Apesar das diferenças, o espanhol é um só

Muita gente pensa que as variantes linguísticas não fazem parte dos idiomas. Isso não é verdade. Elas precisam ser exploradas de modo permanente na sala de aula

POR:
Beatriz Vichessi
No Colégio de Aplicação da UFG os estudantes registram em um dicionário pessoal as variantes linguísticas do espanhol que aprendem trabalhando com materiais de diversos países. Foto: Carlos Costa
VÁRIAS OPÇÕES No Colégio de Aplicação da UFG, em Goiânia, os estudantes registram em um dicionário pessoal as variantes linguísticas do espanhol que aprendem trabalhando com materiais de diversos países

Durante a leitura de um texto em espanhol publicado em uma propaganda de moda, a turma do 6º ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, olhou com desconfiança para o termo remera. De acordo com o contexto, ele só poderia significar uma coisa. Os alunos questionaram: "Remera é o mesmo que camiseta?" Orientados pela professora Fabiana Ferreira, foram pesquisar o significado da palavra e descobriram que remera é o mesmo que camiseta e que esse é o termo mais usado no Uruguai, na Argentina e no Paraguai, enquanto camiseta é mais comum na Espanha.

"Como assim?" "Cada um fala de um jeito?" "Quem está certo?" A moçada estava intrigada. Essa foi a deixa para Fabiana chamar a atenção para um aspecto importante: a existência de variantes linguísticas. "Busco apresentar textos e vídeos com termos que não sejam típicos da Espanha para que ao longo da escolaridade os alunos se conscientizem de que não existe um espanhol correto ou melhor", explica a professora.

De fato, garantir que a turma tenha contato com a amplitude lexical do idioma é uma preocupação que deve permear a prática do professor de Língua Estrangeira. "Ao planejar as aulas, é preciso contemplar o vocabulário de outras regiões espanholas além de Madri e de todo o espaço hispano-americano", diz Valesca Irala, supervisora de estágio do curso de Letras da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campus de Bagé. Para atingir esse objetivo, é desejável extrair de fontes variadas o material para trabalhar, não confiando a missão só aos livros didáticos. Muitos deles reúnem somente textos escritos de acordo com o espanhol peninsular (considerado clássico por muita gente, ainda que os linguistas afirmem que não existe um único padrão) e alguns, quando listam vocábulos típicos de outros países, conferem a eles um tratamento secundário, como se fossem uma "exceção" à regra culta.

Fabiana trabalha com reportagens, letras de músicas, programas de televisão e outros suportes vindos de diversos países que têm o espanhol como idioma oficial. E orienta os estudantes a reservarem um espaço do portfólio de Língua Estrangeira para organizar um dicionário pessoal, que permita registrar o significado de algumas palavras e as variantes linguísticas aprendidas nas aulas. O termo pollera, encontrado em uma revista argentina, por exemplo, rendeu uma anotação. "Eles já conheciam falda, usado na Espanha. Com a publicação, aprenderam outro jeito para designar saia", fala a professora.

Quando as variantes linguísticas aparecem, ela também faz questão de lembrar que, ao expressar-se em espanhol, não é necessário se preocupar em lançar mão de um termo só, cuidando para só falar o espanhol da Argentina ou do Peru, por exemplo. "Explico que, durante um diálogo, se uma pessoa não entender o que for dito, ela vai pedir esclarecimentos, tal como às vezes um gaúcho faz ao conversar com um goiano." E o que fazer quando se lê um texto ou se vê um programa de televisão? A chave é usar o contexto em prol da compreensão do termo desconhecido.

Como você pode perceber, levar as variantes linguísticas para a sala de aula não significa separar aulas para pontuar que existem diversas maneiras de empezar a hablar al teléfono (¡Oigo! em Cuba, ¡Aló! no Chile e na Colômbia, ¡Hola! na Argentina e no Uruguai e ¡Dígame! na Espanha, por exemplo). Não é também organizar momentos só para falar e escrever o espanhol da Argentina, outros para o do Chile e assim por diante. "Não se aprende espanhol só para se comunicar com pessoas que têm esse idioma como língua materna. Um brasileiro pode se comunicar com um francês hablando en español e ambos vão falar um espanhol que não é específico de lugar nenhum, mas que aprenderam misturando essas variantes", diz Valesca.

O que garante à turma desenvolver a capacidade de entender e se fazer entender é o contato frequente com novos termos (e o uso também, evidentemente). Por isso, observe se os estudantes incorporam novas palavras em suas produções (orais e escritas). É fundamental analisar também se, ao procurar por um termo correspondente para uma palavra em espanhol, a garotada vai além do significado em português. Entender uma palavra em espanhol ou em qualquer outra língua estrangeira é reconhecer todas as variantes como legítimas e utilizá-las. Afinal, como define o sociolinguista Fernando Barallo, "variantes linguísticas são diversas maneiras de dizer a mesma coisa em um mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade".

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