, quero saber até onde vão os conhecimentos prévios deles, e o que podem trazer para a sala de aula. Então, um trabalho com o tema das enchentes envolve muita conversa inicial e a possibilidade de exibir reportagens e entrevistas em vídeo, por exemplo.” 

Segundo a educadora, partir desses questionamentos para apurar o que os estudantes já sabem é fundamental uma vez que eles estão nesses contextos. “Aqui em Minas Gerais, fomos atingidos por muitas enchentes este ano. Na minha cidade mesmo há um ribeirão que costuma transbordar”, aponta. “Então, às vezes, os alunos podem até já ter passado por uma situação desse tipo ou têm um vizinho, parente ou conhecido que passou.” 

A especialista Sueli Furlan enfatiza que trabalhar com notícias e com o método investigativo é um caminho com muitas possibilidades. “Uma sugestão é partir desse levantamento midiático e questionar por que está acontecendo tanta chuva e por que ocorrem enchentes”, destaca. “Nesse sentido, é interessante trabalhar linguagens – por exemplo, analisar os termos e expressões que aparecem nas reportagens, como ‘imagens de satélite’, ‘La Niña’ e outros conceitos, eventualmente construindo um glossário.” 

Munidos desse detalhamento, complementa Sueli, é possível seguir adiante na problematização, investindo em muita leitura crítica e debates. “Seguindo com essa investigação, pode-se pensar num estudo de caso, com o professor propondo, por exemplo, estudar o que aconteceu em Minas Gerais”, indica. “Isso dá abertura para se debruçar sobre questões como o que é um rio e o que são bacias hidrográficas e regimes hidrológicos. Por fim, vale chegar ao tópico sociedade, verificando com os alunos porque essas pessoas foram atingidas pelas enchentes. Será que alguém deixou uma parte da sociedade exposta a esses riscos, ocupando terrenos inundáveis?”, questiona. 

Foco no perfil social dos afetados

As três entrevistadas frisaram um ponto que consideram crucial para ser abordado nessas aulas: o fato de que as enchentes têm sujeitos. “Embora os eventos não escolham classes sociais, nós escolhemos quem estará mais exposto”, sublinha Sueli. Por isso, é importante consolidar questionamentos aos alunos a respeito do perfil social dos afetados. 

“Algumas perguntas importantes são: ‘Quem são as pessoas mais atingidas? Onde elas moram? Como é essa rua em que elas moram? E como é o acesso delas à limpeza urbana?’”, enumera Ana Paula. A professora Eliane concorda que essas reflexões são de fato significativas, “para que os estudantes se deem conta que pessoas de baixa renda vão morar em locais de maiores riscos, enquanto aquelas de maior renda não vão estar tão inseridas nas consequências das chuvas”.

Na sala de aula: leitura crítica e produção de texto

Segundo Sueli, a questão das águas aparece em todos os anos do Ensino Fundamental, dentro de diferentes temáticas na Geografia. Isso possibilita que os educadores planejem pontes e ligações desses acontecimentos atuais com os tópicos a serem abordados nas aulas. Com apoio das professoras, buscamos detalhar como é possível trabalhar o tema nas diferentes etapas dos anos finais do Fundamental. 

Conforme explica Ana Paula, que é autora de um plano de aulas da NOVA ESCOLA sobre enchentes em áreas urbanas para o 6º ano, especialmente pensando em alunos dessa etapa e do 7º ano, trata-se de uma oportunidade para trazer explicações relacionadas ao ciclo da água. 

“Ao falar sobre enchentes e alagamentos, é importante que eles entendam que tudo é um ciclo. A retirada da cobertura vegetal e a colocação de asfalto e concreto levam à impermeabilização do solo urbano, intensificando os alagamentos, porque o solo não absorve essa água”, reforça a professora. “Nessa perspectiva, é preciso que eles compreendam que um rio é vivo. Quando a quantidade de água aumenta, como ocorre após fortes tempestades, ele pode dobrar, triplicar de volume. Logo, construir casas no entorno desse rio, infelizmente, é fatal, porque, com as chuvas, ele vai transbordar e alagamentos vão acontecer”. 

A proposta da educadora envolve levar reportagens de jornal impresso para a sala de aula. “Depois da leitura crítica dessas notícias, o passo seguinte é os estudantes escreverem com as suas próprias palavras o que entenderam da reportagem, como se fossem fazer seus próprios ‘mini jornais’ – fica liberado recortar, colar, enfim, montar como preferirem”. Além disso, Ana Paula salienta que muitas cidades possuem cartilhas com conteúdos sobre como proceder durante enchentes e sobre o risco de doenças como leptospirose, sendo uma outra opção do que os estudantes podem produzir nesse momento em sala. 

A etapa seguinte envolve a troca desses ‘jornaizinhos’ ou cartilhas entre os colegas. “Com isso, cabe ao aluno destacar a visão do seu colega sobre esse tema das enchentes, compartilhando a informação com a turma. Isso abre caminho para discussões entre eles, indicações do que pode ser melhorado, e tira do professor esse papel de ‘avaliador’, porque os alunos têm condições de trocar entre si”, observa Ana Paula.

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Enchentes e crescimento das cidades

Quando entramos no 8º e 9º anos, a professora Eliane Chaves ressalta que é possível aumentar o nível de complexidade na hora de trabalhar com esse assunto. “Por exemplo, podemos intensificar essa relação das enchentes com o crescimento das cidades, destacando o manejo dos rios urbanos. Um rio que possuía meandros e foi tornado reto para poder urbanizar a área é uma urbanização errada [e terá consequências]. Esse rio precisava dos meandros, e eles foram retirados, assim como foram retiradas as árvores e a cobertura vegetal da área urbana. Então, se chover, a água vai subir e não será absorvida pelo solo – ou seja, [ocorrerá] enchente”. 

A educadora acrescenta que nesses dois últimos anos do Fundamental, há espaço para tratar de fenômenos como El Niño e La Niña. “Por exemplo, nesse ano, as chuvas aqui em Minas Gerais e nas regiões Sudeste e Nordeste tiveram relação com La Niña, enquanto o Sul do país enfrenta uma seca. Isso é interessante para o aluno verificar como é diversificada a questão climática nesse Brasil de tamanho continental”. 

Dessa forma, para estruturar essa aula, o ponto inicial consiste no levantamento do conhecimento prévio dos estudantes, seguido pela exibição de entrevistas e reportagens em vídeo. “Depois disso, uma possibilidade é iniciar as explicações, indicando o que se pretende detalhar. Cabe aí falar sobre questões como enchentes, assoreamento e urbanização e ainda trazer explicações sobre como se dão El Niño e La Niña – neste caso, são necessárias ao menos duas aulas”, sugere Eliane. 

O ponto seguinte é conferir o que os alunos captaram dentro do que já foi apresentado. “Peço que eles anotem, desenhem ou mesmo que alguém vá até o quadro – eles adoram ir até a lousa. Eu falo: ‘escreve aí pra mim tudo que você entendeu, rapidinho, jogo rápido’”, diverte-se. Depois, Eliane recomenda solucionar as dúvidas identificadas e partir então para uma atividade de maior aprofundamento. Neste caso, a sugestão envolve dividi-los em grupos de 5 ou 7 alunos, prática um pouco mais dificultada atualmente por conta dos protocolos sanitários devido à covid-19, como ressalta a professora. A partir daí, tem início uma pesquisa, que pode ser feita pela internet ou por meio de livros e materiais impressos. 

“A divisão pode ser [atribuir que] um grupo vai estudar o El Niño, o outro o La Niña, um vai falar dos efeitos desses fenômenos no Nordeste, outro no Sudeste, outro no Sul, e por aí vai”, exemplifica. Feito isso, ela frisa que o encerramento é o ponto culminante da atividade. “Na conclusão, gosto de dar autonomia para os estudantes, então eles podem apresentar da forma como preferirem, seja por cartaz, poesia… Cada um vai ter um modo de expressar essa culminância, apresentando os resultados das pesquisas”, diz.

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Por fim, a especialista Sueli Furlan afirma que essa temática das enchentes tem o potencial de impulsionar, nas escolas, importantes discussões relacionadas ao meio ambiente. “Torna-se viável a construção de propostas que coloquem o aluno como sujeito de investigação na Educação ambiental. As mídias vêm como um suporte nessa busca por uma compreensão cidadã, relacionada a temas como sustentabilidade, políticas públicas de saneamento e extremos climáticos. É uma chance de informar e formar pessoas mais conscientes.” 

Infográfico: enchentes no Brasil

Considerando as muitas possibilidades de se levar o assunto das enchentes para os anos finais do Ensino Fundamental com apoio de conteúdos jornalísticos e informativos, NOVA ESCOLA elaborou um infográfico especial sobre esse tema – disponível em duas versões: digital e para impressão. 

A proposta é trazer algumas explicações sobre as características de um rio e sobre por que as enchentes ocorrem, apresentar discussões sobre o perfil social das populações atingidas e ainda lançar um olhar para o fenômeno do La Niña que atingiu o Brasil em 2022. 

A ideia é que os professores possam utilizar esse arquivo da forma como preferirem: impresso em cópias para distribuir para os estudantes, impresso em tamanho grande, colado na parede, exibido no projetor ou no formato digital. Baixe o infográfico e bom trabalho!

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